Autoridades americanas voltaram a pressionar Pequim sobre questões de acesso ao mercado chinês para Mastercard Inc. e Citigroup Inc. durante pelo menos dois encontros bilaterais com representantes chineses em Bangcoc nesta semana, segundo um funcionário do Tesouro dos Estados Unidos ouvido pela CNBC sob condição de anonimato.
A delegação do Tesouro, chefiada pelo vice-secretário Francis Brooke, se reuniu com integrantes do Banco Popular da China (PBOC) e do ministério das Finanças à margem das reuniões de finanças do G20 e do encontro anual conjunto do FMI e do Banco Mundial.
Segundo a fonte, as conversas trataram do acesso ao mercado chinês para empresas americanas, incluindo Mastercard, Visa e Citigroup, e a aprovação regulatória fazia parte do acordo selado entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping durante a visita de Estado do líder chinês a Washington no mês passado. Os encontros em Bangcoc, de acordo com o funcionário, deram sequência às discussões sobre a implementação desses entendimentos.
O PBOC, a Administração Nacional de Regulação Financeira da China, a Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China, as embaixadas chinesas em Singapura e na Tailândia, o departamento de imprensa do Tesouro dos EUA e a Visa não responderam de imediato aos pedidos de comentário da CNBC. Citigroup e Mastercard preferiram não comentar.
Avanços recentes e histórico das licenças
O episódio ocorre após a China ter aprovado, em 13 de outubro, que a Visa Inc. comece a preparar um negócio de processamento de cartões totalmente controlado por ela em território chinês. Segundo o PBOC, a Visa tem até um ano para se preparar antes de solicitar formalmente a licença de operação.
A China vem abrindo parte relevante de seu setor financeiro a empresas estrangeiras desde 2018, afrouxando gradualmente os limites de participação acionária em serviços como valores mobiliários, futuros e gestão de fundos. Ainda assim, o país mantém restrições a fluxos de capital transfronteiriços e preserva o domínio de players estatais no setor de pagamentos.
A Mastercard já opera pagamentos com cartão em yuan na China por meio de uma joint venture local com a NetsUnion Clearing Corp., que começou a funcionar em 2024. De acordo com a fonte ouvida pela CNBC, a aprovação pendente permitiria à empresa atuar como entidade independente no país.
Citigroup busca licença de corretagem onshore
O Citigroup — que já contratou dezenas de funcionários para sua unidade chinesa — busca uma licença de valores mobiliários de propriedade integral para atuar em corretagem de ações classe A, subscrição, pesquisa e operações proprietárias no mercado onshore, segundo duas pessoas familiarizadas com o setor que pediram anonimato por tratarem de assuntos privados.
Uma dessas pessoas próximas ao banco afirmou que o Citigroup planeja ampliar sua equipe de valores mobiliários na China para cerca de 100 funcionários. O banco protocolou o pedido no fim de 2021, e a Reuters informou no mês passado que a aprovação poderia sair em breve.
Próximo encontro entre Trump e Xi
Trump e Xi devem se reunir pessoalmente pela terceira vez neste ano em Shenzhen, na China, por ocasião da cúpula do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), em novembro.
Dan Wang, diretora para a China da consultoria Eurasia Group, avaliou que o movimento sugere que o ambiente comercial entre Estados Unidos e China segue favorável, e que Pequim tem interesse em manter o ritmo das negociações. Segundo ela, licenciar instituições financeiras americanas representa uma concessão limitada em termos de acesso ao mercado, mas sinaliza que a China continua em processo de abertura — o que, em suas palavras, deve reforçar marginalmente a confiança dos investidores em ativos chineses.
O que isso significa para o investidor
O desenrolar dessas negociações bilaterais interessa diretamente a quem acompanha ativos ligados a instituições financeiras globais com exposição à China. A eventual concessão de licenças independentes para Mastercard e de uma licença de corretagem onshore para o Citigroup representaria uma ampliação concreta da presença dessas empresas no mercado chinês, ainda que dentro de um processo histórico de abertura gradual e seletiva do setor financeiro do país.
Vale observar que, segundo a própria fonte consultada pela CNBC, trata-se de uma concessão limitada — não de uma liberalização ampla do setor de pagamentos ou de valores mobiliários chinês, que segue dominado por players estatais e com restrições a fluxos de capital transfronteiriços. Investidores que avaliam exposição a Visa, Mastercard e Citigroup devem acompanhar os próximos passos regulatórios, especialmente o prazo de até um ano dado à Visa para solicitar sua licença de operação e a tramitação do pedido do Citigroup, protocolado ainda em 2021.
O encontro programado entre Trump e Xi em Shenzhen, em novembro, durante a cúpula da Apec, desponta como o próximo marco a observar: qualquer sinalização adicional sobre a relação comercial bilateral tende a repercutir no apetite por ativos chineses e por papéis de empresas financeiras americanas com operações na China. A fala de Dan Wang, da Eurasia Group, sobre o possível reforço marginal na confiança em ativos chineses, reforça que o mercado já precifica esse processo como incremental, não estrutural.
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