Os desenvolvedores do Ethereum suspenderam a ativação da atualização Glamsterdam na rede de testes Hoodi depois que pesquisadores de segurança apontaram um problema que poderia alterar o comportamento de contratos inteligentes já em operação na rede principal. O risco identificado é que falhas em transações passem a ser registradas de forma permanente, em vez de serem revertidas como ocorre hoje.
A ativação estava marcada para o dia 26 de outubro, às 17h42min48s UTC. A decisão de adiar foi tomada durante a reunião All Core Devs Execution de quinta-feira, com o objetivo de investigar como uma mudança proposta na contabilização de gás interage com contratos que já rodam na mainnet. Até o momento, nenhuma nova data foi divulgada para o teste em Hoodi nem para a atualização na rede principal do Ethereum.
O que está em jogo com as propostas EIP-8037 e EIP-8038
O centro da preocupação é a proposta EIP-8037, que muda a forma como o Ethereum cobra pela criação de novos registros em seu banco de dados. A ideia por trás da mudança é conter o crescimento desse banco de dados à medida que a rede amplia sua capacidade de processar transações.
A empresa de segurança ChainSecurity publicou, em 13 de outubro, uma análise mostrando que essa alteração, combinada com a EIP-8038, poderia modificar a maneira como contratos reagem quando outro contrato que eles chamam fica sem gás — a taxa usada para remunerar os operadores da rede.
Alguns contratos são programados para identificar uma operação que falhou e seguir em frente mesmo assim: registrando a tentativa como malsucedida, bloqueando novas tentativas ou avançando para outra etapa. Segundo a análise, desenvolvedores costumam contar com o fato de que o gás restante seria insuficiente para completar essas ações, o que faz a transação inteira ser revertida.
O Glamsterdam alteraria esse cálculo. Pelas novas regras propostas, o gás usado para criar determinados registros poderia ser restituído quando essas alterações são desfeitas. Isso deixaria gás suficiente para que um contrato conclua uma operação de tratamento de falha que, nas regras atuais, resultaria em reversão da transação.
Há também um risco na direção oposta. De acordo com os cálculos da ChainSecurity, a criação de um novo espaço de armazenamento poderia exigir 110.020 unidades de gás quando uma reserva separada estiver esgotada, contra 22.100 unidades nas regras atuais. Nesse cenário, um contrato que opere com um orçamento de gás já definido poderia falhar mesmo ao executar uma operação que seria, em princípio, válida.
A ChainSecurity afirma que suas descobertas dizem respeito a como o software existente se comportaria sob as regras propostas. A empresa demonstrou os mecanismos de risco, mas não estabeleceu publicamente que algum protocolo relevante em produção seja, de fato, explorável nesses termos.
O escopo da atualização Glamsterdam
O Glamsterdam reúne uma série de mudanças para o Ethereum, incluindo um novo sistema de escolha de construtores de blocos e aprimoramentos voltados a permitir que a rede processe blocos maiores. A atualização já havia concluído sua ativação na rede de testes Sepolia em 6 de outubro.
Hoodi seria o próximo ensaio público, acompanhado de um aumento planejado no limite de gás para 200 milhões — elevação que também ficou suspensa com o adiamento anunciado agora.
O que isso significa para o investidor
O adiamento reforça um padrão já conhecido do desenvolvimento do Ethereum: mudanças estruturais na camada de execução passam por múltiplas rodadas de teste justamente para evitar que efeitos colaterais cheguem à rede principal, onde bilhões em contratos inteligentes estão em operação. Para quem investe em ativos digitais ou em empresas expostas à infraestrutura Ethereum, o episódio é mais um lembrete de que cronogramas de upgrades técnicos tendem a ser fluidos e não devem ser tratados como catalisadores de curto prazo.
Vale observar que o Ethereum tem ganhado tração institucional em paralelo a esses ajustes técnicos — como mostrou a expansão do JPM Coin do JPMorgan para a rede Ethereum, noticiada pelo AAR News em 19 de outubro, motivada pela liquidez da rede e pela demanda de clientes institucionais. Esse tipo de adoção depende, justamente, da confiabilidade da camada de execução — o que torna a cautela dos desenvolvedores diante dos achados da ChainSecurity relevante também sob a ótica de quem acompanha a infraestrutura usada por grandes instituições financeiras.
Segundo cotação do scanner TradingView referente a 25 de outubro de 2026, às 10h44 (horário de Brasília), o Ethereum era negociado a US$ 2.332,75, com queda de 0,99% no dia — movimento que, isoladamente, não permite atribuir qualquer relação direta com o adiamento técnico noticiado. Para o investidor, o ponto de atenção prático é acompanhar os próximos anúncios dos Core Devs sobre uma nova data de teste em Hoodi e, posteriormente, sobre o cronograma revisado para a mainnet, já que atrasos recorrentes em upgrades de execução podem postergar benefícios esperados de escalabilidade da rede.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
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