O chanceler britânico John Healey apresentou nesta semana seu primeiro Orçamento à frente do Tesouro, prometendo um pagamento único de £100 a milhões de domicílios para aliviar o peso das contas de energia. A medida será financiada por um aumento da tributação sobre os lucros dos grandes bancos, segundo a BBC.
Em discurso de uma hora na Câmara dos Comuns, acompanhado por aplausos do primeiro-ministro Andy Burnham e de colegas de bancada, Healey disse buscar dar às famílias sob pressão um respiro imediato e perspectiva de melhora à frente, descrevendo o momento como marcado por tempestades econômicas globais. Ele também anunciou isenções fiscais voltadas a comércios de rua, mas confirmou que decisões importantes sobre defesa e assistência social ficarão para o próximo ano.
Medidas voltadas ao custo de vida
Segundo o material da BBC, o pagamento único de £100 será destinado a residências classificadas nas faixas A a D do imposto municipal (council tax) na Inglaterra. O governo galês afirmou que vai replicar o benefício, enquanto o governo escocês sinalizou que pretende reproduzir a mesma medida em seu território.
Healey anunciou ainda o fim das chamadas taxas fixas diárias de gás (standing charges) na Inglaterra, Escócia e País de Gales, a partir de 2027 ou assim que for possível depois disso. Essas cobranças fixas serão incorporadas ao preço de cada unidade consumida, o que deve elevar a conta para consumidores com uso mais intenso de gás.
O corte temporário de 5 pence no imposto sobre combustíveis (fuel duty) para gasolina e diesel foi estendido até julho. Já o salário mínimo deve subir 3,9% em abril, embora não haja avanço na redução da diferença entre as faixas pagas a trabalhadores mais velhos e mais jovens, aponta a reportagem.
Taxação de bancos e apostas
Healey elevou de 3% para 6% a alíquota cobrada sobre os lucros dos grandes bancos, medida que valerá de janeiro do próximo ano até abril de 2028. Também foram majorados os impostos sobre máquinas de apostas de alto risco, segundo a BBC.
Alívio para o comércio local
Como parte de um pacote de apoio a pequenos negócios, o chanceler elevou o patamar a partir do qual lojas de rua na Inglaterra passam a pagar imposto predial comercial (business rates), de £12.000 para £18.000. Lojas de vaporizadores (vape shops) e centros de jogos para adultos foram excluídos dessa isenção.
Contas públicas sob pressão
Healey teve pouco espaço para medidas de maior impacto, já que as finanças públicas seguem apertadas: o Reino Unido deve gastar £14 bilhões a mais com juros da dívida neste ano, segundo o material original. As faixas de isenção do imposto de renda permanecerão congeladas, e a tributação sobre rendimentos de poupança e aluguel de imóveis subirá para 24% para contribuintes da faixa básica a partir de abril de 2027 — percentual superior aos 22% que estavam previstos anteriormente.
Por outro lado, o corte no limite de contribuição isenta em contas de poupança do tipo cash ISA, de £20.000 para £12.000 ao ano, anunciado no ano passado pela antecessora de Healey, Rachel Reeves, foi revogado.
O Office for Budget Responsibility (OBR), órgão independente de fiscalização fiscal, reduziu sua projeção de crescimento para o próximo ano para 1%, com estimativas um pouco mais altas para os anos seguintes. Em sua avaliação mais recente, o OBR afirmou que as famílias britânicas devem seguir pouco melhores financeiramente do que estavam antes da pandemia de Covid-19, mesmo uma década depois do início da crise sanitária — cenário descrito pelo presidente do órgão, David Miles, como bastante grave, segundo a BBC.
No discurso, Healey reforçou repetidamente que a economia britânica enfrenta incertezas globais e alta dos preços do petróleo provocada por conflitos no Oriente Médio. Ele afirmou aos parlamentares que essas tempestades não podem ser ignoradas e que cabe ao governo escolher o rumo diante delas.
Descentralização fiscal para regiões
Healey também anunciou planos para permitir que prefeitos regionais (mayors) retenham 20% da arrecadação de business rates e uma parcela do imposto de renda local para investir em prioridades de suas regiões. O objetivo, segundo ele, é que esses prefeitos passem a reter 100% dos business rates arrecadados em suas áreas até o fim da década — o que classificou como o ato mais radical de descentralização em uma geração.
Defesa e bem-estar social adiados
O chanceler buscou responder a críticas de que o governo trabalhista evita cortar benefícios sociais, afirmando que ele e o premiê Burnham mantêm compromisso com a redução da conta de assistência social, mas seguindo uma abordagem própria do partido. Segundo Healey, nenhuma decisão será tomada antes da publicação das revisões conduzidas por Alan Milburn, sobre jovens fora do trabalho e da educação, e por Stephen Timms, sobre o Personal Independence Payment, com legislação prevista apenas para o próximo ano.
