A CoreWeave está no centro de uma crise de confiança que atinge simultaneamente acionistas e credores, segundo reportagem da CNBC. Com os juros em alta e o apetite por financiamento de expansão de inteligência artificial sob pressão, a empresa — fortemente endividada — passou a ser vista por boa parte do mercado como o ativo mais vulnerável do universo das chamadas neoclouds.
Andrew Keches, analista de crédito do Barclays, descreveu em nota a clientes nesta terça-feira que o clima entre investidores de dívida de tecnologia está, em suas palavras, decididamente negativo, chamando atenção para a rapidez com que o humor em torno da IA muda de um dia para o outro.
Ação derrete, dívida fica mais cara
A CoreWeave abriu capital em março do ano passado e, três meses depois, chegou a valer cerca de US$ 90 bilhões em bolsa. Hoje, segundo a CNBC, a empresa está avaliada em aproximadamente US$ 31 bilhões, com a ação acumulando queda de 35% somente neste mês — incluindo um tombo de 8% na quinta-feira. Sua dívida não garantida já rende cerca de 15% ao investidor.
O movimento também aparece no mercado de derivativos de crédito: o spread dos contratos de default (CDS) de cinco anos da CoreWeave, que funcionam como seguro contra calote, subiu 171% em doze meses e 36% somente em outubro, encerrando o período mais recente em 1.115 pontos-base, o equivalente a 11,15%. Procurada pela CNBC, a CoreWeave não comentou o assunto.
O contágio no setor de neoclouds
O movimento de desconfiança não fica restrito à CoreWeave. Conforme a reportagem, as ações da Nebius caem 32% no mês e as da IREN recuam 39% no mesmo período. Na Austrália, os papéis da operadora de data centers NextDC despencaram 40% na quarta-feira depois que a companhia cortou sua projeção anual de lucro. Ainda neste mês, a também australiana Firmus cancelou sua oferta pública inicial, alegando volatilidade e condições de mercado desfavoráveis.
Na Europa, a britânica Nscale — apoiada pela Nvidia — está sob observação de investidores que aguardam para ver se a empresa seguirá adiante com seu IPO, após protocolar pedido de listagem na Bolsa de Nova York no mês passado. Um representante da Nscale não quis comentar o caso à CNBC.
Dependência da Microsoft e peso da dívida
A CoreWeave é a maior empresa do grupo e está diretamente ligada ao mercado americano de IA. A Nvidia é sua principal investidora institucional, com participação de cerca de 9%, segundo dados da FactSet citados pela CNBC. Mais de dois terços da receita da CoreWeave no ano passado vieram de contratos com a Microsoft.
Essa concentração colocou sob lupa a saúde financeira da empresa. De acordo com a reportagem, a CoreWeave tem cerca de US$ 20,7 bilhões em dívidas com vencimento até 2030 e mais US$ 14,9 bilhões a vencer depois disso, em um cenário no qual qualquer nova captação deve vir a custos de juros mais altos.
Mercado de crédito trava até as eleições de meio de mandato
Fontes de mesas de crédito ouvidas pela CNBC afirmaram que o mercado de dívida de alto rendimento está, na prática, paralisado até depois das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, daqui a duas semanas, em meio a preocupações com a reação política contra a instalação de data centers. Uma das fontes, que pediu anonimato dado o caráter sensível do tema, disse que investidores de renda fixa querem ver as exigências de licenciamento e regulação substancialmente resolvidas antes de se comprometerem com novos financiamentos.
Seth Meyer, chefe global de gestão de portfólio de clientes da Janus Henderson, disse à CNBC que, diante da turbulência recente, faz sentido que o mercado faça uma pausa.
CEO tenta conter o alarme interno
O CEO da CoreWeave, Mike Intrator, que cofundou a empresa em 2017 originalmente como uma operação de mineração de criptomoedas, enviou um memorando aos funcionários na quinta-feira, obtido pela CNBC, na tentativa de reduzir a preocupação interna. Intrator reforçou que a companhia mantém diferentes frentes de captação de recursos.
Segundo o memorando, o modelo de financiamento da empresa combina empréstimos lastreados em infraestrutura, dívida corporativa, emissão de ações e pré-pagamentos de clientes. Intrator acrescentou que a CoreWeave tem flexibilidade adicional para captar capital ao longo do tempo, conforme as condições de mercado e as necessidades financeiras da companhia exigirem.
