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Crédito automotivo: melhora deve ser lenta e desigual, aponta coluna

Análise publicada pelo InfoMoney mostra que queda de juros não garante acesso fácil a financiamento, enquanto inadimplência segue em alta

Crédito automotivo: melhora deve ser lenta e desigual, aponta coluna
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Um colunista com décadas de atuação no setor automotivo, em texto publicado pelo InfoMoney, argumenta que a expectativa de juros menores não deve se traduzir em alívio imediato e uniforme para quem compra ou financia veículos no Brasil. Segundo ele, a experiência acumulada desde 1978 ensina a desconfiar de qualquer aposta em expansão de estoque baseada apenas na perspectiva de corte na Selic.

Na prática da concessionária, diz o autor, a decisão de compra sempre esbarra em dois fatores concretos: o valor que o cliente consegue dar de entrada e a prestação que cabe no orçamento mensal. Essa equação, segundo ele, não muda de acordo com o governo em exercício — a política fiscal pode influenciar o custo do dinheiro e a inflação pode corroer a renda das famílias, mas nenhuma mudança política resolve de imediato o aperto financeiro de quem já está endividado.

A taxa de juros não conta toda a história

O texto destaca que o custo cobrado pelos bancos reflete não só a captação de recursos, mas também o risco de inadimplência, tributos, despesas operacionais e margem de lucro. Por isso, uma queda da Selic pode conviver com critérios de aprovação mais rígidos, exigência de entradas maiores e taxas elevadas para certos perfis de cliente.

Há ainda um efeito que passa despercebido, segundo o autor: a taxa média de juros pode recuar simplesmente porque os bancos passam a concentrar as aprovações nos clientes de menor risco, mantendo o crédito fechado para os demais. Nesse cenário, famílias que já carregam dívidas antigas continuam adiando compras, e empresas que dependem de capital de giro caro também postergam investimentos.

Crédito cresce, mas atraso também sobe

Dados do Banco Central citados no texto mostram que o saldo total de crédito no sistema financeiro avançou 9,2% em termos nominais no acumulado de 12 meses até agosto de 2026. No mesmo período, a inadimplência das pessoas físicas no crédito livre atingiu 8%, segundo a mesma fonte — evidência, para o autor, de que a expansão do crédito caminha lado a lado com o aumento dos atrasos.

O colunista também recorre a uma apresentação feita por Rodnei Souza no MegaForum Automotivo, evento promovido pela MegaDealer em outubro, com números do Banco Central compilados pela consultoria Evolution. De acordo com esses dados, a taxa média cobrada de pessoas físicas na compra de veículos ficou em 26,42% ao ano em agosto, recuando frente aos 27,54% registrados doze meses antes.

No entanto, a inadimplência dessa mesma carteira de financiamento de veículos para pessoas físicas subiu de 5,69% em janeiro para 6,57% em agosto. Já nos atrasos classificados entre 15 e 90 dias, o indicador avançou de 6,65% para 6,85% entre as pessoas físicas no período de janeiro a agosto, enquanto recuou de 5,65% para 5,51% entre as pessoas jurídicas, segundo a apresentação citada.

O autor pondera que essa diferença de trajetória entre pessoas físicas e jurídicas ainda é pequena demais para sustentar conclusões definitivas. Para ele, seria apressado afirmar que o aperto de crédito já passou para as empresas, já que fatores como renegociações de dívidas e mudanças na composição das carteiras também afetam esses percentuais.

Três cenários para o crédito

O texto propõe três trajetórias possíveis. No cenário considerado mais provável pelo autor, a melhora será lenta e seletiva, dependente da estabilização dos índices de atraso — e os primeiros a acessar condições melhores seriam clientes com renda comprovada, capacidade de dar entradas maiores e menor nível de endividamento.

Um segundo cenário, mais favorável, dependeria da combinação entre inflação em queda, maior confiança na trajetória fiscal do país e redução das perdas registradas nas carteiras de crédito — conjunto de condições que, segundo o autor, abriria espaço para reduzir o custo do financiamento de forma mais consistente.

Já no cenário adverso, pressões sobre as contas públicas, câmbio e inflação manteriam o crédito caro e os bancos em postura defensiva. O autor ressalta que esse risco independe do partido no poder, embora as escolhas de política econômica de cada governo possam influenciar o resultado final.

Como o custo do crédito afeta a loja

Para ilustrar o impacto prático, o texto apresenta uma simulação: um financiamento de R$ 60 mil, pago em 48 parcelas fixas a uma taxa de 2% ao mês, resultaria em prestação de aproximadamente R$ 1.956. Com a taxa recuando para 1,5% ao mês, o valor cairia para cerca de R$ 1.762 — uma diferença mensal estimada em R$ 194, em números arredondados. O autor destaca que o cálculo não inclui tarifas, impostos ou seguros e não representa uma oferta real de mercado, mas serve para mostrar que, mesmo com essa redução, a prestação continuaria pesando no orçamento de uma família já apertada.