Sobre o chamado buraco de £4,7 bilhões no plano de investimento em defesa, Healey revelou que parte do financiamento virá de cortes em orçamentos de capital de outros ministérios. Ele disse que vai detalhar, na revisão de gastos do próximo ano, como o governo pretende cumprir o compromisso de destinar 3% da renda nacional à defesa até 2030, e 3,5% até 2035.
Reações da oposição
A líder conservadora Kemi Badenoch classificou o pacote de Healey como pouco ousado, descrevendo o governo como gastador em excesso, endividado em excesso, sobretaxado e afundado em um sistema de assistência social fora de controle, segundo a BBC. Ela cobrou que o chanceler apresentasse hoje um plano concreto para os 3% de gastos em defesa, relembrando que ele próprio, ao renunciar ao cargo de secretário de Defesa em junho, alertou que as forças britânicas corriam risco por falta de recursos.
Badenoch acusou Healey de agora ser o responsável por aumentar o risco ao pessoal em operações e por tornar o país menos seguro, dizendo que, se tivesse decência, ele renunciaria novamente. Ela também afirmou que, com o Reino Unido caminhando para uma carga tributária recorde e gastando mais com juros da dívida do que com Exército e escolas somados, o orçamento apresentado não era bom o suficiente, nem forte o suficiente, nem ousado o suficiente.
Críticas de economistas e de outros partidos
Helen Miller, diretora do Institute for Fiscal Studies, disse que o orçamento traz uma série de medidas pontuais, mas pouco capaz de mudar o quadro de crescimento do país, segundo a reportagem da BBC.
O líder liberal-democrata Ed Davey afirmou que, enquanto o governo não tiver coragem de corrigir a relação comercial do Reino Unido com a União Europeia, qualquer orçamento continuará sendo apenas um ajuste superficial, incapaz de gerar o crescimento necessário ao país.
O líder do Reform UK, Nigel Farage, disse que o pacote está cheio de pequenos benefícios pontuais, mas que, no conjunto, não faz muita diferença, e que não trouxe nada de valor relevante em matéria de defesa.
Healey também foi criticado pela esquerda. Sharon Graham, secretária-geral do sindicato Unite, descreveu as medidas de custo de vida do orçamento como passos pequenos. Segundo ela, o fim das taxas fixas de gás e o pagamento de £100 para domicílios nas faixas A a D do imposto municipal, embora bem-vindos, não serão suficientes diante de previsões de que as contas de energia podem subir mais de £400 em janeiro.
O líder do Partido Verde, Zack Polanski, disse que o orçamento trai o futuro dos jovens e do planeta que eles vão herdar, destacando que o chanceler não mencionou o clima uma única vez, mas elogiou os bancos repetidamente, segundo a BBC.
O que isso significa para o investidor
A combinação de alívio pontual ao consumidor com aumento de tributação sobre bancos tende a pesar no curto prazo sobre o apetite do mercado por ativos financeiros britânicos ligados ao setor bancário, já que a elevação da alíquota sobre lucros de 3% para 6%, vigente de janeiro até abril de 2028, reduz diretamente a rentabilidade líquida dessas instituições durante o período. Investidores expostos a bancos listados em Londres devem monitorar como essas instituições repassam o custo adicional, seja via margens, seja via política de dividendos.
A análise anterior do AAR News sobre a cobertura da BBC, assinada por Faisal Islam, já apontava que o plano de Healey evita repetir o choque de confiança que marcou a mini-budget de Liz Truss, mas deixa lacunas relevantes para o plano econômico decenal do governo — avaliação feita em 29/10/2026. O corte na projeção de crescimento do OBR para 1% no próximo ano reforça esse diagnóstico de cautela: trata-se de um orçamento mais defensivo do que transformador, o que tende a manter a libra esterlina e os títulos soberanos britânicos (gilts) sensíveis a qualquer sinal adicional sobre a trajetória da dívida e dos juros pagos pelo Tesouro.
Para quem investe em renda fixa britânica, o aumento de £14 bilhões nos gastos com juros da dívida neste ano é um dado a acompanhar de perto, assim como o adiamento das decisões sobre defesa e assistência social para o próximo ano — o que mantém uma zona de incerteza orçamentária que o mercado normalmente precifica com prêmios de risco mais altos. A ausência de clareza sobre como o governo pretende chegar aos 3% do PIB em defesa até 2030 e 3,5% até 2035 é outro ponto que analistas de risco soberano devem monitorar até a revisão de gastos do próximo ano.
Por fim, a mudança na tributação sobre rendimentos de poupança e aluguel, que passará a 24% para a faixa básica a partir de abril de 2027, e a reversão do corte no limite do cash ISA são sinais relevantes para investidores de varejo britânicos que usam esses veículos para proteger rendimentos. Já para quem acompanha o Reino Unido de fora, o conjunto de medidas sugere um governo tentando equilibrar popularidade imediata com restrição fiscal, um equilíbrio que o próprio OBR classifica como ainda distante de devolver às famílias britânicas o padrão de vida anterior à pandemia.
Agregado por AAR News · fonte: BBC
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