O deputado Jamie Raskin, democrata de Maryland e principal membro da oposição no Comitê Judiciário da Câmara dos Estados Unidos, acusou o presidente Donald Trump de transformar a política tarifária em instrumento de benefício pessoal. Em carta obtida com exclusividade pela CNBC, Raskin afirma que Trump concedeu isenções tarifárias a setores cujos representantes fizeram doações e presentes ao governo.
Segundo o parlamentar, essas exceções, concedidas a produtos como carne bovina brasileira, diamantes e smartphones, não encontram justificativa técnica dentro dos próprios critérios estabelecidos pelo governo Trump para a política comercial. Ele classificou o padrão de decisões como um suposto 'desconto tarifário Trump', aplicado a aliados e financiadores quando o retorno político ou financeiro é considerado vantajoso.
Pedido de documentos e prazo até novembro
A carta de Raskin solicita a Trump a entrega de diversas categorias de registros relativos ao seu segundo mandato, incluindo comunicações trocadas entre a Casa Branca e o escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre qualquer forma de alívio tarifário concedido a mais de uma dezena de setores.
O pedido também abrange trocas com representantes do setor privado, citando nominalmente o presidente do conselho da Apple, Tim Cook, e o CEO da Rolex, Jean-Frederic Dufour. Raskin fixou o prazo de 11 de novembro para o recebimento desses documentos.
Na carta, o deputado acusa diretamente Trump de 'corrupção profunda', afirmando que o uso da política tarifária funcionaria como mecanismo de poder para obter concessões pessoais. O documento invoca a jurisdição do Comitê Judiciário sobre corrupção, conflitos de interesse e aplicação das leis criminais e civis, e pode sinalizar como os democratas pretendem usar poderes de fiscalização caso conquistem maioria na Câmara ou no Senado nas eleições de meio de mandato.
Tarifas e custo para as famílias americanas
Raskin também associou as isenções tarifárias concedidas a aliados ao impacto das tarifas sobre o custo de vida dos americanos, tema central do ciclo eleitoral. Ele citou dados da Tax Foundation, entidade apartidária, segundo os quais a rodada mais recente de tarifas deve custar, em média, 820 dólares por domicílio americano neste ano.
O deputado afirmou que, enquanto investimentos pessoais e certos setores favorecidos ficaram protegidos do impacto tarifário, a população em geral arca com os custos. A pesquisa econômica CNBC All-America Economic Survey, mencionada na carta, apontou a corrupção no governo como principal preocupação dos eleitores, seguida pelos preços altos de alimentos e combustíveis. Candidatos democratas têm buscado conectar essas duas pautas em suas campanhas.
Até a publicação da reportagem original, a Casa Branca e o USTR não haviam respondido aos pedidos de comentário da CNBC sobre a carta de Raskin.
Tarifas da Seção 301 e o pano de fundo jurídico
O foco da carta recai sobre as tarifas abrangentes impostas pelos Estados Unidos em julho com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, aplicadas a mais de 80 países e que cobrem praticamente todas as importações americanas. O governo Trump afirma que essas tarifas visam combater práticas de trabalho forçado no exterior.
Raskin e outros críticos, incluindo autores de uma ação judicial que contesta as tarifas, argumentam que a medida teria sido criada para substituir as tarifas amplas do chamado 'dia da libertação', anuladas pela Suprema Corte dos Estados Unidos em fevereiro. Na carta, o deputado questiona a sinceridade da preocupação repentina do governo com vítimas de trabalho forçado.
O caso da carne bovina brasileira
Entre os exemplos citados, Raskin destacou a decisão do governo de permitir a isenção tarifária para carne bovina e produtos bovinos, apesar da oposição de produtores americanos de gado, que alegaram uso documentado de trabalho forçado no setor pecuário brasileiro e aumento nas importações de carne do Brasil.
A carta relata que, no fim de agosto, Trump se reuniu no Salão Oval com o bilionário brasileiro Joesley Batista, coproprietário da JBS, maior processadora de carnes do mundo. No dia seguinte ao encontro, Trump anunciou que os Estados Unidos permitiriam a importação de até 300 mil toneladas métricas de 'produto para carne moída' abaixo dos preços de mercado.
Raskin apontou que a subsidiária americana da JBS, a Pilgrim's Pride, fez uma doação de 5 milhões de dólares ao fundo de posse de Trump em 2024, a maior contribuição individual de uma empresa ao evento, segundo o deputado.
Diamantes e um anel de presente
A carta também menciona que joias de diamante estão isentas das tarifas da Seção 301, apesar de o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos identificar a pedra preciosa como produto associado a trabalho forçado ou infantil. Raskin classificou a isenção como indefensável sob esse critério.
Segundo o deputado, a decisão teria relação com um anel de ouro cravejado de 321 diamantes naturais e 75 outras pedras preciosas, presenteado a Trump em junho pela Antwerp World Diamond Centre, da Bélgica. A empresa afirmou, em comunicado, que o presente simbolizava a relação comercial histórica entre Antuérpia e os Estados Unidos, em homenagem aos 250 anos do país.
Smartphones, Apple e Tim Cook
Raskin também citou a isenção concedida pelo USTR a smartphones chineses, apesar de o parlamentar afirmar que condições de trabalho abusivas são comuns na fabricação desses aparelhos, incluindo o iPhone da Apple.
A carta lista uma série de gestos de aproximação de Tim Cook com Trump, incluindo uma doação de 1 milhão de dólares ao comitê de posse do presidente em 2025 e a entrega de uma placa de ouro durante um encontro no Salão Oval. Raskin também mencionou a doação de 25 milhões de dólares da Apple ao projeto de construção do salão de festas da Casa Branca, valor que empata como a maior contribuição registrada para a obra.
Ao fim da carta, Raskin afirma que os exemplos citados representam apenas uma pequena parte do que chama de corrupção profunda do governo Trump na condução da política tarifária.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha ativos ligados ao comércio exterior, o episódio reforça um padrão já conhecido: a política tarifária do governo Trump segue sujeita a mudanças pontuais e negociações caso a caso, o que mantém elevada a incerteza regulatória para setores como pecuária, joalheria e eletrônicos. Investidores expostos a exportadoras brasileiras de carne, como a JBS, ou a cadeias de fornecimento de tecnologia ligadas à Apple, devem monitorar de perto qualquer novo capítulo dessa disputa política, já que mudanças em isenções tarifárias podem afetar margens e volumes de exportação de forma rápida.
O desdobramento também é relevante para o apetite por risco em ativos de proteção. Em meio a episódios de instabilidade política e questionamentos institucionais nos Estados Unidos, o ouro — cotado em 4.038,14 dólares, com queda de 0,54% no dia, segundo dados do TradingView referentes a 28 de outubro de 2026 às 13h06 no horário de Brasília — segue sendo observado por investidores como termômetro de aversão a risco diante de ruídos políticos em Washington.
Por fim, o pedido de documentos até 11 de novembro, caso avance, pode se transformar em um processo de fiscalização mais amplo caso os democratas conquistem maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato. Investidores com exposição a empresas citadas na carta — JBS, Pilgrim's Pride, Apple e grupos ligados ao setor de diamantes — devem acompanhar se o caso ganha tração institucional, o que poderia introduzir volatilidade regulatória adicional nos meses seguintes.
Agregado por AAR News · fonte: CNBC
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