As taxas de juros futuros encerraram a sessão de sexta-feira em leve queda, na última rodada de negociação antes do segundo turno da eleição presidencial, segundo a Reuters. O movimento refletiu a manutenção, por parte de boa parte dos investidores, da expectativa de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ainda que os dois apareçam tecnicamente empatados nas pesquisas mais recentes.
A pauta eleitoral dominou o pregão e deixou em plano secundário tanto a divulgação do IPCA-15 de outubro quanto a alta dos rendimentos dos Treasuries americanos no exterior, de acordo com a reportagem.
Juros fecham em baixa moderada
No fechamento, o DI para janeiro de 2028 operava a 12,86%, recuo de 3 pontos-base frente ao ajuste anterior de 12,886%. Na ponta mais longa da curva, o contrato para janeiro de 2035 marcava 12,735%, também com queda de 3 pontos-base em relação aos 12,762% da véspera, conforme números citados pela Reuters.
Durante a manhã, porém, o cenário foi mais tenso: o DI para janeiro de 2035 chegou a tocar a máxima de 12,865%, alta de 10 pontos-base, por volta das 10h31, em reação direta à pesquisa Datafolha e à elevação dos juros longos americanos. A reversão veio ao longo da tarde, em linha com o enfraquecimento do dólar e a valorização do Ibovespa, num contexto em que parte dos investidores já antecipava operações apostando em um resultado favorável a Flávio, segundo a matéria.
Pesquisa aponta empate técnico, mas mercado resiste à mudança de leitura
O instituto Datafolha informou na noite de quinta-feira que Lula e Flávio Bolsonaro aparecem empatados, cada um com 50% dos votos válidos, no segundo turno marcado para o domingo seguinte. Na pesquisa da semana anterior, Flávio liderava com 51% contra 49% de Lula, o que configura um estreitamento real da disputa, de acordo com os dados repassados pela Reuters.
No primeiro turno, Flávio havia vencido com 47,03% dos votos válidos, à frente dos 45,16% obtidos por Lula. Já na leitura mais ampla, que soma todas as intenções de voto, o levantamento mais recente do Datafolha mostrou Flávio com 47% e Lula com 46%, além de 2% de indecisos e 5% entre brancos, nulos e eleitores que afirmam não pretender votar.
Mesmo diante do acirramento, a maior parte dos agentes financeiros manteve o posicionamento de que Flávio segue à frente na corrida e que restaria pouco tempo para uma reversão do quadro até a votação. Em relatório citado pela reportagem, Mario Lima, analista sênior para o Brasil da consultoria Medley Advisors, afirmou que o senador segue como favorito por margem estreita, mas que Lula reduziu a distância a um empate estatístico. Para ele, uma virada do petista não está descartada, já que as pesquisas subestimaram o desempenho de Flávio no primeiro turno, mas mobilizar o eleitorado mais fiel de Lula tende a ser tarefa mais difícil.
A avaliação predominante entre investidores, segundo o texto, é a de que uma eventual gestão Flávio elevaria as chances de maior disciplina fiscal, ainda que o candidato e seus assessores econômicos não tenham detalhado até aquele momento nenhuma proposta concreta de ajuste nas contas públicas. Mario Lima reforçou esse ponto ao ponderar que uma vitória do senador poderia estender o rali observado nos ativos locais, mas que a ausência de um plano fiscal estruturado tende a encerrar rapidamente esse otimismo inicial.
IPCA-15 desacelera mais do que o previsto
Ofuscado pela expectativa eleitoral, o IPCA-15 de outubro, divulgado pela manhã pelo IBGE, subiu 0,32% em relação ao mês anterior, depois de um avanço de 0,70% em setembro. A desaceleração superou as projeções do mercado, que esperava alta de 0,43%, de acordo com a Reuters.
No acumulado de 12 meses até outubro, o indicador, considerado prévia do IPCA oficial, somou alta de 4,62% — abaixo da estimativa de mercado de 4,73%, mas ainda acima do teto de 4,50% perseguido pela meta de inflação do Banco Central.
A composição do índice mostrou que a deflação nos preços de energia elétrica e de passagens aéreas ajudou a compensar a aceleração registrada nos preços de alimentos e combustíveis no mês.
A abertura dos dados também revelou desaceleração na inflação de serviços, que passou de 0,59% em setembro para 0,22% em outubro. Em sentido contrário, a taxa de serviços subjacentes — que exclui itens mais voláteis — avançou de 0,28% para 0,45% no período, conforme cálculos do banco Bmg citados pela reportagem. Já a inflação de serviços intensivos em mão de obra permaneceu estável, em 0,56%.
Ainda segundo levantamento do Bmg, a média dos núcleos de inflação acompanhados pelo Banco Central recuou de 0,34% para 0,32% na passagem de setembro para outubro.
O economista-chefe do Bmg, Flavio Serrano, avaliou que os números do IPCA-15 não alteram sua projeção de que o Banco Central promova novo corte de 25 pontos-base na Selic no início de novembro, já após o resultado eleitoral, seguido de outra redução de mesma magnitude em dezembro. A taxa básica de juros estava, à época, em 13,75% ao ano, conforme citado na matéria.
Treasuries revertem queda da véspera
No mercado externo, os rendimentos dos Treasuries americanos subiram ao longo de todo o pregão de sexta-feira, após forte recuo no dia anterior. Às 16h34, o rendimento do título de dez anos — referência global para decisões de investimento — avançava 4 pontos-base, para 4,995%, segundo dados reproduzidos pela Reuters.
O que isso significa para o investidor
O episódio retratado pela Reuters mostra como o mercado de juros locais passou a sessão inteira reagindo a um fluxo contínuo de informação política, deixando em segundo plano até mesmo uma surpresa inflacionária relevante. A aposta majoritária em uma vitória de Flávio, mesmo diante de um empate técnico nas pesquisas, indica que parte da curva de juros já havia incorporado um cenário de maior disciplina fiscal — precificação que tende a ser revisada rapidamente caso o resultado das urnas, ou os primeiros sinais de política econômica do vencedor, frustrem essa expectativa.
A fala de Mario Lima, da Medley Advisors, resume o principal risco para quem monta posições nesse tipo de cenário: a ausência de um plano fiscal detalhado pode sustentar um rali de curto prazo, mas tende a se dissipar em poucos meses caso não venha acompanhada de medidas concretas. Para o investidor, isso reforça a importância de observar não apenas o resultado eleitoral em si, mas os primeiros anúncios de equipe econômica e eventuais sinalizações sobre ajuste fiscal nas semanas seguintes ao pleito.
No câmbio e na bolsa, o quadro mais recente mostra um cenário distinto do retratado na matéria original. Segundo o scanner da TradingView, em 24/10/2026 às 15h12 BRT, o Ibovespa operava em 205.083 pontos, alta de 0,47% no dia, enquanto o dólar era cotado a R$ 4,9652, queda de 1,73% no mesmo horário — movimento de fortalecimento dos ativos locais que contrasta com a tensão eleitoral descrita na reportagem da véspera do segundo turno.
Por fim, a manutenção da trajetória de cortes da Selic prevista pelo Bmg — 25 pontos-base em novembro e mais 25 em dezembro, partindo de 13,75% ao ano — é um dado relevante para quem monta carteiras de renda fixa prefixada ou indexada à inflação, já que sinaliza continuidade do ciclo de afrouxamento monetário independentemente do resultado eleitoral, desde que a trajetória de desinflação captada pelo IPCA-15 se confirme nos meses seguintes.
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