Economia Global

Chefe do comitê do FMI vê resiliência global, mas alerta contra excesso de confiança

Reunião anual do FMI e Banco Mundial em Bangcoc termina com declaração conjunta aprovada, mas marcada por protesto de delegados contra a Rússia

Chefe do comitê do FMI vê resiliência global, mas alerta contra excesso de confiança
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O comitê diretor do Fundo Monetário Internacional encerrou neste sábado sua reunião anual em Bangcoc com uma avaliação de que a economia mundial segue resiliente diante de desafios profundos, mas sem espaço para relaxamento por parte dos formuladores de política econômica. A declaração, porém, foi ofuscada por uma saída coletiva de delegados durante a fala do ministro das Finanças da Rússia, episódio que expôs novamente as divisões em torno da guerra na Ucrânia, segundo reportagem da CNBC.

O ministro das Finanças da Arábia Saudita, Mohammed Al-Jadaan, que preside o Comitê Monetário e Financeiro Internacional (IMFC), reconheceu o protesto de quase metade dos delegados durante o discurso do representante russo, mas destacou que o resultado final — a aprovação do comunicado do presidente por todos os membros — foi o que importou. Em entrevista à Reuters, citada pela CNBC, ele afirmou: "Viemos aqui por um motivo, e o conseguimos. Olhe para esta declaração do presidente, ela diz claramente que todos os membros concordaram com o texto, então é isso que importa."

Resiliência sem espaço para complacência

Em coletiva de imprensa que encerrou uma semana de reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial, que reuniu mais de 18 mil pessoas em Bangcoc, Al-Jadaan disse que a economia global vem demonstrando uma resiliência notável diante de desafios persistentes, entre eles guerras, ameaças à segurança energética e alimentar, altos níveis de dívida pública e riscos associados ao avanço acelerado da inteligência artificial.

"A mensagem dos membros do IMFC é clara: não há espaço para complacência", disse Al-Jadaan, segundo a CNBC. A declaração do comitê, divulgada ao fim do encontro, alertou que a escalada de conflitos e tensões comerciais pode perturbar ainda mais rotas comerciais críticas, agravar pressões sobre preços de commodities — incluindo produtos refinados de energia — e piorar a segurança energética e alimentar global.

Debates sobre comércio e desequilíbrios

Al-Jadaan afirmou aos jornalistas que as autoridades fiscais deveriam trabalhar para reconstruir suas margens de manobra, ao mesmo tempo em que protegem populações vulneráveis e investimentos capazes de impulsionar o crescimento. Ele reforçou a necessidade de manter a independência dos bancos centrais e de adotar políticas que favoreçam o crescimento e o investimento liderados pelo setor privado.

"A cooperação internacional continua sendo fundamental para enfrentar desequilíbrios globais excessivos e tensões comerciais", disse o presidente do comitê, de acordo com a CNBC.

A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, classificou as reuniões como produtivas, mas disse haver uma ansiedade crescente entre os países-membros em razão do aumento da divergência entre economias. Segundo ela, muitos países de renda mais baixa, que estão fora da cadeia de valor da inteligência artificial, temem ficar para trás nesse processo.

"Essas reuniões também mostraram que, num mundo de choques repetidos e fragmentação geopolítica, ainda existe um desejo de diálogo e cooperação multilateral", afirmou Georgieva, segundo a reportagem. "Ele está presente."

Protesto diplomático contra a Rússia

As declarações de Georgieva vieram pouco depois de um episódio que marcou o encontro: diversos delegados do IMFC deixaram a sala no momento em que o ministro das Finanças da Rússia, Anton Siluanov, discursava em russo ao grupo.

O presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, disse em evento paralelo às reuniões que quase 50% dos delegados participaram da saída coletiva, enviando, segundo ele, um sinal claro à Rússia. "Este é um sinal muito forte de solidariedade e de valores. O melhor para a economia mundial seria o fim dessa guerra de agressão não provocada contra a Ucrânia", disse Nagel, conforme a CNBC. "Fiquei realmente orgulhoso de ver tantos saírem daquela plenária."

