A China vem comprando ouro mensalmente há quase dois anos, em um esforço que analistas associam diretamente à estratégia de Pequim de ampliar o uso internacional do yuan, segundo reportagem da CNBC a partir de sua newsletter The China Connection. O movimento combina acúmulo de reservas do metal com a construção de uma infraestrutura de negociação em Hong Kong denominada na moeda chinesa.
Charles Chang, diretor administrativo e líder de ratings corporativos para a Grande China na S&P Global Ratings, disse à CNBC que o crescimento dos volumes de negociação em Hong Kong deve ampliar a fatia do comércio físico de ouro liquidada em yuans, e não em dólares.
Um mercado de ouro em yuans
Segundo a reportagem, o yuan — também chamado de renminbi — ainda representa uma fração pequena das transações internacionais em um sistema financeiro dominado pelo dólar americano. Os analistas ouvidos pela CNBC não esperam mudanças relevantes nessa dinâmica no curto prazo, mas descrevem as compras de ouro de Pequim e a plataforma de negociação de Hong Kong como mais um passo dentro de um processo gradual de internacionalização da moeda chinesa.
Chang afirmou que o principal obstáculo à internacionalização do renminbi é a dificuldade de encontrar usos práticos para a moeda fora da China. Na avaliação dele, se o yuan recebido por um vendedor puder ser convertido em ouro, isso cria mais canais para que a moeda circule e seja efetivamente utilizada.
Hong Kong, sede de uma das maiores bolsas de valores do mundo, confirmou no mês passado seus esforços para desenvolver um mercado de ouro denominado em yuans. O território já havia dado um passo importante no ano anterior, ao conectar seu cofre de ouro ao de Xangai, permitindo que instituições internacionais recebam entrega física do metal em Hong Kong com liquidação em yuans.
De acordo com Chang, Hong Kong planeja expandir, ao longo dos próximos três anos, a capacidade desse cofre vinculado a Xangai de 150 toneladas para mais de 2.000 toneladas. Ele observou que esse volume seria quase equivalente a todas as reservas de ouro atualmente detidas pela China, e que, se o plano for concluído, Hong Kong se tornaria um dos maiores centros de negociação de ouro do mundo.
A disputa com o dólar
Segundo dados do World Gold Council para o segundo trimestre, os Estados Unidos seguem com as maiores reservas de ouro do mundo, acima de 8.100 toneladas, enquanto a China detinha cerca de um terço desse volume, com mais de 2.300 toneladas.
Hao Zhou, chefe de pesquisa e economista-chefe da Guotai Junan International em Hong Kong, disse à CNBC que a sequência de 23 meses de compras de ouro pela China reforça a credibilidade do processo de internacionalização do renminbi. Segundo ele, ao aumentar de forma constante suas reservas em ouro, Pequim fortalece o lastro de longo prazo de seu sistema financeiro e reduz a dependência de ativos de reserva denominados em dólar.
Zhou ponderou que o ouro, isoladamente, não vai determinar o papel global do renminbi, mas contribui para reforçar a confiança na moeda e apoia esforços mais amplos para ampliar seu uso no comércio, em investimentos e em reservas oficiais.
Xia Yingying, chefe do grupo de pesquisa em metais preciosos e nova energia da Nanhua Futures, com sede em Hangzhou, disse — em declarações traduzidas do chinês pela CNBC — que o acúmulo de ouro pela China e por outros bancos centrais ajuda a reduzir a dependência global de títulos do Tesouro americano e de reservas em dólar. Segundo ela, isso tende a reduzir o prêmio que o dólar carrega por ser moeda de reserva central e a elevar o prêmio de risco associado a ele em questões de crédito, política fiscal e sanções, enfraquecendo gradualmente, no médio e longo prazo, a posição de monopólio do dólar no sistema global de reservas.
A reportagem destaca que o crescimento das compras de ouro pela China ocorre em paralelo a uma movimentação política nos Estados Unidos: na sexta-feira, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, nomeou Judy Shelton, defensora do padrão-ouro, como assessora sênior focada na China.
A CNBC também recupera uma análise do grupo de pesquisa de bancos centrais OMFIF, de 2021, segundo a qual a ascensão da China como potência manufatureira foi beneficiada pela decisão americana, há mais de 50 anos, de abandonar o padrão-ouro. Com a desvinculação entre dólar e ouro e a consequente alta do preço do petróleo, a manufatura ocidental teria se tornado menos competitiva, levando capital a buscar mão de obra barata e custos menores na Ásia.
