A economia americana segue crescendo em ritmo considerado saudável, mas uma parcela cada vez menor desse crescimento está chegando ao bolso de quem trabalha. É o que mostra reportagem da CNN sobre a chamada participação do trabalho na renda nacional, indicador que mede quanto da produção econômica total é destinado a salários e benefícios de empregados.
Segundo dados do Bureau of Labor Statistics (BLS) citados pela CNN, essa fatia caiu para 52,8% no início deste ano, o menor patamar já registrado desde que a série histórica do órgão começou a ser compilada, em 1947.
Trabalhadores perdem poder na era da tecnologia
Para Heather Long, economista-chefe da Navy Federal Credit Union, o dado escancara a perda de poder de barganha dos trabalhadores diante do avanço tecnológico. Em entrevista à CNN, ela afirmou que os ganhos financeiros do crescimento econômico atual estão concentrados majoritariamente nos acionistas e donos de capital, e cada vez menos chegam ao trabalhador assalariado comum.
A reportagem destaca que a queda na participação do trabalho vem ocorrendo, com oscilações, desde a disseminação da computação pessoal, há mais de 25 anos. Neste ano, porém, a retração foi mais acentuada, o que, segundo Long, provavelmente reflete o volume elevado de investimentos e a rápida adoção de tecnologias de inteligência artificial pelas empresas — além de sinalizar uma tendência que pode se aprofundar.
Long chegou a classificar esse gráfico como motivo de preocupação, dizendo à CNN acreditar que as pessoas continuarão tendo empregos na era da IA, mas que não colherão boa parte dos benefícios financeiros gerados por ela.
Michael Feroli, economista-chefe para os Estados Unidos do JPMorgan, foi além ao avaliar, segundo a CNN, que, considerando as tendências recentes e os efeitos esperados da inteligência artificial, a medida do BLS pode recuar para abaixo de 50% até o fim da década.
Leituras divergentes sobre a extensão do problema
A reportagem pondera que os dados econômicos raramente são tão lineares, e que, por outras métricas, o cenário não é tão grave quanto sugere o levantamento do BLS — especialmente quando se consideram fatores como depreciação, tributos, remuneração em ações e o crescimento das chamadas empresas pass-through.
O economista Abhay Duggirala, do Goldman Sachs, estimou que 40% da queda de 7,5 pontos percentuais na participação do trabalho desde os anos 1990 pode ser atribuída a três fatores específicos, de acordo com nota de pesquisa citada pela CNN: mudanças na legislação tributária que levaram mais empresas a se organizar como entidades pass-through, fazendo com que parte da remuneração fosse reclassificada como lucro empresarial com vantagens fiscais; maior dependência de bens de vida curta, como computadores e softwares, o que elevou as taxas de depreciação — valor não descontado das medições brutas de atividade econômica; e uma subestimação, pelo indicador do BLS, de formas de remuneração baseadas em incentivos e participação acionária.
Os 60% restantes do aumento na diferença, segundo Duggirala, resultam de margens de lucro mais altas, maior concentração setorial, avanço da automação e enfraquecimento do poder de barganha dos trabalhadores. Ele escreveu, em trecho reproduzido pela CNN, que, caso essas tendências estruturais persistam — inclusive pela tendência de a IA automatizar tarefas adicionais —, a participação do trabalho deve continuar caindo.
Já um levantamento separado da Tax Foundation, que exclui componentes como depreciação e tributos, concluiu que a participação do trabalho segue dentro de patamares historicamente observados. Richard DiSalvo, economista sênior da entidade, disse à CNN que os trabalhadores recebem cerca de metade de cada dólar de renda bruta, mas que boa parte do que é contabilizado nessa renda bruta não chega a lugar nenhum — ou seja, não constitui ganho de ninguém.
Para DiSalvo, a abordagem mais adequada seria calcular a fatia de capital sobre a renda líquida, e não sobre a bruta. Por esse critério, a participação do capital ficaria entre 22,6% e 31,7%, bem distante da metade sugerida pelos dados brutos do BLS. Segundo ele, a divergência com outras leituras não está em negar que a participação do trabalho caiu nas últimas duas décadas, mas em discordar da magnitude dramática sugerida pelos números do BLS.
