A Coinbase Global divulga nesta quinta-feira, após o fechamento do mercado, seus resultados do terceiro trimestre, em um momento no qual analistas de Wall Street tentam dimensionar a recuperação da atividade de negociação de criptomoedas após um período fraco para o setor. Segundo reportagem do CoinDesk, as ações da Coinbase (COIN) fecharam a última sessão cotadas a US$ 162,34.
De acordo com a publicação, a atividade de trading ganhou tração em setembro, depois de atingir mínimas de vários anos em junho, impulsionada pela recuperação dos preços das criptomoedas. Ainda assim, os analistas ouvidos pelo CoinDesk discordam sobre o quanto essa retomada beneficiou a exchange e se o movimento tem fôlego para continuar.
A incerteza ganhou contornos mais concretos depois que a Robinhood Markets (HOOD), negociada a US$ 91,41 no fechamento mais recente, reportou queda de 55% na receita com transações cripto, com o volume negociado em criptoativos recuando 38% no período. Em contrapartida, a receita com opções e ações da corretora subiu, e os mercados de previsão (prediction markets) geraram US$ 173 milhões, mais de seis vezes o valor registrado um ano antes.
Essa divergência interna nos resultados da Robinhood importa para a leitura do balanço da Coinbase, que ainda depende fortemente da receita gerada por clientes comprando e vendendo criptoativos. Diferentemente de uma corretora tradicional, capaz de diversificar entre receita de juros, produtos de investimento e outros serviços, a Coinbase permanece exposta às oscilações de preço das criptomoedas, já que os volumes negociados tendem a encolher quando os preços caem, reduzindo a receita de taxas da empresa.
Wall Street dividida sobre a força da retomada
Segundo o CoinDesk, analistas projetam que o negócio de trading da Coinbase melhorou em relação ao segundo trimestre, mas há desacordo sobre quanto dessa atividade efetivamente se converterá em receita.
O JPMorgan, que classifica a ação como overweight, é o mais otimista quanto ao volume negociado, projetando US$ 173 bilhões para o trimestre. O Barclays estima US$ 147 bilhões, e a Oppenheimer, US$ 141 bilhões. Com base nessas projeções de volume, as estimativas de receita de transação variam entre US$ 578 milhões e US$ 694 milhões, enquanto as previsões de receita total ficam em uma faixa de aproximadamente US$ 1,2 bilhão a US$ 1,4 bilhão.
Para o ebitda ajustado, o JPMorgan projeta US$ 323 milhões; o Barclays, que mantém recomendação underweight para a ação, prevê US$ 360 milhões; e a Oppenheimer, com classificação outperform, estima US$ 262 milhões.
Apesar das diferenças numéricas, os analistas convergem em um ponto: a Coinbase segue altamente exposta às oscilações do mercado cripto. O Barclays observou que o aumento dos volumes à vista registrado em setembro parece ter perdido força no início de outubro, enquanto a Oppenheimer cortou sua projeção de volume de negociação em 20% diante do enfraquecimento da atividade de mercado.
Receita de stablecoins funciona como colchão
O negócio de stablecoins da Coinbase pode oferecer algum alívio aos resultados. A exchange recebe uma fatia da receita gerada pelas reservas que lastreiam a USDC, token atrelado ao dólar emitido pela Circle Internet (CRCL), cujas ações fecharam a US$ 81,69. Segundo o CoinDesk, o JPMorgan espera US$ 320 milhões em receita de stablecoins no trimestre, uma fonte de receita que não depende diretamente de clientes realizando operações de compra e venda.
Por outro lado, taxas de juros mais baixas podem reduzir o retorno sobre as reservas da USDC, enquanto a concorrência pode pressionar a fatia de receita que cabe à Coinbase, o que adiciona riscos a essa linha de negócio.
Derivativos e diversificação sob escrutínio
Analistas também acompanham os esforços da Coinbase para expandir sua atuação além da negociação à vista, por meio de derivativos, pagamentos e ativos tokenizados. A aquisição da Deribit, maior exchange de derivativos cripto do mundo, ampliou a presença da Coinbase no mercado de opções, embora as tendências recentes de negociação sejam mistas. Segundo o Barclays, o volume de futuros da Coinbase International caiu 12% em relação ao segundo trimestre, enquanto o volume combinado de opções e futuros da Deribit cresceu apenas 2%.
Pressão de preços preocupa o setor como um todo
A preocupação não se limita à Coinbase. Matthew Sigel, chefe de ativos digitais da VanEck, afirmou que os resultados da Robinhood apontam para um problema mais amplo entre corretoras e exchanges. Em publicação na rede social X citada pelo CoinDesk, Sigel escreveu que a equipe da VanEck vem acompanhando todas as corretoras e exchanges que já divulgaram balanços do terceiro trimestre e identificou a precificação como o elo fraco evidente.
Segundo Sigel, os resultados da Robinhood mostraram fraco poder de precificação em opções, ações e criptomoedas, com as empresas do setor enfrentando dificuldade para transformar atividade de negociação em receita diante da pressão sobre as taxas cobradas. O CoinDesk destaca que esse ponto pode ser particularmente relevante para a Coinbase, já que clientes de varejo historicamente geram mais receita por dólar negociado do que clientes institucionais.
A divergência entre os analistas é maior justamente no horizonte de mais longo prazo. O JPMorgan enxerga oportunidades em tokenização, pagamentos e na blockchain Base, da própria Coinbase, enquanto o Barclays mantém ceticismo quanto à capacidade de negócios mais novos compensarem a dependência da empresa em relação à negociação de varejo e à receita com USDC.
O que isso significa para o investidor
O balanço da Coinbase chega em um momento no qual o mercado já monitora sinais de fragilidade na dinâmica de alavancagem e nos fluxos de Wall Street — o AAR News noted recentemente que a dívida de margem desacelerou de 53,7% em maio para 31,4% em setembro, segundo o BofA, padrão historicamente associado a topos de mercado. A leitura dos resultados da Coinbase pode reforçar ou contrariar esse pano de fundo de cautela, já que a empresa é um termômetro direto do apetite por risco em criptoativos.
A dispersão nas projeções de Wall Street — com estimativas de receita total variando de cerca de US$ 1,2 bilhão a US$ 1,4 bilhão e de ebitda ajustado entre US$ 262 milhões e US$ 360 milhões — sinaliza que o mercado ainda não tem convicção sobre a sustentabilidade da recuperação de volumes observada em setembro. Para quem acompanha a Coinbase como proxy de exposição cripto, vale observar se a companhia confirma o arrefecimento identificado pelo Barclays no início de outubro ou se consegue sustentar o ritmo mais forte usado pelo JPMorgan em sua tese mais otimista.
A diversificação via receita de stablecoins e derivativos, incluindo a integração da Deribit, é o ponto a monitorar para avaliar se a Coinbase está, de fato, reduzindo sua dependência histórica do trading de varejo. Resultados mistos nos volumes de futuros e opções, somados ao alerta de Sigel sobre pressão generalizada de preços no setor de corretagem e exchanges, sugerem que o investidor deve calibrar expectativas: mesmo com recuperação de preços de criptoativos, a conversão dessa recuperação em receita e margem pode ser mais lenta e desigual do que o ciclo de alta anterior sugeria.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
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