A reportagem ainda ressalva que, embora a China seja a maior consumidora e produtora de ouro do mundo, ela é apenas uma entre várias economias em desenvolvimento que ampliaram suas reservas do metal desde 2022, segundo a S&P. Os dados do World Gold Council mostram que a Polônia, inclusive, aumentou suas reservas de ouro em volume maior, em toneladas, do que a China no período.
Controle também na origem do metal
Segundo a CNBC, a estratégia chinesa com o ouro vai além das transações financeiras e lembra o padrão já observado no setor de terras raras: o controle sobre parte da produção do próprio insumo. A S&P Global Ratings aponta que a China adquiriu minas de ouro relevantes na América Latina, na África e na Ásia.
Chang afirmou que os planos da China para o ouro, e suas atividades no setor, são abrangentes e duradouros, com tendências que devem permanecer em vigor por vários anos. Segundo ele, essa abrangência é um aspecto que os mercados frequentemente não captam.
Outros destaques da cobertura
A newsletter da CNBC também traz atualizações sobre outros temas da economia chinesa. A DeepSeek estaria avaliando dobrar sua rodada de captação mais recente, podendo chegar a 100 bilhões de yuans (US$ 14,9 bilhões), o dobro da meta inicial, com fundos estatais e investidores corporativos disputando participação, segundo fontes ouvidas pela CNBC. Já a startup de IA Manus levantou US$ 500 milhões com a IDG Capital e outros investidores, sinal de que o mercado não foi dissuadido pela ordem inédita de Pequim que bloqueou a aquisição, de curta duração, de uma fatia da empresa pela Meta por US$ 2 bilhões.
No comércio exterior, o comissário europeu de Comércio, Maroš Sefčovič, disse na sexta-feira que a China concordou em reduzir pela metade suas exportações de veículos híbridos para o bloco europeu. A reportagem lembra que o mercado automotivo chinês caminha para seu pior ano desde 2021, com vendas em queda de mais de 20% nos primeiros três trimestres, segundo dados da China Passenger Car Association até 27 de setembro.
No setor imobiliário, a S&P Global Ratings estima que os preços residenciais na China podem atingir um piso no terceiro trimestre de 2028, com recuperação possível já a partir do ano que vem em grandes cidades como Pequim e Xangai, após anos de retração do setor.
A newsletter cita ainda a agenda chinesa: dados de PIB do terceiro trimestre, vendas no varejo, produção industrial e investimento em ativos fixos devem ser divulgados em 19 de outubro, data que coincide com o Financial Street Forum, em Pequim, e o Bund Summit, em Xangai, entre os dias 19 e 22 de outubro.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha ativos chineses e o mercado de ouro, o ponto central da reportagem da CNBC é que Pequim está tratando a internacionalização do yuan como um projeto de longo prazo, com múltiplas frentes simultâneas: reservas do banco central, infraestrutura de negociação em Hong Kong e controle de minas no exterior. Isso sugere que o tema não deve ser lido como um evento pontual, mas como um vetor estrutural a ser monitorado ao longo de anos, como o próprio Chang, da S&P, destacou.
O ouro, negociado nesta segunda-feira a US$ 4.172,30 por onça (variação de +0,03% no dia), segundo o scanner da TradingView consultado pelo AAR News em 12 de outubro de 2026 às 23h37 (horário de Brasília), segue como referência de precificação global mesmo diante dessas movimentações. A reportagem não traz, contudo, qualquer projeção de preço associada ao avanço do mercado em Hong Kong, e o investidor deve evitar inferir impacto imediato sobre a cotação a partir apenas da notícia institucional.
Vale notar que a cobertura recente do AAR já havia tratado a China sob uma ótica estratégica distinta: em comentário de 26 de setembro de 2026, o gestor Andrew Mattock, da Matthews Asia, apontou o país como peça relevante para exposição ao tema de inteligência artificial em carteiras de mercados emergentes. Somada aos movimentos em torno do yuan e do ouro, a notícia reforça um quadro de Pequim buscando, simultaneamente, maior protagonismo monetário e tecnológico — dois eixos que investidores com exposição a ativos chineses ou emergentes em geral fazem bem em acompanhar separadamente, sem misturar as teses.
Por fim, episódios citados na própria newsletter — como a nomeação de Judy Shelton nos EUA, o acordo automotivo entre China e Europa e a trajetória do mercado imobiliário chinês — reforçam que o pano de fundo macro chinês segue com múltiplas variáveis em movimento. Para investidores com exposição à região, o indicado é acompanhar os dados de PIB e atividade de 19 de outubro, mencionados na agenda da própria reportagem, como próximo ponto de checagem factual.
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