O custo em dólares para as famílias
Mesmo diante dessas ressalvas metodológicas, Gregory Daco, economista-chefe da EY-Parthenon, afirmou à CNN que qualquer queda na participação do trabalho merece atenção, sobretudo no contexto de uma revolução tecnológica em curso. Segundo ele, a economia segue crescendo em ritmo relativamente robusto, mas nem todos estão compartilhando esse crescimento de forma equivalente.
Daco atribuiu o fenômeno à combinação entre margens de lucro corporativas em máximas históricas — particularmente nas empresas ligadas à onda de inteligência artificial — e aos esforços contínuos das lideranças empresariais por controle de custos, somados à queda do poder de barganha dos trabalhadores. Para ele, trata-se de um processo lento, mas com consequências reais sobre os gastos e o sentimento do consumidor.
Para dimensionar o impacto, Daco calculou que um retorno a uma participação do trabalho de 56%, numa economia que gera US$ 23,6 trilhões em renda doméstica bruta ajustada pela inflação, equivaleria a um ganho de US$ 3.900 por domicílio. Já um retorno aos níveis do início dos anos 2000, próximos de 62%, representaria um aumento de US$ 14.400 por domicílio, segundo ele.
Clima de consumo pressionado
Heather Long reforçou à CNN que as implicações de uma participação do trabalho em queda contínua são concretas, com potencial para ampliar a insatisfação das famílias. Ela descreveu a mudança como dramática e perceptível pelas pessoas, associando o fenômeno à ascensão do populismo, às preocupações com o custo de vida e ao distanciamento crescente entre o topo da distribuição de renda — o 1% mais rico — e o restante da população.
A reportagem lembra que o sentimento do consumidor americano vem se deteriorando ao longo deste ano, pressionado por uma alta nos preços da gasolina ligada a um conflito bélico e por preocupações sobre os efeitos potencialmente negativos da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho — fatores que se somam às já conhecidas queixas sobre o custo de vida.
A inflação, que segundo a CNN está em patamar elevado há mais de cinco anos, voltou a acelerar nos últimos meses. Isso levou o Federal Reserve a elevar juros pela primeira vez em três anos, encarecendo ainda mais o crédito. A autoridade monetária se reúne nesta semana, e a expectativa, conforme a reportagem, é de manutenção da taxa básica.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha ativos americanos, o recuo na participação do trabalho na renda é um dado estrutural relevante: ele ajuda a explicar por que margens corporativas — sobretudo em empresas ligadas à inteligência artificial — seguem em máximas, mesmo num ambiente de juros elevados e inflação persistente. Enquanto essa dinâmica se mantiver, o apetite por ações de companhias de tecnologia e automação tende a encontrar sustentação nos fundamentos de lucro, ainda que às custas de uma distribuição de renda mais desigual.
Ao mesmo tempo, os números de Daco sobre o impacto por domicílio — na casa de milhares de dólares ao ano, dependendo do cenário de participação do trabalho — sinalizam um risco para o consumo interno americano no médio prazo. Um consumidor mais espremido tende a pressionar o varejo, os serviços intensivos em mão de obra e setores dependentes de renda disponível, o que pode se tornar um fator a monitorar em carteiras expostas a essas pontas da economia dos EUA.
A divergência metodológica entre BLS, Goldman Sachs e Tax Foundation também é um alerta para o investidor: nem todo indicador que aparece como recorde histórico reflete a mesma magnitude de mudança estrutural. Vale acompanhar os próximos dados do BLS e a decisão do Fed desta semana — mantida a taxa estável, como é a expectativa citada pela CNN —, já que a combinação entre juros, inflação e participação do trabalho na renda deve seguir influenciando tanto o sentimento do consumidor quanto a precificação de risco nos mercados americanos.
Agregado por AAR News · fonte: CNN
Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos