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Boulos defende cortar desonerações e vê 'chantagem' do mercado em ajuste

Ministro da Secretaria-Geral cita cerca de R$ 600 bi em benefícios fiscais e propõe mexer em supersalários e emendas, enquanto dívida bruta soma 82,9% do PIB

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O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), classificou como uma espécie de pressão indevida do mercado financeiro a cobrança por ajuste fiscal que deve marcar o próximo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em entrevista à Folha de S.Paulo publicada no sábado (31), ele argumentou que eventuais cortes de gastos precisam mirar privilégios, não programas voltados à população de baixa renda.

Segundo o ministro, não é aceitável que exigências do setor financeiro se sobreponham à vontade expressa nas urnas. Ele chegou a dizer que ceder a esse tipo de pressão equivaleria a esvaziar o processo democrático.

A fala surge num momento de debate intenso sobre as contas públicas, logo após a reeleição de Lula no domingo anterior (25).

Desonerações e supersalários no radar

Para Boulos, qualquer ajuste deveria recair sobre distorções e benefícios que pesam no orçamento, e não sobre áreas sensíveis como saúde, educação e iniciativas voltadas a quem ganha menos. Ele afirmou que o montante de recursos perdido anualmente com desonerações tributárias gira em torno de R$ 600 bilhões, valor que, segundo ele, deveria ser o alvo prioritário de revisão.

Esse número citado pelo ministro está em linha com projeções oficiais: o Tribunal de Contas da União estima que os chamados gastos tributários em 2026 ultrapassem a casa dos R$ 600 bilhões.

Boulos também incluiu na lista de temas a serem enfrentados os salários acima do teto constitucional no setor público e o volume destinado a emendas parlamentares. Sobre este último ponto, mencionou que o valor reservado soma R$ 61 bilhões.

O Orçamento de 2026 reserva, de fato, montante próximo a esse para emendas parlamentares. Desse total, conforme dados oficiais, R$ 37,8 bilhões são classificados como impositivos, ou seja, de execução obrigatória.

Endividamento público em alta

O pano de fundo da discussão é o avanço contínuo da dívida bruta do governo, que tem levado agentes do mercado a pedir sinais mais claros de como as contas serão equilibradas nos próximos anos. A reportagem da Folha apontou que esse indicador saiu de 71,7% do PIB ao final de 2022 para 82,5% em julho de 2026.

Números mais atualizados divulgados pelo Banco Central mostram que a dívida bruta do governo geral atingiu 82,9% do PIB em setembro, o equivalente a R$ 11,1 trilhões. O patamar ficou praticamente inalterado frente a agosto, mas acumula elevação de 4,3 pontos percentuais do PIB desde o início do ano.

A pauta fiscal ganhou ainda mais relevância logo após o resultado das urnas. Instituições financeiras, gestoras de recursos e agências classificadoras de risco têm reforçado o pedido por detalhamento das medidas que o novo governo pretende adotar.

A agência Fitch, por exemplo, sinalizou que a incerteza em torno das contas públicas aumentou com a reeleição de Lula. Já o banco suíço UBS avaliou que os investidores tendem a esperar por propostas concretas e com impacto numérico definido antes de revisar de forma mais consistente sua percepção sobre ativos brasileiros.

Boulos, por sua vez, defendeu na entrevista que a evolução do endividamento brasileiro precisa ser colocada em perspectiva frente a outras economias de grande porte, e criticou formatos de ajuste que, na visão dele, concentram o peso do esforço fiscal nos serviços públicos e nas camadas mais pobres da população.

Sucessão e governabilidade

No campo político, o ministro restou pouca importância às especulações sobre quem poderia suceder Lula na disputa presidencial seguinte. Para ele, abrir esse debate agora tende apenas a aprofundar rachas internos no campo da esquerda e dentro do próprio governo.

Boulos ponderou ainda que sustentar o quarto mandato presidencial não deve depender só da articulação com Congresso e Judiciário. Segundo suas palavras, será necessário governar também com apoio das ruas e das redes sociais.

Na leitura do ministro, as redes cumprem papel relevante na disputa por narrativas, enquanto a mobilização popular nas ruas funcionaria como instrumento de pressão em favor das pautas do governo.

Esse posicionamento acontece num cenário em que o Congresso deve se colocar como obstáculo relevante para o avanço da agenda econômica. O UBS já havia indicado que a capacidade de o Executivo aprovar medidas de ajuste fiscal no Legislativo figura entre os principais testes a serem enfrentados pelo novo mandato.

Futuro político em São Paulo

Ao ser perguntado sobre uma possível disputa pela Prefeitura de São Paulo em 2028, Boulos respondeu que sua atenção neste momento está voltada ao mandato presidencial em curso. Disse que seu objetivo é contribuir para que Lula realize uma gestão marcante.

Na avaliação do ministro, esse quarto governo tem potencial de ir além de consolidar o legado pessoal do presidente, podendo apontar rumos políticos para o período seguinte.

Boulos evitou se posicionar sobre seu futuro dentro de legendas partidárias e admitiu haver divergências com a direção atual do PSOL, afirmando que seu grupo político ainda avalia os próximos passos a tomar.

Elogios à mobilização digital na campanha

Ao comentar a estratégia usada durante a corrida presidencial, Boulos destacou positivamente a atuação do deputado federal André Janones (Rede-MG) e do movimento conhecido como 'Exército do Lula', estrutura de mobilização digital montada ao longo da disputa eleitoral. Ele descreveu a contribuição de Janones como fora do comum.

Responsável pela coordenação da mobilização durante a campanha, Boulos também citou os atos de rua realizados no segundo turno, apontando que o engajamento social observado naquele período foi além da atuação das lideranças partidárias convencionais.

O que isso significa para o investidor

A fala de Boulos reforça um ponto que já vinha sendo monitorado por bancos e gestoras: o novo governo ainda não convergiu internamente sobre que tipo de ajuste fiscal será priorizado, e a disputa entre cortar benefícios tributários ou conter gastos sociais tende a seguir como fonte de ruído político nos próximos meses.

Com a dívida bruta em 82,9% do PIB conforme dado do Banco Central, e instituições como Fitch e UBS já cobrando sinalizações mais concretas, o mercado deve continuar reagindo mais a anúncios efetivos de medidas do que a declarações de intenção. A menção de Boulos aos R$ 600 bilhões em desonerações e aos R$ 61 bilhões em emendas indica quais frentes podem concentrar o debate orçamentário, mas não configura, por ora, uma proposta formal de governo.

Para quem acompanha ativos brasileiros, o episódio reforça a necessidade de observar de perto a capacidade de articulação do governo com o Congresso — apontada pelo UBS como um dos principais testes do mandato — já que a aprovação de qualquer medida sobre desonerações, supersalários ou emendas passa necessariamente pelo Legislativo.

O tom mais combativo do ministro em relação ao mercado também é um dado relevante para avaliação de risco político: discursos que colocam investidores e vontade popular em lados opostos tendem a ser monitorados por agências de rating como termômetro da coesão interna do governo diante da agenda fiscal.

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