Empresas brasileiras aumentaram de forma expressiva o uso de criptoativos no domingo da eleição presidencial, buscando proteção para seus caixas diante da incerteza sobre o resultado da disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, segundo reportagem da CoinDesk. O movimento ocorreu enquanto os mercados tradicionais estavam fechados, o que levou parte das tesourarias corporativas a buscar alternativas de hedge via cripto antes mesmo da apuração dos votos.
Na exchange Mercado Bitcoin, contas corporativas responderam por 78% do volume negociado no domingo da votação, de acordo com a própria plataforma. O giro do USDT, stablecoin atrelada ao dólar emitida pela Tether, saltou quase 800% em relação ao domingo anterior, superando em mais do triplo a média das quatro semanas precedentes. O volume de negociação de bitcoin, cotado na reportagem a US$ 84.459,46, cresceu 865% na comparação com o domingo anterior, segundo dados da exchange.
Pressão fiscal no radar
A plataforma de governo de Lula, que prevê aumento de gastos sociais e proibição das apostas on-line — medida que reduziria a arrecadação tributária —, alimentou receios sobre a saúde fiscal do país em caso de vitória do petista, somando-se à pressão sobre o real e mantendo elevado o custo da dívida. O aumento do endividamento, novos compromissos de gastos e o espaço limitado para elevação de impostos tornariam esse quadro mais difícil de equacionar, segundo a reportagem.
Pedro Fontes, analista de pesquisa da Mercado Bitcoin, afirmou em análise compartilhada com a CoinDesk que o episódio "reforça a lógica de não depender apenas do real" para os investidores. Segundo ele, em um cenário de maior pressão cambial, stablecoins como USDT e USDC são uma forma simples de dolarizar parte dos ativos, a qualquer momento e a partir de valores baixos. Fontes também apontou que um Congresso com oposição mais forte poderia dificultar o enfrentamento dos problemas fiscais, reforçando o apelo de ativos precificados em mercados globais.
As preocupações das empresas se confirmaram no pregão seguinte: o Ibovespa despencou 14% na segunda-feira, seu pior desempenho desde março de 2020, enquanto o dólar saltou mais de 8% ante o real, o maior ganho diário da moeda americana desde 1999, segundo a CoinDesk.
Virada inesperada
A reação do mercado havia sido diferente três semanas antes, quando Bolsonaro terminou à frente de Lula no primeiro turno. Naquela ocasião, o Ibovespa subiu 7,7% e o dólar recuou mais de 4% frente ao real, em meio à expectativa de investidores por uma mudança de governo e maior controle dos gastos públicos.
A vitória de Lula o tornou o primeiro candidato presidencial na democracia moderna do Brasil a vencer após ter ficado em segundo lugar no primeiro turno. Ainda assim, segundo a Mercado Bitcoin, as empresas do país adotaram postura cautelosa diante do pleito. A própria exchange afirmou que "o principal motor do volume foram empresas buscando proteger seus caixas", acrescentando que clientes de varejo responderam por apenas 22% do volume negociado, enquanto clientes corporativos geraram 78% do total no domingo. A plataforma informou ainda que seus clientes corporativos costumam manter até 15% de seus ativos na exchange.
Movimento também fora da Mercado Bitcoin
O aumento das negociações em reais não ficou restrito à Mercado Bitcoin. Dados da Biscoint, que acompanha preços e volumes de cripto em dez plataformas, incluindo Binance e MB, mostram que o giro do USDT contra o real cresceu 150% em relação ao domingo anterior, enquanto o volume do USDC, a segunda maior stablecoin, saltou 318%.
O avanço se estendeu à segunda-feira: o volume combinado de USDT e USDC atingiu 1,84 bilhão de reais (US$ 350 milhões), 65% acima da semana anterior, enquanto a negociação de bitcoin cresceu mais de nove vezes, chegando a 1.336 BTC. Esses aumentos ocorreram em contraste com quedas registradas em outras praças: na Binance, por exemplo, o giro de bitcoin contra o real cresceu 370%, enquanto o par global BTC/USDT registrou queda de 25%. O bitcoin ganhou 9,4% frente ao real, ao mesmo tempo em que recuou 0,2% frente ao USDT, movimento compatível com uma reprecificação da moeda brasileira diante da reação dos investidores ao resultado eleitoral.
Mercados de previsão erraram a aposta
A expectativa de vitória de Bolsonaro também havia sido refletida em mercados de previsão. Em prévia publicada em 24 de outubro, a Kalshi atribuía a ele 84% de chance de vitória, mesmo que o próprio texto da plataforma descrevesse as pesquisas como mostrando uma disputa extremamente acirrada. Kalshi e Polymarket estão bloqueadas no Brasil desde abril. Lula venceu o segundo turno no dia seguinte, em uma eleição que incluiu uma polêmica prorrogação de duas horas no horário de votação, concedida de última hora pelo ex-advogado de defesa de Lula.
Einar Knobel, CEO e cofundador da empresa de dados e tecnologia esportiva TxODDS, disse à CoinDesk, em declaração por e-mail, que os mercados de previsão "estavam precificando o resultado do primeiro turno, as manchetes das pesquisas e a narrativa construída em torno delas". Segundo ele, "não leria isso como um fracasso dos mercados de previsão", já que o mecanismo funcionou como projetado, a partir das informações disponíveis na época.
O que isso significa para o investidor
O episódio reforça um padrão que o AAR News já vinha acompanhando: o bitcoin tem ganhado espaço relativo em meio a fluxos instáveis de ETFs e à busca por catalisadores, com sua dominância no mercado cripto chegando a 60% em outubro, o maior nível desde maio. A corrida corporativa por stablecoins no Brasil durante a eleição ilustra como esses ativos vêm sendo usados não como aposta especulativa, mas como instrumento de proteção cambial por parte de tesourarias que não querem depender exclusivamente do real em momentos de incerteza política.
Para quem investe no Brasil, o caso eleitoral de outubro é um lembrete de que a volatilidade do real pode se transmitir rapidamente a ativos digitais negociados localmente, e que o apetite por dolarização via USDT ou USDC tende a crescer justamente nos momentos em que o mercado tradicional está fechado ou paralisado. Vale observar o comportamento do Ibovespa, que às 17h07 de 27/10/2026 operava em 175.870 pontos, com queda de 0,42% no dia, segundo o scanner da TradingView, e do bitcoin, cotado a US$ 80.650,38, com alta de 0,76% no mesmo horário, conforme a mesma fonte.
Olhando à frente, o episódio também levanta questões sobre a confiabilidade de mercados de previsão como Kalshi e Polymarket em cenários de polarização e dados ambíguos, tema relevante para investidores que usam esse tipo de sinal como termômetro de risco político. Combinado com o movimento recente de mineradoras de bitcoin em direção à infraestrutura de inteligência artificial — caso da Luxor Technology, que captou US$ 16 milhões para expandir sua corretagem de hardware de IA —, o quadro sugere um setor cripto em transição, no qual proteção cambial, especulação e diversificação de receita caminham lado a lado.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
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