A Coca-Cola elevou nesta terça-feira, pela terceira vez consecutiva, sua projeção de resultados para o ano, segundo reportagem da CNBC. O movimento ocorre mesmo com sinais de desaceleração no consumo dentro de seu principal mercado, os Estados Unidos.
Para o ano cheio, a companhia agora espera que o lucro por ação comparável cresça pelo menos 11%, patamar acima da previsão anterior, que ia de 9% a 10%. A expectativa para a receita orgânica também subiu, para um avanço de ao menos 5%, ante a estimativa prévia de crescimento de aproximadamente 5%, segundo a CNBC.
O presidente-executivo Henrique Braun atribuiu o desempenho à "velocidade e disciplina" da empresa diante de um "ambiente desigual", afirmou durante teleconferência de resultados citada pela reportagem.
Resultados acima das estimativas de Wall Street
No trimestre fiscal, a Coca-Cola reportou lucro por ação ajustado de 91 centavos de dólar, superando a expectativa de analistas consultados pela LSEG, que projetavam 88 centavos. A receita somou US$ 13,4 bilhões, acima da previsão de US$ 12,92 bilhões.
O lucro líquido atribuível aos acionistas somou US$ 4,01 bilhões, ou 93 centavos por ação, avanço frente aos US$ 3,7 bilhões, ou 86 centavos por ação, registrados um ano antes. Excluindo ganhos com transações e outros itens não recorrentes, o lucro ajustado ficou em 91 centavos por ação.
A receita líquida cresceu 7%, para US$ 13,4 bilhões, e a receita orgânica — métrica que exclui aquisições, desinvestimentos e efeitos cambiais — também avançou 7% no período. Pelo segundo trimestre seguido, o volume de caixas unitárias vendidas subiu 5%, impulsionado pela demanda fora da América do Norte.
América do Norte fica estável, mas com ressalvas
O mercado doméstico da Coca-Cola registrou volume estável no trimestre. Segundo o diretor financeiro John Murphy, em entrevista à CNBC, a operação norte-americana teria apresentado crescimento de volume não fosse o efeito do calendário do feriado de 4 de julho e a escassez prolongada de Topo Chico, marca de água com gás da própria companhia.
"O momentum subjacente segue bastante forte", disse Murphy. "O sentimento do consumidor está, em grande parte, inalterado no sentido de que, em qualquer faixa de renda, as pessoas estão em busca de valor, e acho que nosso sistema fez um bom trabalho em interpretar isso."
Dentro da América do Norte, o segmento de consumo doméstico ('at-home') tem performado melhor que o segmento fora do lar, que inclui restaurantes, cinemas e parques de diversão. Segundo Murphy, a indústria de restaurantes segue sob pressão, e a companhia espera que esse cenário continue pelo restante do ano.
Olhando para 2027, a expectativa da companhia é de que o comportamento do consumidor permaneça essencialmente o mesmo observado nos últimos trimestres, afirmou Murphy. Executivos da Coca-Cola já vinham apontando, em divulgações recentes, que o consumidor norte-americano está pressionado pela inflação e pela incerteza econômica, embora continue comprando tanto marcas premium, como a Fairlife, quanto o refrigerante que dá nome à companhia.
Reação do mercado e desempenho por categoria
As ações da Coca-Cola recuaram menos de 1% nas negociações da manhã, reação atribuída pela CNBC à previsão mais cautelosa sobre o ambiente de consumo.
Globalmente, o negócio de refrigerantes com gás da companhia viu o volume crescer 5% no trimestre, puxado pelo desempenho de Coca-Cola, Coca-Cola Zero Sugar e Diet Coke. Segundo Murphy, a Diet Coke vive um "ressurgimento": consumidores da Geração Z nos Estados Unidos apelidaram a bebida de "cigarro de geladeira", enquanto consumidores na Índia promoveram festas de Diet Coke em meio à escassez do produto ligada ao conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã. "É uma marca que está praticamente se reinventando para a próxima geração de consumidores", disse o executivo.
Murphy também afirmou que a Coca-Cola vem ganhando participação de mercado enquanto a rival PepsiCo enfrenta dificuldades em seu negócio de refrigerantes. Ainda assim, segundo ele, algumas marcas do próprio portfólio da Coca-Cola, como a Sprite, "têm trabalho a fazer".
A divisão de águas, bebidas esportivas, café e chá também registrou alta de 5% no volume, impulsionada pela maior demanda por água — incluindo a marca premium Smartwater. A demanda por chá e café ficou estável, enquanto as bebidas esportivas recuaram. Já o segmento de sucos, laticínios de valor agregado e bebidas à base de plantas teve volume estável no total, apesar do crescimento registrado por marcas como Fairlife e Minute Maid.
O que isso significa para o investidor
A combinação de resultados acima do esperado com uma terceira revisão para cima nas projeções anuais reforça a leitura de que a Coca-Cola segue conseguindo repassar preço e sustentar margens mesmo em um cenário de consumo mais seletivo nos Estados Unidos. Para o investidor que acompanha papéis de consumo defensivo, o dado relevante é a resiliência fora da América do Norte, que tem compensado a estabilidade do mercado doméstico.
O recuo discreto das ações após o balanço sugere que o mercado já havia precificado boa parte da melhora operacional, reagindo com mais atenção ao tom cauteloso da companhia sobre o comportamento do consumidor em 2027 do que aos números do trimestre em si. Vale observar que a própria empresa reconhece pressão persistente no segmento fora do lar, especialmente em restaurantes, o que pode ser um indicador a monitorar para o restante do setor de bebidas e alimentação.
Para quem acompanha o case via ADRs ou exposição a consumo global, os pontos a observar nos próximos trimestres são a normalização do fornecimento de Topo Chico, a trajetória de marcas que a própria companhia classifica como precisando de ajustes, caso da Sprite, e a evolução da demanda por refrigerantes diante das dificuldades relatadas pela concorrente PepsiCo — fator que pode continuar favorecendo o ganho de participação de mercado mencionado pela diretoria da Coca-Cola.
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