O bitcoin atingiu US$ 86 mil nesta segunda-feira, a maior cotação em oito meses, depois de romper a barreira de US$ 82 mil que vinha contendo o preço desde agosto. O movimento provocou uma onda de liquidações forçadas de apostas baixistas e reacendeu o apetite por posições alavancadas, segundo reportagem da CoinDesk.
A quebra desse patamar importa porque ele havia resistido a uma tentativa anterior de rompimento em maio, período que antecedeu uma queda do bitcoin para abaixo de US$ 60 mil em junho. A recuperação atual, portanto, é vista por parte do mercado como um sinal técnico relevante, mas ainda cercada de ressalvas sobre sua sustentabilidade.
Liquidações e alavancagem em alta
Dados da CoinGlass citados pela CoinDesk apontam que cerca de US$ 750 milhões em posições derivativas baixistas foram liquidadas quando o bitcoin superou os US$ 82 mil. Quando posições vendidas são liquidadas, as corretoras executam ordens de compra para encerrá-las, o que tende a acelerar ainda mais a alta em curso.
Jim Ferraioli, chefe de pesquisa em cripto da Schwab, disse à CoinDesk que o avanço de 5% do bitcoin naquela manhã esteve diretamente ligado à liquidação de contratos futuros perpétuos vendidos.
Ao mesmo tempo, o interesse em aberto nos futuros de bitcoin — valor total das apostas em derivativos ainda vigentes — cresceu mais rápido do que o próprio preço. Segundo dados da Coinalyze, cerca de US$ 2 bilhões em nova exposição alavancada foram adicionados desde o rompimento, sinal de que os investidores estão reposicionando apostas mesmo com o desmonte das posições vendidas anteriores.
Nicolai Sondergaard, analista sênior da firma de dados Nansen, avaliou que o rali combina demanda renovada por ETFs e o efeito técnico da liquidação de posições vendidas, mas que o posicionamento nativo do setor cripto tem reagido de forma mais lenta do que o próprio preço. Segundo ele, a diferença central é que o preço já se tornou otimista antes que o posicionamento dos investidores acompanhasse essa mudança.
ETFs à vista voltam a atrair recursos
Os ETFs de bitcoin à vista nos Estados Unidos registraram saídas combinadas de US$ 746 milhões na terça e quarta-feira da semana passada, período marcado pela derrota da moção de encerramento de debate do Clarity Act no Senado e por uma alta de juros do Federal Reserve, conforme dados da Farside Investors citados pela CoinDesk.
O quadro se inverteu rapidamente: os fundos captaram US$ 160 milhões na quinta-feira e US$ 433 milhões na sexta-feira, o melhor dia de entradas da semana. Os dados de fluxo referentes à segunda-feira ainda não haviam sido divulgados até a publicação da reportagem, e devem ser acompanhados de perto pelo mercado após o rali.
A alta de segunda-feira também trouxe um marco para os detentores de ETFs de bitcoin nos EUA: o custo médio de aquisição desses investidores está em US$ 82.225, o que significa que, pela primeira vez em um bom tempo, esse grupo voltou a operar no positivo.
Próximo alvo: US$ 90 mil
Com o rompimento de US$ 82 mil, o novo patamar psicológico observado pelo mercado passa a ser US$ 90 mil. Sondergaard, da Nansen, apontou US$ 87 mil como o próximo nível a ser testado, seguido pela marca de US$ 90 mil e, na sequência, algo em torno de US$ 92 mil. Jasper De Maere, trader de balcão (OTC) da Wintermute, também considera factível um teste da casa dos US$ 90 mil.
O rompimento ocorreu apesar de um cenário macro e político turbulento na semana anterior, que incluiu a rejeição do Clarity Act no Senado e uma alta de juros do Fed acompanhada de discurso hawkish (mais duro em relação à inflação).
