A eleição de meio de mandato marcada para terça-feira, 3 de novembro, nos Estados Unidos, não terá o mesmo peso imediato sobre o setor de criptoativos que teve o pleito presidencial de 2024, mas vai determinar quem ocupa as cadeiras do Congresso responsáveis por moldar a relação entre Washington e a indústria cripto nos próximos dois anos. A informação é do CoinDesk, que preparou uma cobertura especial sobre o tema, incluindo um espaço ao vivo no Twitter (X) nesta véspera de eleição, às 12h (horário do leste dos EUA), com a participação de Justin Slaughter, Ron Hammond e Jessica Martinez, e um blog ao vivo na própria terça-feira para acompanhar a apuração dos resultados com análises de especialistas sobre seus efeitos para o setor.
Segundo o veículo, a eleição não trará uma nova administração federal nem mudanças à frente das agências regulatórias que hoje lidam com criptoativos — como a SEC, a CFTC, o Departamento do Tesouro e o Federal Reserve. Ainda assim, o resultado nas urnas deve influenciar diretamente quatro frentes que interessam ao setor: a configuração do Congresso em 2027 e 2028, a eventual aprovação de novas leis, a capacidade das agências de finalizar regras regulatórias até o início do próximo ano e a forma como a indústria cripto vai se posicionar diante de um Legislativo renovado.
Câmara pode virar, Senado é imprevisível
De acordo com o CoinDesk, o cenário mais provável até a tarde de sexta-feira anterior à eleição era de que os democratas conquistassem a maioria na Câmara dos Representantes. Já o controle do Senado é tratado como uma incógnita por praticamente todas as fontes consultadas pela publicação.
O Cook Political Report, instituto de monitoramento eleitoral classificado como não partidário, projeta vitória democrata na Câmara, mas trata o Senado como um páreo em aberto. Nos mercados de previsão, os operadores da Kalshi apontam para controle democrata tanto da Câmara quanto do Senado, projeção semelhante à observada na Polymarket. As pesquisas de opinião também indicariam uma noite favorável aos democratas, que precisariam conquistar ao menos quatro cadeiras adicionais para assumir a maioria no Senado.
Ainda assim, fontes de Washington ouvidas pelo CoinDesk descrevem o cenário do Senado como genuinamente imprevisível, já que o mapa eleitoral está mais competitivo do que estava um ano atrás e fatores regionais distintos devem definir disputas específicas — como as corridas em Ohio e no Texas, que seguem lógicas próprias. O CoinDesk também pondera que a apuração pode se estender além da terça-feira em alguns estados, o que significa que o resultado final sobre o controle do Senado pode não estar definido nem na noite da eleição nem na manhã seguinte.
Mais de US$ 170 milhões em jogo
O CoinDesk aponta que a indústria cripto tem se engajado fortemente na disputa, com gastos que superam US$ 170 milhões no ciclo eleitoral de 2026, majoritariamente canalizados pelo comitê de ação política (PAC) Fairshake e por comitês a ele afiliados. Desse total, mais de US$ 60 milhões — somando Fairshake e outro PAC — foram direcionados especificamente para impedir o retorno do ex-senador Sherrod Brown ao Senado. Segundo o veículo, o restante dos recursos foi distribuído entre outras corridas eleitorais, à medida que empresas do setor se preparam para o que pode vir em 2027.
Fiscalização deve crescer mais que legislação nova
Ron Hammond, chefe de política e advocacy da Wintermute, disse ao CoinDesk que a expectativa é de bastante fiscalização sobre o setor, mas não necessariamente de uma onda de novas leis. Segundo ele, as empresas de criptoativos estão avaliando riscos políticos e de exposição, já que os democratas fazem campanha prometendo investigar possíveis casos de corrupção envolvendo o presidente Donald Trump e sua administração.
Hammond afirmou que diversas comissões da Câmara devem investigar doações de empresas cripto (e de outros setores) a projetos ligados à Casa Branca, como a construção do chamado East Wing ballroom, além da memecoin de Trump, da World Liberty Financial e de outros projetos relacionados a criptoativos. O quadro sobre como isso afetará a formulação de políticas, no entanto, ainda é incerto, segundo o CoinDesk.
'Regras escritas à caneta, não a lápis'
Taylor Barr, diretor de políticas públicas da Chainlink, disse ao CoinDesk que a prioridade do setor continua sendo obter regras definitivas — segundo suas palavras, regulações "escritas à caneta, e não a lápis". Independentemente de como a eleição se desenrole, Barr avalia que a nova composição do Congresso deve incluir mais parlamentares favoráveis à inovação no setor.
Segundo Barr, essa tendência pode favorecer avanços em temas como a legislação tributária que eliminaria impostos de minimis sobre pagamentos de pequeno valor — um assunto que pode até ter alguma movimentação durante o chamado lame duck session, o período entre a eleição desta semana e o fim do ano em que os parlamentares retornam a Washington, mas que tem mais chance de ser tratado já em 2027.
Kevin Wysocki, chefe de política da Anchorage Digital, também disse ao CoinDesk considerar bastante provável que uma legislação tributária avance no próximo Congresso. Ele acrescentou que parlamentares e comissões voltados a segurança nacional devem passar a olhar com mais atenção para criptoativos.
