As emissões de debêntures incentivadas voltaram a crescer em setembro, somando R$ 6,3 bilhões, depois de um agosto fraquíssimo, de apenas R$ 170 milhões — o pior resultado mensal da série desde 2019. Os números constam de levantamento da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) divulgado nesta quinta-feira (29).
Apesar da melhora na comparação mensal, o volume de setembro ainda representa um recuo expressivo frente ao mesmo mês do ano passado, quando as ofertas haviam somado R$ 16,3 bilhões — uma queda de 61,3%. No acumulado de nove meses, as emissões somam R$ 79,1 bilhões, 30,5% a menos do que no mesmo período de 2025.
A participação das incentivadas no total de emissões de debêntures também encolheu: a fatia caiu para 30,3% em 2026, ante 35,7% um ano antes, segundo a entidade.
Secundário ganha espaço
O cenário é oposto no mercado secundário, onde o volume negociado cresce tanto na comparação com agosto quanto com setembro do ano passado. As negociações somaram R$ 33,7 bilhões no mês, alta de 19,1% ante agosto e de 10,1% na comparação anual. No acumulado de 2026, o volume já soma R$ 309,8 bilhões, expansão de 20,9%.
Esse desempenho fez das debêntures incentivadas a principal força por trás do giro geral do mercado de debêntures, que somou R$ 689 bilhões entre janeiro e setembro, com expansão de 5,8% ante igual intervalo de 2025. Com isso, esses ativos passaram a responder por 45% de tudo o que foi negociado no período, ante 39,3% um ano antes.
Erika Lacreta, gerente de Mercado de Capitais da Anbima, relaciona esse avanço à elevação dos spreads das incentivadas ao longo do ano, fator que teria estimulado mais operações de compra e venda desses papéis no mercado secundário. Segundo ela, o movimento evidencia "a capacidade do secundário de absorver esses ajustes e continuar dando liquidez aos ativos, mesmo em um cenário de maior volatilidade".
Já o IDA-IPCA Infraestrutura, índice da Anbima que mede o desempenho das debêntures incentivadas, rendeu 0,41% em setembro e acumula alta de 4,17% no ano até o mesmo mês.
Tributação volta ao radar
O comportamento do mercado em setembro ocorre em meio à retomada da discussão sobre a tributação de ativos hoje isentos. Segundo reportagem do jornal O Globo, a equipe econômica estuda instituir cobrança de IOF sobre LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas — produtos que atualmente têm isenção de Imposto de Renda para pessoa física e alíquota zero de IOF —, e cogita implementar a mudança via decreto, sem necessidade de votação no Congresso.
O governo negou que a decisão já esteja tomada, mas reconheceu que o assunto continua sendo avaliado internamente.
O tema reacende um debate que já havia sido travado em 2025, quando a Medida Provisória 1.303, que propunha taxar novas emissões desses ativos, perdeu validade sem chegar a ser votada pela Câmara dos Deputados. Profissionais do mercado ouvidos pelo InfoMoney dizem considerar legítima uma eventual revisão da isenção, mas alertam que uma mudança feita sem critérios claros e sem resguardar o estoque já emitido pode encarecer o custo do crédito.
O que isso significa para o investidor
O contraste entre emissões primárias fracas e um mercado secundário aquecido sugere que o apetite por debêntures incentivadas não desapareceu — ele migrou para a negociação de papéis já existentes, num momento em que as empresas hesitam em lançar novas ofertas. Essa dinâmica pode se intensificar caso a incerteza regulatória sobre tributação persista, já que companhias tendem a adiar captações enquanto não há clareza sobre as regras do jogo.
Para quem já tem papéis incentivados em carteira, a elevação dos spreads mencionada pela Anbima pode representar tanto risco de marcação a mercado no curto prazo quanto oportunidade de entrada em preços mais atrativos para quem mira o carrego até o vencimento. O aumento da liquidez no secundário, por sua vez, é um ponto positivo: facilita a entrada e saída de posições sem grandes distorções de preço.
O investidor que utiliza essas isenções como pilar de planejamento tributário deve acompanhar de perto os próximos passos do governo sobre o IOF. Uma eventual mudança por decreto, sem preservar o estoque já emitido, tende a gerar volatilidade adicional nos preços desses ativos no curto prazo, independentemente do impacto final sobre o crédito de infraestrutura no país.
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