O bitcoin também recuperou sua média móvel de 50 semanas, indicador de tendência de longo prazo usado por parte dos investidores em suas estratégias. De Maere, da Wintermute, afirmou que essa média atuou como resistência em ciclos de baixa anteriores, e que sua reconquista pode ter servido como confirmação técnica para os investidores. Segundo ele, essa recuperação da média deve ser lida como confirmação de que a mínima de junho se sustenta.
Ainda assim, o tom entre os operadores ouvidos pela CoinDesk é de cautela. Chris Sullivan, cogestor de portfólio da Hyperion Decimus, disse ver o movimento atual como o início de um novo ciclo de alta, mas espera uma correção relevante depois que o rali se esgotar. Segundo ele, este deveria ser o primeiro grande impulso do novo mercado altista, com uma correção expressiva a caminho assim que esse fôlego se esgotar.
Nas redes sociais, já circulam apostas em uma nova máxima histórica para o bitcoin. De Maere, no entanto, classificou como prematura a expectativa de que o ativo supere, ainda neste ano, o recorde de US$ 126 mil registrado em outubro de 2025, lembrando que mercados em fase inicial de alta costumam vir acompanhados de bastante volatilidade.
O que pode travar o rali
O teste mais importante agora, segundo os analistas consultados pela CoinDesk, é saber se a demanda no mercado à vista — onde investidores compram bitcoin diretamente — vai acompanhar o movimento visto nos derivativos. Sondergaard afirmou querer ver fluxos sustentados no mercado à vista e nos ETFs; sem isso, o rompimento atual corre o risco de se revelar um movimento impulsionado por alavancagem, vulnerável a uma reversão rápida caso os juros dos títulos do governo subam ou surja um novo choque geopolítico.
O acúmulo rápido de alavancagem pode se tornar perigoso quando a demanda à vista não acompanha o ritmo. O mercado cripto já viveu a versão extrema desse risco em 10 de outubro, quando o bitcoin recuou de patamares próximos ao recorde histórico, desencadeando liquidações que realimentaram a queda e resultaram em cerca de US$ 19 bilhões em posições alavancadas liquidadas — a maior cascata de liquidações já registrada no mercado.
Ferraioli, da Schwab, observou que as altcoins também começaram a subir junto com o bitcoin, sinal de que o apetite por risco está se ampliando entre os investidores. Segundo ele, o teste real será verificar se a atividade em blockchains menores efetivamente aumenta, e não apenas se os preços saltam com mais força após ficarem sobrevendidos.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha o mercado brasileiro de criptoativos, o episódio reforça um padrão já visto em coberturas recentes da AAR: o bitcoin tem mostrado resiliência mesmo diante de sinais macro adversos, como já havia ocorrido quando o ativo se manteve perto de US$ 75 mil após a rejeição do Clarity Act e a alta de juros do Fed. Conforme o scanner da TradingView, em 21/09/2026 às 21h06 (BRT), o bitcoin era cotado a US$ 86.459,10, com variação de −0,17% no dia — patamar consistente com a faixa reportada pela CoinDesk.
O ponto central para o investidor é distinguir entre um rali sustentado por demanda genuína e um movimento inflado por alavancagem. A recomposição de posições compradas em derivativos, somada à volta dos fluxos de ETF depois de dois dias de saídas, sugere apetite renovado, mas os próprios analistas citados alertam que o posicionamento ainda não convenceu integralmente o mercado cripto nativo.
Vale acompanhar três frentes nos próximos dias: os dados de fluxo de ETF referentes a segunda-feira, o comportamento do interesse em aberto nos futuros (se continuará subindo ou começará a se estabilizar) e se a alta se espalha de forma consistente para o restante do mercado de tokens, e não apenas para o bitcoin. Episódios como a cascata de liquidações de 10 de outubro mostram que rompimentos de preço sustentados por alavancagem podem se reverter com a mesma rapidez com que se formaram, especialmente diante de qualquer ruído regulatório ou de política monetária nos EUA.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
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