Caixa, resultados e a conta que falta fechar
A CoreWeave encerrou o segundo trimestre com US$ 5,5 bilhões em caixa e equivalentes, segundo a CNBC. Os resultados do terceiro trimestre devem ser divulgados no mês que vem, e analistas projetam que o fluxo de caixa livre negativo da empresa deve se ampliar para US$ 10,1 bilhões no período — o maior desde que a companhia começou a divulgar balanços trimestrais, de acordo com dados da FactSet.
Um dos pontos em debate entre analistas é quanto capital adicional a CoreWeave ainda precisará levantar. Rob Oliver, analista de software do Baird, estima algo em torno de US$ 30 bilhões até 2027. Segundo ele, o próximo balanço pode trazer sinalizações sobre medidas de financiamento para reforçar a confiança do mercado, embora a necessidade efetiva desse capital só deva se materializar no primeiro trimestre do próximo ciclo.
O papel da Nvidia em discussão
Outra questão em aberto, segundo a reportagem, é se a Nvidia precisará intervir caso as condições de crédito piorem. A fabricante de chips, que fornece os processadores gráficos alugados pela CoreWeave, investiu US$ 2 bilhões em janeiro por uma fatia de 10% da empresa, a um preço de compra de US$ 87,20 por ação. Hoje, essa ação é negociada a US$ 61,82, mesmo após ter saltado 6% no dia do anúncio do investimento.
O CEO da Nvidia, Jensen Huang, afirmou na semana passada que a CoreWeave não precisa de um suporte financeiro adicional da fabricante de chips. Ainda assim, alguns investidores ouvidos pela CNBC avaliam que uma participação maior da Nvidia pode se tornar necessária se as condições de crédito continuarem a se deteriorar. A Nvidia não respondeu de imediato ao pedido de comentário da CNBC.
Bancos mantêm views otimistas
Em contraponto ao pessimismo generalizado, analistas do Goldman Sachs, JPMorgan Chase e Barclays publicaram notas construtivas sobre a CoreWeave nesta semana, destacando os empréstimos garantidos por GPUs da empresa e sua carteira de clientes com grau de investimento, como Microsoft e Meta. O Goldman Sachs elevou a recomendação da ação de neutra para compra, ressaltando a posição de força da CoreWeave frente a concorrentes do setor de neoclouds.
Em nota, os analistas do Goldman afirmaram que nem todas as empresas de neocloud são equivalentes, e que a CoreWeave provavelmente está entre as líderes do setor, tanto em desempenho operacional quanto em capacidade de execução.
O que isso significa para o investidor
O episódio CoreWeave expõe uma tensão que deve acompanhar o ciclo de investimento em IA pelos próximos trimestres: empresas de infraestrutura de nuvem fortemente alavancadas dependem de acesso contínuo a crédito barato, e qualquer sinal de reprecificação de risco — como o salto nos CDS e no yield da dívida da CoreWeave relatado pela CNBC — tende a se propagar rapidamente para todo o setor, como já se observa em Nebius, IREN e NextDC.
Para quem acompanha o mercado brasileiro, o nervosismo em torno das neoclouds é um termômetro relevante do apetite global por risco em tecnologia. O Nasdaq fechou em queda de 2,85%, a 25.940,55 pontos, no pregão de 22 de outubro de 2026, segundo dados do TradingView — movimento compatível com um ambiente em que investidores reavaliam a sustentabilidade financeira de empresas ligadas à infraestrutura de IA, mesmo as de maior porte.
O desfecho dependerá de variáveis concretas a monitorar: se o mercado de dívida de alto rendimento realmente reabrirá após as eleições de meio de mandato nos EUA, como sinalizaram fontes de crédito à CNBC; se a Nvidia ampliará seu envolvimento financeiro na CoreWeave além da participação atual; e como o próximo balanço trimestral, com fluxo de caixa livre negativo projetado em alta, será recebido por credores e acionistas.
Investidores expostos a ativos de tecnologia e infraestrutura digital devem monitorar de perto a evolução dos spreads de crédito de empresas de neocloud e o ritmo de novas emissões de dívida no setor — sinais que, segundo analistas citados pela CNBC, tendem a antecipar movimentos mais amplos nos preços das ações ligadas à cadeia de IA.
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