"Acho que há um interesse crescente nas comissões relevantes, seja Inteligência, Segurança Interna ou Relações Exteriores — todas estão cada vez mais atentas a essas questões", afirmou Wysocki ao CoinDesk. O veículo observa, em nota editorial, que a declaração foi dada cerca de meia hora antes de a exchange de criptoativos Binance perder mais de US$ 6 bilhões em um hackeamento atribuído à Coreia do Norte.
Estrutura de mercado: um projeto mais duro deve voltar à mesa
O CoinDesk aponta que o Congresso também deve voltar a discutir um projeto de estrutura de mercado para criptoativos, embora Wysocki tenha dito que a versão que deve surgir será diferente do Digital Asset Market Clarity Act, texto que não avançou no Senado no mês passado.
Segundo Wysocki, a nova proposta tende a ser "mais dura com DeFi [finanças descentralizadas], mais dura com integração vertical, o que será mais difícil para alguns players do setor" — referindo-se à forma como as empresas estruturam seus negócios e se poderão manter sob um mesmo grupo, por exemplo, operações de corretora e de exchange. Ainda é incerto se esse projeto, ou uma versão dele em 2027, reunirá apoio suficiente para ser aprovado, embora Wysocki tenha afirmado ao CoinDesk que existe apoio bipartidário ao setor cripto.
Jessica Martinez, chefe de política da Fireblocks, ponderou ao CoinDesk que, no campo legislativo, os democratas podem acabar priorizando pautas de custo de vida em vez de temas específicos de criptoativos. Segundo ela, o ecossistema cripto está se ampliando para um conjunto de atores que tradicionalmente não fazia parte do setor, o que tornaria estranho, em sua visão, mirar a indústria como um todo considerando o histórico recente observado.
Corrida regulatória contra o calendário
Do ponto de vista regulatório, o CoinDesk destaca que há uma janela limitada para que as agências federais finalizem suas regulamentações. Qualquer regra concluída tende a ser contestada judicialmente, o que abre espaço para que litígios baseados no Administrative Procedures Act atrasem sua implementação. Além disso, o Congresso pode anular regulamentações finalizadas perto demais da próxima eleição por meio do Congressional Review Act, caso o próximo presidente e o próximo Congresso dos EUA não sejam tão favoráveis ao setor quanto a administração atual. Por isso, segundo o veículo, a indústria está atenta para que as agências finalizem e implementem regras o quanto antes.
Cripto segue fora do radar do eleitor comum
O CoinDesk reforça que, há meses, está claro que criptoativos não são prioridade para o eleitorado americano. Uma pesquisa com 1.000 eleitores registrados nos EUA, divulgada pelo veículo em maio, mostrou que apenas 1% dos entrevistados veem cripto como uma pauta prioritária — custo de vida, emprego, economia, Seguridade Social e Medicare aparecem como questões muito mais relevantes. Segundo o CoinDesk, a situação econômica seguiu se deteriorando desde a realização daquela pesquisa.
O veículo observa ainda uma particularidade pouco favorável ao setor: nas últimas semanas, alguns candidatos democratas passaram a mencionar criptoativos em campanha, mas principalmente no contexto de promessas de combate ao que consideram corrupção dentro da administração Trump. Segundo o CoinDesk, não foi encontrado nenhum caso em que criptoativos tenham sido mencionados de forma positiva ao longo da campanha eleitoral.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha o mercado de criptoativos a partir do Brasil, o resultado desta eleição de meio de mandato funciona como um termômetro de risco regulatório de médio prazo, e não como um gatilho imediato de preço. Como nenhuma agência federal muda de comando nesta eleição, o impacto tende a se manifestar de forma gradual, por meio de audiências, investigações e do ritmo de tramitação de projetos como o de estrutura de mercado — não por uma decisão isolada no dia seguinte à apuração.
O volume de recursos mobilizado pelo setor — mais de US$ 170 milhões, segundo o CoinDesk, concentrados em blindar aliados e barrar candidatos vistos como hostis, caso de Sherrod Brown — mostra que as empresas de cripto já operam no horizonte de 2027, quando um Congresso potencialmente mais hostil, somado a uma nova corrida presidencial, poderia reabrir disputas regulatórias hoje favoráveis à indústria nos EUA. Isso é relevante para investidores brasileiros expostos a ativos digitais ou a empresas listadas do setor, já que mudanças na política americana costumam se propagar para o apetite de risco global do segmento.
Vale também monitorar o calendário regulatório mencionado pelo CoinDesk: regras finalizadas às pressas pelas agências federais ficam mais vulneráveis a contestação judicial via Administrative Procedures Act e a reversão pelo Congresso via Congressional Review Act caso o cenário político mude em 2027. Esse é um fator técnico, mas que pode gerar instabilidade normativa justamente no período em que o setor tenta consolidar regras permanentes — o que, segundo as fontes ouvidas pelo CoinDesk, é hoje a prioridade número um da indústria.
Por fim, o dado de que apenas 1% do eleitorado americano considera cripto uma pauta prioritária, segundo a pesquisa de maio citada pelo CoinDesk, é um lembrete de que o tema segue sendo uma pauta de nicho político, dependente de poucos atores bem financiados e de comissões específicas no Congresso — não de pressão popular ampla. Para o investidor, isso reforça a importância de acompanhar diretamente o noticiário sobre composição do Congresso, tramitação de projetos de estrutura de mercado e decisões das agências regulatórias americanas, em vez de tentar antecipar o humor do eleitor médio em relação a criptoativos.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
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