O Banco da Inglaterra confirmou que seu presidente, Andrew Bailey, esteve entre os delegados que participaram do protesto — episódio que ocorre às vésperas de o Reino Unido sediar o G20 no próximo ano.

Segundo fontes citadas pela CNBC, entre os que deixaram a sala durante a fala de Siluanov estavam delegados do Reino Unido, Alemanha, França, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Noruega, Lituânia, Letônia e Estônia, entre outros países.

"A guerra na Ucrânia é existencial para nós, na Europa", disse um diplomata europeu à reportagem. "Não podemos normalizar as relações com a Rússia."

Tensões antigas, reabertas

A invasão russa da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, tem dificultado o funcionamento do IMFC desde então, impedindo o comitê de chegar a declarações de consenso nos anos seguintes. Na reunião desta semana, as divisões voltaram a se aprofundar, em meio a novas tensões entre Estados Unidos e Ucrânia.

O ministro das Finanças da Ucrânia participou das reuniões de forma virtual, para poder se concentrar em prioridades orçamentárias internas, segundo a CNBC.

Pano de fundo: guerra, G20 e Trump

A Alemanha já havia alertado, na quinta-feira, contra esforços para reinserir a Rússia no cenário internacional, depois que Siluanov participou de uma reunião de ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do G20 — pouco mais de um mês após os Estados Unidos sediarem sua primeira aparição presencial no G20 desde a invasão, em um encontro em Asheville, na Carolina do Norte.

A subsecretária do Tesouro dos Estados Unidos, Erin Browne, disse à Reuters no mesmo dia, segundo a CNBC, que Washington — atual líder do G20 — apoia a presença da Rússia nas reuniões, apesar das preocupações europeias. "Achamos realmente importante, se você vai resolver uma crise, ter diálogo aberto e conversa aberta", disse ela. "E você não pode ter diálogo, e não pode ter resolução de conflito, se ninguém está conversando com ninguém."

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, discursando em uma cúpula da União Europeia na sexta-feira, criticou o acordo de diesel do presidente americano Donald Trump com a Rússia e saudou a possibilidade de os aliados europeus assumirem papel mais ativo nas negociações de paz.

Líderes da União Europeia se posicionaram ao lado de Zelenskyy depois que Trump voltou a criticar a Ucrânia, chamando de "vergonha" os ataques ucranianos a refinarias russas. Na sexta-feira, Trump dispensou uma nova exigência do Congresso americano para impor sanções duras à Rússia, segundo a reportagem da CNBC.

O que isso significa para o investidor

Para quem acompanha mercados globais a partir do Brasil, o episódio em Bangcoc confirma um pano de fundo já conhecido: a geopolítica em torno da guerra na Ucrânia segue como fonte de atrito entre grandes economias, mesmo em fóruns técnicos como o FMI, e isso tende a se refletir em maior cautela com ativos de risco em momentos de escalada retórica.

A menção explícita do comitê a riscos de disrupção em rotas comerciais e pressão sobre preços de energia refinada é um ponto a observar de perto por investidores expostos a commodities e a moedas de países exportadores de petróleo e derivados, já que qualquer novo capítulo de tensão entre Rússia e países ocidentais pode se traduzir em volatilidade nesses mercados.

A divergência entre países que participam da cadeia de valor da inteligência artificial e os que ficam de fora, mencionada por Kristalina Georgieva, também é um tema que merece acompanhamento por quem aloca capital em mercados emergentes: a diferenciação entre economias mais e menos integradas a essa cadeia pode ampliar o descolamento de desempenho entre ativos de diferentes países nos próximos trimestres.

Por fim, a dispensa, por parte de Trump, de uma exigência do Congresso para sanções mais duras contra a Rússia, somada ao apoio americano à presença russa no G20, sinaliza que a posição dos Estados Unidos em relação ao conflito segue sendo um fator de incerteza para o cenário internacional — algo que investidores com exposição a ativos globais e a câmbio devem monitorar à medida que novos desdobramentos diplomáticos surgirem.

Agregado por AAR News · fonte: CNBC

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