Os Estados Unidos começam a sentir, em doses ainda administráveis, o que seria viver sob uma crise de dívida mais severa. A combinação de juros de longo prazo acima de 5% com um déficit orçamentário próximo de US$ 2 trilhões já afeta setores como o imobiliário, e tende a se tornar um dos temas centrais da economia americana nos próximos anos, segundo reportagem da CNBC.
A reportagem destaca que uma emergência fiscal plena seria bem mais dolorosa do que o cenário atual e não é um desfecho dado como certo. Mas, com as eleições de meio de mandato de 3 de novembro caminhando para consolidar um governo dividido entre os dois partidos, não está claro o que poderia tirar o país da trajetória preocupante em que se encontra.
Mercado imobiliário sob pressão
Juros mais altos já aparecem no setor habitacional. A taxa média da hipoteca fixa de 30 anos gira em torno de 7,5%, segundo a matéria. As vendas pendentes de imóveis residenciais caíram 4% em setembro, de acordo com dados da Redfin citados pela CNBC — a maior queda mensal em três anos.
Esse movimento tem relação direta com a trajetória dos títulos do Tesouro americano, já que as taxas de hipoteca acompanham de perto o rendimento dos Treasuries de 10 anos, a principal referência de juros de longo prazo da economia dos EUA.
Os fatores por trás da alta dos juros longos
O rendimento do título de 10 anos subiu 114 pontos-base desde o fim de fevereiro até o meio do dia de sexta-feira, quando era negociado a 5,1%, segundo a CNBC. A reportagem aponta a guerra com o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, como um dos fatores que impulsionaram essa alta.
O conflito elevou de forma acentuada os preços do petróleo e do diesel, o que levou investidores de renda fixa a exigir prêmios maiores para carregar títulos longos, diante da possibilidade de o Federal Reserve voltar a subir os juros para conter pressões inflacionárias ligadas à energia.
Outro ponto citado pela CNBC é que investidores pedem mais compensação para manter títulos de prazo mais longo em parte porque esperam que o governo americano continue ampliando as emissões de dívida nos próximos anos. Os mercados de dívida corporativa e governamental estão interligados, e a disputa por capital entre eles vem se intensificando à medida que empresas emitem centenas de bilhões de dólares em novas dívidas para financiar a infraestrutura ligada à inteligência artificial. Investidores globais em busca de dívida longa e de baixo risco passaram a ter alternativas mais atrativas ao mercado de Treasuries, segundo a reportagem.
A matéria pondera que, se o governo americano conseguisse se comprometer de forma crível com o corte do déficit, os rendimentos de longo prazo provavelmente cederiam. Ainda assim, a magnitude exata desse efeito não é clara e dependeria do tamanho do corte, além de outros fatores — como uma desaceleração da economia ou uma queda nos preços do petróleo — que também poderiam empurrar os juros para baixo.
As contas do déficit
É justamente essa possibilidade de um ciclo virtuoso entre déficits menores e juros menores que leva o secretário do Tesouro, Scott Bessent, a defender que os EUA deveriam mirar um déficit abaixo de 4% do PIB até o fim do mandato do presidente Donald Trump, de acordo com a CNBC.
A reportagem avalia que esse objetivo dificilmente será cumprido. O déficit somou US$ 1,992 trilhão no ano fiscal de 2026, alta de 12% em relação ao ano anterior, segundo dados divulgados pelo Tesouro americano na sexta-feira. Esse valor equivale a aproximadamente 6,2% do Produto Interno Bruto, com base em uma estimativa do PIB do terceiro trimestre.
Juros mais altos tornam a redução da dívida ainda mais difícil. Segundo estimativas do Congressional Budget Office (CBO) citadas pela CNBC, se as taxas de juros permanecerem meio ponto percentual acima do que o órgão projeta, o déficit acumulado em dez anos ficaria US$ 1,9 trilhão maior. Caso as taxas superem as projeções em 1,5 ponto percentual, o acréscimo chegaria a US$ 6 trilhões.
O CBO espera que o título de 10 anos tenha rendimento médio de 4,3% ao longo dessa década, ante os 5,1% registrados atualmente. Os cenários mais alarmantes exigiriam que os juros em toda a economia permanecessem elevados por anos.