No dia a dia das lojas, uma proposta de financiamento recusada significa que o veículo permanece parado no estoque, gerando custo de capital para o lojista, que muitas vezes acaba concedendo desconto para fechar a venda — o que corrói a margem mesmo em negócios aparentemente bem-sucedidos. Um carro usado mais barato pode reduzir o valor total financiado, mas o autor lembra que a idade do veículo e o perfil do comprador também pesam na análise de crédito. Há ainda um efeito colateral na troca: se o veículo usado perde valor de revenda, sobra menos dinheiro disponível para dar de entrada no próximo carro — situação que pode se agravar diante de descontos agressivos nos modelos zero-quilômetro.

O texto observa que locadoras enfrentam um desafio semelhante em seus balanços, equilibrando o custo da dívida, a receita obtida com aluguel e o preço alcançado na venda dos veículos seminovos. Montadoras, por sua vez, podem subsidiar taxas de juros para sustentar o volume de vendas, mas o autor recomenda que qualquer promoção seja avaliada em conjunto com o valor da entrada, o prazo do financiamento e o preço efetivamente pago pelo carro.

Quem ganha e quem perde

Segundo o autor, os potenciais beneficiados por esse cenário são consumidores com pouco endividamento e empresas que mantêm caixa saudável, estoque ajustado à demanda e acesso a linhas de financiamento competitivas. Do outro lado, estariam famílias já comprometidas financeiramente e negócios que precisam vender rapidamente para honrar dívidas mais caras. Para quem investe, o texto sugere que o crescimento de receita das empresas do setor seja analisado junto com a geração de caixa, as despesas financeiras e as perdas relacionadas à inadimplência.

Indicadores a monitorar

O autor lista pontos de atenção para os próximos meses: o comportamento da Selic e dos juros futuros, que sinalizam a expectativa para o custo do crédito; o custo efetivo total cobrado nos financiamentos, junto com a entrada exigida e a taxa de aprovação; a evolução dos atrasos de pagamento, tanto os mais recentes quanto os mais longos, observados separadamente entre pessoas físicas e empresas; a renda real disponível e o quanto dela já está comprometido com dívidas; e, no varejo, o tempo que os veículos ficam parados em estoque, os descontos praticados e a diferença entre o preço anunciado e o preço efetivamente pago pelo comprador.

A leitura da coluna

Na conclusão, o autor reafirma que a recuperação do crédito tende a se distribuir de forma desigual entre perfis de cliente e tipos de negócio, e classifica como imprudente apostar o caixa de uma loja numa queda rápida e generalizada dos juros. Para ele, mesmo que haja algum alívio, esse efeito só terá valor prático se chegar efetivamente à aprovação das propostas de financiamento e à capacidade de pagamento em dia pelos clientes. O texto termina reforçando que, na visão do autor, uma taxa de juros menor ajuda a vender um veículo, mas é a renda disponível da família que garante a continuidade dos pagamentos ao longo do contrato.

O que isso significa para o investidor

Para quem acompanha o setor automotivo e o crédito ao consumo na bolsa brasileira, a análise reforça a importância de olhar além do indicador de juro médio divulgado pelas montadoras e concessionárias. Como mostram os números do Banco Central citados no texto, a taxa cobrada das pessoas físicas recuou de 27,54% para 26,42% ao ano entre agosto de um ano e o mesmo mês do ano seguinte, mas a inadimplência da mesma carteira subiu de 5,69% para 6,57% no período — um movimento que pode distorcer a leitura de que o crédito está, de fato, ficando mais acessível.

Esse descolamento entre juro nominal e qualidade da carteira é um ponto que merece acompanhamento por parte de investidores expostos a bancos, financeiras, montadoras e redes de concessionárias. Resultados trimestrais que mostrem crescimento de carteira de crédito precisam ser cruzados com a evolução da inadimplência de 15 a 90 dias — que, segundo os dados apresentados, ainda sobe entre pessoas físicas — e com o nível de provisões constituídas pelas instituições financeiras.

Vale também monitorar a trajetória da Selic e dos juros futuros como sinalizadores antecipados de custo de crédito, mas sem assumir que uma eventual queda se traduza automaticamente em maior volume de vendas financiadas ou em melhora de margens no varejo automotivo. Como aponta a análise, a aprovação seletiva de crédito pode manter taxas médias baixas enquanto uma parcela relevante de consumidores continua com acesso restrito — cenário que tende a beneficiar companhias com caixa mais forte e carteira de clientes de menor risco, em detrimento de operações mais alavancadas ou dependentes de giro rápido de estoque.

Agregado por AAR News · fonte: InfoMoney

Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos