A Bradesco Asset não espera a interpretação de analistas de mercado quando o Banco Central ou o Federal Reserve publicam um comunicado de política monetária. A gestora desenvolveu internamente um indicador que lê automaticamente o tom desses textos e já está disponível na plataforma Bloomberg.
Em conversa com Clara Sodré, analista de fundos da XP, no Espresso Outliers, o CEO da Bradesco Asset, Bruno Funchal, explicou que a ferramenta classifica o grau de dureza ou leniência de cada comunicado. Segundo ele, quando sai um texto do Banco Central ou do Fed, a inteligência artificial da casa indica o quanto aquele conteúdo é 'hawk' ou 'dove', informação que pode alimentar estratégias quantitativas ou apoiar decisões de investimento.
O indicador, batizado de Hawk-Dove, é uma das duas aplicações de inteligência artificial da Bradesco Asset reconhecidas pelo Global Finance com o prêmio de Melhor Inovação em Inteligência Artificial, competição de alcance global. Para a gestora, o reconhecimento simboliza uma aposta feita antes da maioria dos concorrentes: a de que a vantagem competitiva em gestão de recursos passaria a depender cada vez mais de dados proprietários e de soluções de IA construídas internamente.
O momento também foi positivo para a gestora na Premiação Outliers InfoMoney deste ano. A Bradesco Asset terminou em primeiro lugar na categoria Melhor Fundo de Renda Fixa Crédito Privado, venceu o Voto Popular, ficou em segundo lugar como Melhor Fundo de Previdência Renda Variável e em terceiro na categoria de Renda Fixa Crédito Privado. A terceira edição da premiação está marcada para 28 de janeiro, no Teatro B32, na Faria Lima, em São Paulo.
Uma área de IA criada antes do ChatGPT
O movimento da Bradesco Asset em direção à inteligência artificial não foi reação a uma tendência já consolidada no mercado — veio antes dela. Em 2022, a gestora estruturou uma área dedicada exclusivamente à inovação, e o direcionamento definido desde o início foi claro: apostar em inteligência artificial.
Funchal lembra que, naquele momento, o tema ainda engatinhava no debate público e estava longe da tração que ganharia depois. Ainda assim, afirma que desde 2022 a casa já mantinha contato intenso com o desenvolvimento de soluções baseadas em IA.
A partir dali, a gestora passou a investir em capacitação das equipes, em otimização do uso das ferramentas disponíveis e, sobretudo, na construção de aplicações internas voltadas à própria operação. Como asset de longa trajetória no mercado brasileiro, a casa acumulou ao longo dos anos uma base de informações e de histórico operacional que, segundo Funchal, dificilmente está acessível a modelos de inteligência artificial genéricos, sem acesso a essa camada de dados privados.
Funchal resume a lógica por trás dessa estratégia afirmando que a gestora possui um volume relevante de informação proprietária e que o desenvolvimento de aplicações internas serve justamente para aprimorar a gestão. Para ele, o investimento em dados e em soluções próprias é o que sustenta a vantagem competitiva da casa frente a concorrentes que dependem de ferramentas genéricas de mercado.
O indicador que lê o Banco Central
O Índice Hawk-Dove surgiu de uma necessidade prática: interpretar comunicados de política monetária com rapidez e de forma padronizada, sem depender exclusivamente da leitura manual de analistas.
No vocabulário do mercado financeiro, um comunicado 'hawk' expressa uma postura mais rígida em relação ao controle da inflação, normalmente associada à defesa de juros mais altos. Já um comunicado 'dove' expressa o oposto, uma postura mais branda, favorável a estímulos monetários. Tradicionalmente, essa leitura é subjetiva, consome tempo e costuma gerar interpretações divergentes entre analistas.
A ferramenta desenvolvida pela Bradesco Asset automatiza esse processo e entrega um grau de intensidade, indicando o quanto determinado comunicado pende para um lado ou outro do espectro. O resultado foi integrado à Bloomberg e pode ser utilizado diretamente em estratégias quantitativas ou como insumo adicional para decisões de alocação de carteira.
Foi essa aplicação que rendeu à gestora um dos dois prêmios do Global Finance na categoria de Melhor Inovação em Inteligência Artificial.
