Os preços globais de energia voltaram a subir de forma acentuada nos últimos dias, movimento atribuído principalmente à escalada do conflito entre os houthis do Iêmen e a Arábia Saudita, que tem provocado transtornos na cadeia de fornecimento de petróleo. A informação é da BBC.
Segundo o levantamento, os custos de gasolina e diesel subiram rapidamente na maior parte dos países, enquanto o preço no atacado do gás natural — usado para aquecimento residencial e geração de eletricidade — praticamente dobrou no Reino Unido e na Europa desde julho.
A reportagem destaca que cresce a preocupação com um novo choque inflacionário sobre a economia mundial, o que poderia levar a novos aumentos de juros, elevação do custo de financiamentos imobiliários e repasse de preços para praticamente todos os produtos vendidos no varejo, incluindo alimentos.
Gasolina, diesel e gás em alta
De acordo com a BBC, o preço global do petróleo está atualmente acima de 108 dólares (80 libras) o barril, ante 70 dólares (52 libras) em junho de 2026 — uma alta de cerca de 50%.
Esse movimento contribuiu para que o preço médio da gasolina no Reino Unido superasse 170 pence por litro, o maior patamar desde 2022, ante 150 pence em julho.
Como resultado da quase duplicação do custo do gás natural britânico somada a esse cenário, o teto de preços doméstico definido pelo regulador Ofgem deve subir 25% em janeiro do próximo ano — o equivalente a cerca de 440 libras a mais por ano para uma residência típica.
Nos Estados Unidos, o preço do galão (3,8 litros) de gasolina passou de 3,80 dólares (2,82 libras) em julho para 4,32 dólares (3,20 libras), segundo o índice AAA Gas Prices citado pela emissora.
Os preços do diesel bateram recorde no país, superando 6 dólares (4,46 libras) por galão, patamar mais alto até mesmo do que o registrado após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022, segundo a mesma fonte.
O que está pressionando os preços
Analistas ouvidos pela BBC apontam que o principal motor da alta tem sido a redução da oferta global de petróleo e gás. Antes do início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, no fim de fevereiro, cerca de 20% de todo o petróleo e do gás natural liquefeito comercializados globalmente passavam pelo Estreito de Hormuz, estreita passagem que liga o Golfo ao Mar Arábico.
Esse fluxo de energia despencou após fevereiro em razão de ataques iranianos a embarcações comerciais e a instalações energéticas de aliados dos EUA no Golfo, além de um bloqueio norte-americano aos portos do Irã.
Depois do início da guerra, a Arábia Saudita intensificou o uso de seu duto East-West — que, segundo a empresa de inteligência marítima Kpler, tem capacidade de 3,6 milhões de barris por dia — para escoar petróleo pelo Mar Vermelho, evitando o Estreito de Hormuz.
Mas o duto precisou ser desligado depois de sofrer um ataque de drones na sexta-feira, que a Arábia Saudita atribuiu a milícias apoiadas pelo Irã no Iraque. Separadamente, os houthis atacaram diversas instalações petrolíferas sauditas com drones e mísseis na semana anterior, provocando incêndios que levaram à paralisação temporária das operações.
Neil Quilliam, da Chatham House, avaliou que o duto pode levar um tempo considerável para voltar a operar plenamente, sem apresentar um prazo definido. Já o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, disse à emissora CNBC na terça-feira que a estrutura deve voltar a funcionar 'muito em breve'.

A reportagem observa ainda que, apesar de o governo americano insistir que o combustível continua fluindo pelo Estreito de Hormuz em volumes próximos aos registrados antes da guerra, a maioria dos analistas independentes considera que a via marítima permanece significativamente obstruída.
Antes do conflito, cerca de 21 milhões de barris de petróleo e derivados por dia passavam pelo Estreito de Hormuz, segundo a Administração de Informação sobre Energia dos Estados Unidos (EIA). A Kpler estimou que esse volume havia caído para cerca de 8,6 milhões de barris por dia até o fim de agosto.