Em evento em Dallas no mês passado, Bessent resumiu sua leitura do problema: "minha visão é que temos essa montanha de dívida, e precisamos crescer para sair dela", disse, segundo a CNBC. Ele e outros integrantes do governo têm apontado a inteligência artificial como fonte crucial de crescimento futuro.
O papel da inteligência artificial
A reportagem pondera que a IA pode ajudar, mas não resolve o problema fiscal sozinha. Seria necessária uma década de crescimento de 7,2% ao ano para equilibrar o orçamento apenas com expansão econômica, segundo estimativa do Committee for a Responsible Federal Budget, grupo de pesquisa que defende o equilíbrio das contas públicas.
O crescimento do PIB do segundo trimestre foi revisado para cima recentemente, de 1,5% para 2,2% em ritmo anualizado. Uma aceleração tão rápida a ponto de alcançar os 7,2% necessários implicaria, segundo a CNBC, uma transformação praticamente inimaginável da economia americana.
O calendário político
Trump entrará em breve nos dois últimos anos de seu mandato, momento em que presidentes costumam buscar projetos de legado. Mas, segundo a reportagem, ele mostra pouca disposição para fazer da redução do déficit uma prioridade — ao contrário, prometeu cheques de US$ 5.000 a cada cidadão adulto americano caso os republicanos vencessem as eleições de forma ampla.
Na prática, a expectativa é de que os republicanos percam ao menos a Câmara, e possivelmente também o Senado. Momentos de governo dividido às vezes produzem acordos inesperados, mas os pontos de partida dos dois partidos estão distantes. O deputado Hakeem Jeffries, provável novo presidente da Câmara pelos democratas, quer reverter US$ 1 trilhão em cortes na área de saúde aprovados pelo Congresso no ano passado como parte do pacote legislativo de Trump, segundo a CNBC.
A isso se soma uma animosidade profunda entre os dois campos políticos, o que reduz ainda mais as chances de um entendimento rápido sobre ajuste fiscal.
Até onde vai o risco
A dívida pública total dos Estados Unidos atingiu US$ 40 trilhões neste ano, mas, segundo a reportagem, ninguém sabe ao certo qual patamar seria insustentável. Uma crise de dívida em toda a sua extensão provavelmente ainda está distante no horizonte.
Caso ocorresse, o cenário se pareceria com o que os americanos vivem hoje, mas potencializado: os rendimentos disparariam enquanto investidores globais venderiam ativos em dólar, e restariam poucas ferramentas ao Tesouro ou ao Federal Reserve para conter o movimento, segundo a CNBC.
Por ora, juros mais altos também atraem investidores para os títulos do governo americano — um lembrete, diz a reportagem, de que um custo de financiamento mais caro não é a mesma coisa que uma crise. Mas a conclusão da CNBC é que a economia sozinha não resolve o problema: se os americanos quiserem evitar uma crise de dívida em grande escala, precisarão também encontrar uma saída política.
O que isso significa para o investidor
Para quem investe no Brasil, o quadro descrito pela CNBC reforça um pano de fundo já conhecido: juros longos americanos estruturalmente mais altos tendem a encarecer o custo de capital globalmente, inclusive para ativos emergentes, e a manter o dólar como referência de cautela em carteiras internacionais. A combinação de déficit elevado, emissões constantes de dívida e concorrência por capital com o boom de investimentos em inteligência artificial é um fator a monitorar para quem acompanha a curva de juros americana como insumo de precificação de risco global.
O calendário político descrito na reportagem — eleições de meio de mandato em 3 de novembro, perspectiva de governo dividido e disputas em torno dos cortes na saúde — sugere que qualquer sinalização mais firme de ajuste fiscal nos EUA é improvável no curto prazo. Isso tende a manter a pressão sobre os Treasuries de 10 anos, hoje na casa de 5,1%, segundo os dados citados pela CNBC, com reflexos potenciais sobre o custo de financiamento em dólares usado como referência por empresas e governos fora dos Estados Unidos.
Vale observar, no entanto, que a própria reportagem pondera que rendimentos mais altos também atraem compradores para a dívida americana, o que por ora evita um cenário de venda desordenada. O investidor brasileiro com exposição a renda fixa internacional ou a ativos dolarizados deve acompanhar os próximos dados de déficit do Tesouro americano, as projeções do CBO e o resultado das eleições de novembro como sinalizadores de para onde caminha essa equação entre juros, dívida e crescimento nos Estados Unidos.
Agregado por AAR News · fonte: CNBC
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