A valorização recente do mercado acionário americano parece estar acelerando a saída de trabalhadores mais velhos do mercado de trabalho, segundo dados oficiais e análises de economistas ouvidos pela CNBC. Trabalhadores com 55 anos ou mais estão deixando a força de trabalho em ritmo elevado, num movimento que coincide com o forte crescimento da riqueza em ações impulsionado pelo entusiasmo em torno da inteligência artificial.
Para parte desses economistas, o fenômeno tem explicação no chamado 'efeito riqueza': trabalhadores próximos da idade tradicional de aposentadoria viram suas carteiras de investimento se valorizarem e passaram a se sentir financeiramente confortáveis para deixar o emprego. Em nota de pesquisa divulgada no mês passado, os economistas do Bank of America Stephen Juneau e Aditya Bhave batizaram o movimento de 'festa de aposentadoria alimentada por ações'.
'A participação na força de trabalho está desabando entre os trabalhadores mais velhos', escreveram os dois, atribuindo parte da força desse movimento à valorização do mercado acionário, segundo a CNBC. Economistas afirmam que a saída desses trabalhadores tem ajudado a manter o desemprego relativamente baixo nos últimos anos, ao abrir espaço no mercado de trabalho para novos candidatos a emprego e para quem está ingressando agora na força de trabalho — um fator relevante num mercado de contratações que, de outra forma, estaria praticamente congelado.
Por outro lado, caso o otimismo com a inteligência artificial perca força e o mercado acionário sofra uma reversão, a notícia pode ser ruim tanto para esses novos aposentados quanto para o mercado de trabalho e a economia americana como um todo, alertam os mesmos economistas.
Uma posição financeira 'favorável'
A força de trabalho, na definição usada pelos órgãos oficiais, inclui tanto pessoas empregadas quanto desempregadas que estão à procura de emprego. A taxa de participação na força de trabalho mede o percentual da população nessa condição.
Segundo a CNBC, a participação de trabalhadores com 55 anos ou mais caiu de forma acentuada logo no início da pandemia de Covid-19, acompanhando o movimento do restante da força de trabalho. A diferença é que, entre os mais velhos, essa participação nunca se recuperou totalmente depois da pandemia — os economistas do Bank of America descrevem que ela permaneceu 'contida numa faixa' até o verão (do Hemisfério Norte) de 2024, mas desde então voltou a cair de forma mais acentuada.
De acordo com dados do Bureau of Labor Statistics citados pela CNBC, a taxa de participação na força de trabalho de pessoas com 55 anos ou mais recuou de 38,6% para 37,2% desde agosto de 2024.
Enquanto isso, o índice S&P 500 acumulou uma sequência de retornos de dois dígitos para investidores nos últimos anos: alta de 26% em 2023, 25% em 2024 e 18% em 2025, considerando dividendos reinvestidos, segundo dados compilados pelo professor de finanças da Universidade de Nova York (NYU) Aswath Damodaran e citados pela reportagem. Em 2026, o índice acumula alta de cerca de 16% até o início da segunda-feira mencionada na matéria original.
Esse ganho de patrimônio, incluindo o de contas de aposentadoria como os planos 401(k), tornou a decisão de se aposentar mais fácil para muita gente, avalia Thomas Ryan, economista para a América do Norte da Capital Economics, em declaração à CNBC.
Dados do Federal Reserve mostram que o patrimônio líquido de famílias e entidades sem fins lucrativos americanas aumentou US$ 12,8 trilhões no segundo trimestre de 2026, para US$ 195,9 trilhões, impulsionado principalmente pelos fortes retornos das ações. Segundo análise da própria CNBC sobre os dados do Fed, esse foi de longe o maior aumento trimestral de patrimônio já registrado desde 2000, quando o banco central começou a acompanhar essa estatística.
'Isso coloca as pessoas numa posição em que elas podem se aposentar mais cedo, porque estão numa situação financeira favorável', disse Ryan à CNBC.
A reportagem pondera, porém, que trabalhadores próximos da aposentadoria dificilmente estão totalmente investidos em ações. Consultores financeiros costumam recomendar uma alocação mais conservadora de ativos à medida que a aposentadoria se aproxima e durante ela, justamente para evitar que todo o patrimônio acumulado fique exposto à volatilidade do mercado acionário.