A IA que lê escrituras de debêntures
A segunda aplicação premiada pelo Global Finance tem um foco distinto, voltado à análise de crédito privado. Desenvolvida em parceria com a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a ferramenta foi criada para enfrentar uma das etapas mais trabalhosas do processo de análise: a leitura e interpretação de escrituras de debêntures, documentos longos e tecnicamente densos que estabelecem as condições de uma emissão de dívida corporativa.
Segundo Funchal, a solução amplia significativamente a produtividade e a assertividade do trabalho dos analistas responsáveis por examinar essas grandes escrituras, tornando o processo de análise de crédito mais ágil.
A demanda por esse tipo de ferramenta não é pontual. O mercado de crédito privado brasileiro tem se expandido nos últimos anos, em um cenário no qual o espaço ocupado por bancos de fomento vem diminuindo e o mercado de capitais assume papel crescente no financiamento de longo prazo das empresas. A Bradesco Asset acompanhou esse movimento, impulsionada pela ferramenta de inteligência artificial voltada à análise de crédito.
Governança da IA: entre a liberdade e a restrição
Internamente, a área de inovação da Bradesco Asset atua como instância reguladora da demanda por inteligência artificial dentro da gestora. Não existe liberdade irrestrita para que qualquer equipe utilize qualquer ferramenta da forma que considerar mais conveniente. Um comitê avalia as propostas de uso, seleciona aquelas com impacto estratégico relevante e distribui a capacidade de desenvolvimento disponível entre as iniciativas aprovadas.
Funchal descreve esse processo como um desafio de equilíbrio entre oferta e demanda: é preciso mapear quais soluções estruturais a Asset realmente precisa, confrontar essa necessidade com a capacidade técnica existente e submeter tudo à avaliação de um comitê, de forma que as escolhas estejam alinhadas à estratégia geral da gestora.
O monitoramento de custos relacionados ao uso de inteligência artificial ainda está em estágio inicial na empresa, mas Funchal não hesita em afirmar que o tema ganhará peso crescente. Segundo ele, a discussão sobre custos de IA deve entrar com força bem maior no planejamento orçamentário do próximo ano.
O que isso significa para o investidor
A experiência da Bradesco Asset ilustra um movimento mais amplo entre gestoras e bancos centrais ao redor do mundo: o uso crescente de tecnologia para acelerar e padronizar a leitura de sinais de política monetária, um insumo que historicamente dependia de interpretação humana e, por isso, estava sujeito a ruído e divergência. Ferramentas como o Índice Hawk-Dove reduzem essa margem de subjetividade, mas não eliminam a necessidade de acompanhamento qualificado por parte de quem aloca capital.
Para o investidor de fundos geridos por essa e outras casas que adotam abordagens semelhantes, o ponto relevante não é a tecnologia em si, mas a consistência dos resultados que ela ajuda a produzir ao longo do tempo. O desempenho recente da Bradesco Asset na Premiação Outliers InfoMoney, com destaque em fundos de renda fixa crédito privado, é um indicador concreto a ser observado em paralelo ao discurso sobre inovação tecnológica.
Vale também acompanhar como gestoras no Brasil equilibram investimento em inteligência artificial proprietária com disciplina de custos — tema que, segundo o próprio CEO da Bradesco Asset, deve ganhar peso nas discussões orçamentárias do setor no próximo ciclo. Esse equilíbrio tende a influenciar, no médio prazo, a estrutura de taxas cobradas de cotistas e a competitividade das gestoras que investem pesado em tecnologia interna.
No plano internacional, o interesse de bancos centrais e reguladores por tecnologia também aparece em outras frentes, como mostram episódios recentes acompanhados pela AAR News envolvendo o Fed e o Banco Central Europeu em temas distintos — da regulação de stablecoins sob o GENIUS Act a projetos de tokenização de reservas. Para o investidor, o pano de fundo comum é o de que tecnologia e dados proprietários estão se tornando variáveis cada vez mais relevantes na forma como instituições financeiras tomam decisões e se diferenciam da concorrência.
Agregado por AAR News · fonte: InfoMoney
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