Nas últimas duas semanas, os houthis no Iêmen tomaram território estratégico de forças pró-governo apoiadas pela Arábia Saudita nas proximidades do Estreito de Bab al-Mandab, outro ponto de estrangulamento comercial na extremidade sul do Mar Vermelho, por onde passava cerca de 5% do fornecimento global de petróleo antes de fevereiro.
Outros 5% do fornecimento global de petróleo costumam deixar o Mar Vermelho pelo norte, via Canal de Suez e um duto que atravessa o Egito até o Mediterrâneo. O preço do petróleo no mercado global vem subindo por temores de que essas rotas comerciais possam ser ainda mais severamente afetadas por ações do Irã e de seus aliados, assim como já ocorre em Hormuz.
Antes dos recentes avanços houthis na costa sudoeste do Iêmen, o grupo havia declarado em julho que estava impondo um bloqueio naval a navios e portos sauditas, afirmando que não atacaria embarcações de outros países em trânsito pelo Mar Vermelho.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que 'a alta do preço mundial do diesel é causada principalmente pela guerra entre Rússia e Ucrânia, não pelo Irã'. Analistas citados pela BBC dizem que o conflito — incluindo ataques ucranianos com drones a refinarias russas — de fato pressiona os preços do diesel, já que a Rússia é a segunda maior exportadora mundial do combustível. Ainda assim, a maioria avalia que a causa mais relevante da recente disparada dos preços de energia está no conflito regional em expansão no Oriente Médio.
O que isso significa para a economia global
Economistas ouvidos pela reportagem afirmam que preços de energia mais altos, se sustentados, costumam se traduzir em custos maiores para as famílias e em crescimento econômico mais fraco, o que reduz renda e salários.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que um aumento sustentado de 10% no preço do petróleo eleva a inflação global em 0,4% e reduz o crescimento do PIB mundial em até 0,2%.
O Banco da Inglaterra, por sua vez, calcula que uma alta de 10% no preço global do petróleo eleva a inflação britânica em 0,5% no curto prazo e reduz o crescimento do PIB do Reino Unido em cerca de 0,4%.
A alta do preço global do petróleo desde junho é cerca de cinco vezes maior do que o cenário usado pelo FMI e pelo Banco da Inglaterra em seus modelos econômicos para avaliar o impacto de aumentos no preço do óleo.
Ainda assim, a BBC pondera que o preço global do petróleo pode recuar novamente caso haja um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã. Após a assinatura de um acordo preliminar entre as partes em guerra em junho, o preço do petróleo caiu temporariamente e de forma acentuada para níveis pré-guerra, depois de ter chegado a 120 dólares o barril.
O que isso significa para o investidor
Para quem investe no Brasil, o desenrolar desse conflito no Oriente Médio é uma variável a monitorar de perto, já que choques no preço internacional do petróleo tendem a se refletir na política de preços de combustíveis e, por consequência, em expectativas de inflação e na trajetória de juros locais. O tamanho do movimento — bem acima do que modelos do FMI e do Banco da Inglaterra usam como referência — sugere que os efeitos, caso persistam, não serão marginais.
Setores sensíveis a custos de energia e logística, como transporte, indústria e varejo, tendem a ser os primeiros a sentir pressão de margens caso a alta do petróleo e do diesel se mantenha. Já produtores e exportadores de commodities energéticas podem se beneficiar do cenário de preços mais altos enquanto durar a disrupção nas rotas do Golfo e do Mar Vermelho.
O ponto de inflexão a acompanhar é justamente a evolução do conflito: uma eventual retomada plena do duto East-West saudita, a normalização do fluxo pelo Estreito de Hormuz ou um avanço em negociações entre Estados Unidos e Irã têm potencial de reverter parte da alta, como já ocorreu em junho após o acordo preliminar entre as partes. Até que esses sinais fiquem mais claros, a cautela em ativos sensíveis a energia e a atenção a indicadores de inflação e juros seguem sendo a postura mais prudente.
Agregado por AAR News · fonte: BBC
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