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BoE alerta: presença de hedge funds eleva risco de choque sistêmico em títulos soberanos

Vice-governadora Sarah Breeden diz à CNBC que mudança no perfil de investidores em bonds globais amplia chance de contágio entre mercados

BoE alerta: presença de hedge funds eleva risco de choque sistêmico em títulos soberanos
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A vice-governadora do Banco da Inglaterra para estabilidade financeira, Sarah Breeden, afirmou em entrevista à CNBC nesta quinta-feira que o avanço dos hedge funds nos mercados globais de títulos soberanos tornou mais provável um choque capaz de se espalhar por diferentes mercados. Segundo ela, a composição dos investidores nesse segmento mudou de forma relevante nos últimos anos, e isso altera a dinâmica de risco do sistema financeiro.

Breeden, que também integra o comitê de política monetária da instituição, concedeu a entrevista à margem das reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial em Bangcoc, na Tailândia. Ela disse à repórter Sri Jegarajah, da CNBC, que ficou cada vez mais evidente nos últimos anos que os investidores que sustentam os principais mercados de títulos públicos globais deixaram de ser predominantemente "investidores de dinheiro real", como seguradoras e fundos de pensão, dando lugar a uma presença crescente de hedge funds.

Para a dirigente do BoE, esses fundos têm características que aumentam o risco sistêmico: são sensíveis a preço, operam com alavancagem e atuam de forma internacional. Segundo Breeden, essa combinação faz com que a chance de um choque em um mercado se transmitir para outro seja maior do que era antes.

Patrimônio dos hedge funds dispara

O Fundo Monetário Internacional informou na terça-feira, em seu mais recente Relatório de Estabilidade Financeira Global, que os ativos brutos dos hedge funds somam atualmente cerca de US$ 13 trilhões, consolidando a classe como peça cada vez mais relevante do cenário global de investidores. O FMI reconheceu que esses fundos contribuem para a liquidez e a eficiência dos mercados.

Por outro lado, a instituição alertou que o uso de alavancagem por parte do setor para ampliar retornos, somado à tendência de concentrar posições em operações parecidas (as chamadas "crowded trades"), pode intensificar o estresse de mercado em momentos de turbulência. Segundo o FMI, esse efeito poderia se propagar para outras áreas do sistema financeiro, incluindo os negócios de prime brokerage dos bancos.

Breeden resumiu o diagnóstico dizendo que a origem dos choques está nos mercados de títulos, e que a probabilidade de um efeito de contágio é hoje maior do que no passado.

A presença de hedge funds no mercado global de títulos públicos — em especial o uso das chamadas "basis trades" — passou a ser observada com mais atenção neste ano, após a forte venda registrada nos títulos soberanos. De acordo com dados do U.S. Office of Financial Research publicados em 19 de agosto, os hedge funds detinham, ao final de 2025, uma fatia recorde de 7% do mercado de Treasuries dos Estados Unidos, avaliado em US$ 30 trilhões.

As basis trades são operações de arbitragem em que os hedge funds assumem posições compradas em Treasurys à vista enquanto vendem a descoberto os contratos futuros correspondentes, buscando lucrar com a diferença de preço entre os dois instrumentos. Embora essa diferença costume ser pequena, os fundos frequentemente recorrem a grandes volumes de alavancagem para ampliar o retorno da operação.

No início deste mês, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de 10 e 30 anos atingiram os maiores níveis desde 2002. Do outro lado do Atlântico, os juros dos títulos do governo britânico de 10 anos, os gilts, também alcançaram patamares que não eram vistos há décadas.

Os rendimentos dos títulos soberanos franceses, conhecidos como OATs, também subiram de forma acentuada nas últimas semanas, em meio a preocupações crescentes com o quadro fiscal do país — um movimento que tem alimentado temores de uma nova crise de dívida soberana capaz de afetar a zona do euro.

O que isso significa para o investidor

O alerta de Breeden reforça um ponto que investidores brasileiros expostos a renda fixa internacional e a fundos multimercado globais precisam monitorar: a estrutura de quem compra e vende títulos soberanos nos grandes mercados mudou, e isso altera o perfil de risco de eventos de estresse que antes pareciam locais. Um movimento de venda em Treasuries, gilts ou OATs hoje carrega potencial de contágio mais rápido para outras classes de ativos do que carregava quando o mercado era dominado por seguradoras e fundos de pensão.

Para quem investe no Brasil, o canal de transmissão relevante passa pelo câmbio e pelo apetite global a risco. Em um cenário de estresse nos mercados de bonds desenvolvidos, fluxos tendem a buscar proteção, o que historicamente pressiona moedas emergentes e pode elevar a volatilidade do real frente ao dólar e ao euro — este último cotado a R$ 5,6931 às 20h21 (horário de Brasília) de 18 de outubro de 2026, com queda de 0,19% no dia, segundo dados do TradingView.

Vale acompanhar três frentes nos próximos meses: a evolução dos rendimentos de Treasuries de 10 e 30 anos, que já tocaram máximas desde 2002; o comportamento dos gilts britânicos, também em patamares de décadas; e a trajetória fiscal da França, cujos OATs têm sido pressionados por incertezas políticas e orçamentárias. Qualquer aceleração nesses três fronts pode funcionar como gatilho para o tipo de contágio que Breeden descreve.

Por fim, a combinação de alavancagem elevada e posições concentradas entre hedge funds, mencionada tanto pelo BoE quanto pelo FMI, é um lembrete de que a liquidez em mercados de bonds pode se mostrar mais frágil do que aparenta em condições normais. Investidores com exposição a fundos internacionais ou a produtos atrelados a juros globais devem considerar esse risco de cauda ao dimensionar posições, especialmente em carteiras que dependem de correlações historicamente estáveis entre renda fixa soberana e demais classes de ativos.

Agregado por AAR News · fonte: CNBC

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