Ainda assim, segundo a CNBC, uma pessoa típica de 65 anos pode manter uma fatia relativamente grande de sua carteira em ações — algo em torno de 50%, com o restante distribuído em ativos como títulos de renda fixa e caixa. As ações seguem sendo o motor tradicional de crescimento de uma carteira de investimentos e funcionam como proteção contra o aumento do custo de vida ao longo de uma aposentadoria que pode durar décadas.
'Se as pessoas não estivessem se sentindo confiantes o suficiente para se aposentar, elas não se aposentariam — e veríamos uma história bem diferente nos dados', afirmou Michael Reid, chefe de economia dos Estados Unidos do Royal Bank of Canada (RBC), à CNBC.
Efeito riqueza se soma a tendência demográfica
O efeito riqueza gerado pela alta das ações não é, segundo os economistas, o único fator por trás da queda na participação de trabalhadores mais velhos na força de trabalho. Ele se soma a uma tendência demográfica mais ampla: entre 2024 e 2027, mais de 4 milhões de baby boomers mais jovens devem completar 65 anos a cada ano, segundo a reportagem.
A tendência de queda na participação também é atribuída, em parte, a pacotes de aposentadoria antecipada — entre eles os oferecidos a servidores federais pelo chamado Department of Government Efficiency (DOGE) e por empresas como a Microsoft, que neste ano ofereceu, pela primeira vez, um programa de aposentadoria a trabalhadores nos Estados Unidos, segundo Reid.
O que acontece se houver uma queda nas ações
Trabalhadores mais velhos podem relutar em deixar a força de trabalho — ou até tentar retomar a atividade profissional, num movimento de 'desaposentadoria' — caso as ações comecem a perder força, avaliam os economistas ouvidos pela CNBC.
'O que acontece se tivermos essa queda no mercado acionário que já é esperada há tempos, se estivermos numa bolha de IA agora e ela reverter em algum momento?', questionou Ryan. 'Você poderia ter algumas pessoas na margem, que hoje sentem que seu 401(k) está numa boa posição aos 56 ou 57 anos, voltando para a força de trabalho.'
Segundo a reportagem, esse desfecho não é garantido. As ações têm resistido a fatores adversos, como a guerra no Irã. A inteligência artificial tem funcionado como um 'motor poderoso', com empresas gastando pesado em capacidade computacional, data centers e infraestrutura — o que sustenta os setores de tecnologia, manufatura, energia e industriais, escreveu Lisa Shalett, diretora de investimentos da Morgan Stanley Wealth Management, em nota divulgada na quarta-feira citada pela CNBC.
Ainda assim, Shalett pondera que, apesar de as ações terem espaço para continuar subindo, elas enfrentam pressões rumo a 2027 vindas de yields de títulos mais altos, preços de petróleo elevados, incerteza de política econômica e dificuldades entre consumidores de renda mais baixa. 'Os riscos estão ficando mais difíceis de ignorar', escreveu ela.
O que isso significa para o investidor
Para quem investe no Brasil e acompanha os mercados americanos, o episódio reforça um ponto estrutural: o comportamento da força de trabalho nos Estados Unidos passou a responder de forma mais direta ao ciclo das bolsas, o que amplia a sensibilidade da economia americana a eventuais correções acentuadas em ações ligadas à narrativa de inteligência artificial. Segundo o scanner da TradingView, o S&P 500 era negociado a 7.764,70 pontos em 21/09/2026 às 21h06 (horário de Brasília), com alta de 1,49% no dia — patamar que ilustra a magnitude do ciclo de valorização discutido na reportagem.
Se a leitura dos economistas do Bank of America e da Capital Economics estiver correta, uma reversão relevante do mercado acionário não teria apenas efeito sobre carteiras de investimento: poderia também alterar a dinâmica do mercado de trabalho americano, com parte dos trabalhadores mais velhos retornando à força de trabalho para recompor patrimônio. Esse é um vetor adicional a monitorar para quem acompanha dados de emprego dos EUA como termômetro de política monetária do Federal Reserve.
Vale observar que a alerta de Lisa Shalett, da Morgan Stanley, sobre pressões vindas de yields mais altos, petróleo e incerteza política sinaliza que o próprio mercado já discute os limites do ciclo atual. Para investidores brasileiros expostos a ativos globais, o episódio funciona como lembrete de que parte da resiliência recente das bolsas americanas está conectada a decisões pessoais de milhões de trabalhadores — e que uma mudança nesse comportamento pode ser tanto sintoma quanto amplificador de uma eventual correção mais ampla.
Agregado por AAR News · fonte: CNBC
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