O bitcoin se manteve próximo de US$ 75.000 depois que o Clarity Act travou no Senado americano e o Federal Reserve promoveu sua primeira alta de juros em mais de três anos, segundo a CoinDesk. O Banco do Japão também elevou sua taxa básica, enquanto o Banco da Inglaterra manteve os juros estáveis — e a SEC trouxe um contraponto positivo ao anunciar uma isenção voltada à tokenização.
A criptomoeda está na segunda metade de setembro, mês historicamente mais fraco do calendário para o ativo, mas a queda usual não se confirmou com a intensidade esperada diante da sequência recente de sinais macroeconômicos e regulatórios desfavoráveis. Segundo observadores citados pela CoinDesk, essa resiliência aponta para forças compradoras subjacentes.
Depois de uma alta de 25% em agosto, quando chegou a cerca de US$ 81.000, o bitcoin era esperado devolver boa parte desses ganhos — a média de perdas em setembro desde 2013 gira em torno de 3%, de acordo com a reportagem. Em vez disso, a queda no mês ficou em apenas 1,5%. Com menos de duas semanas para o fim do período, o ativo ainda acumula alta de cerca de 32% no trimestre, o que o coloca a caminho do primeiro fechamento trimestral positivo desde o terceiro trimestre de 2025.
No momento da apuração da CoinDesk, o bitcoin era negociado a US$ 78.000, valor próximo ao patamar anterior à alta de juros do Fed na quarta-feira, decisão amplamente vista como um obstáculo para criptoativos e outros ativos de risco.
Notícias ruins, reação contida
A semana reuniu diversos gatilhos que, em tese, derrubariam o mercado — mas isso não ocorreu. Na terça-feira, o Clarity Act não conseguiu os 60 votos necessários para avançar no Senado, obtendo apenas 49 votos favoráveis. O bitcoin chegou a cair abaixo de US$ 74.887 no mesmo dia, mas se estabilizou rapidamente, o que sugere que os investidores já haviam precificado boa parte do risco de fracasso da legislação.
"O que chama atenção é que o bitcoin praticamente não se mexeu em resposta a duas notícias objetivamente ruins. Um aumento de 25 pontos-base e a falha do Clarity Act são manchetes que, em outro ambiente de mercado, teriam derrubado o preço de forma significativa. Em vez disso, não houve praticamente nenhuma reação", afirmou Mitchell Askew, chefe da Blockware Intelligence, em comentário por e-mail à CoinDesk.
Fadiga vendedora
Askew explicou que, quando notícias ruins deixam de afetar o preço, isso é sinal de esgotamento dos vendedores. "Quem ia vender bitcoin com base em eventos como esses já vendeu. Essas pessoas não têm mais moedas para vender. Isso é um sinal extremamente positivo para o médio e longo prazo, e é exatamente o que se costuma observar nos estágios finais de um processo de fundo", disse.
Os mercados de energia adicionaram pressão no início da semana: o petróleo West Texas Intermediate subiu acima de US$ 106 o barril na terça-feira, atingindo a máxima em cinco meses, em meio a tensões geopolíticas persistentes no Oriente Médio.
Como se não bastasse, o índice do dólar, que mede a moeda americana frente a uma cesta de moedas fortes, superou a marca de 100 pontos, no maior nível em mais de um mês, segundo a reportagem. Força sustentada do dólar tende a apertar as condições financeiras e pesar sobre ativos de risco, incluindo o bitcoin. O Banco do Japão, por sua vez, elevou seu custo de empréstimo de referência à máxima em 31 anos.
Juros altos nem sempre são ruins para o bitcoin
Ao explicar a resiliência do bitcoin diante desses fatores, a Sygnum apontou que a alta de juros e de rendimentos de títulos nem sempre é negativa para o ativo. "Não é uma via de mão única. Você vê os rendimentos subindo e, ao mesmo tempo, o bitcoin e o ouro superando outros ativos. Se a alta de juros é um indicativo de risco de desvalorização monetária e de risco soberano, isso é, na verdade, um fator positivo para ativos de reserva de valor", disse Fabian Dori, diretor de investimentos da Sygnum, em comentário à CoinDesk.

Para o bitcoin, o destaque é justamente essa resiliência acima de US$ 77.000, mesmo diante de revés legislativo, alta do petróleo, política monetária mais restritiva e dólar mais forte. Em outras palavras, o caminho de menor resistência parece ser para cima.
"Se o mercado tem sido tão resiliente com um fluxo de notícias tão desafiador, mesmo uma melhora modesta nas condições macro, geopolíticas ou regulatórias poderia ser o gatilho para o próximo grande movimento de alta", disse Joel Kruger, estrategista de mercados da LMAX Group, à CoinDesk.
Horizonte regulatório e riscos à frente
O panorama regulatório segue melhorando mesmo após a rejeição do Clarity Act pelo Senado. Na quinta-feira, o setor cripto recebeu um desenvolvimento mais favorável quando a SEC apresentou sua isenção de inovação, aguardada há tempos, para plataformas de negociação de valores mobiliários tokenizados, permitindo que plataformas qualificadas viabilizem a negociação onchain de ações sob condições específicas.
"A falha em avançar a legislação atrasa um marco regulatório estatutário, mas não impede que a SEC e a CFTC continuem oferecendo orientação sob a autoridade já existente, deixando aberto um caminho regulatório importante", observou Kruger.
Há também preocupação com a possibilidade de novas altas de juros pelo Fed e aumento nos rendimentos do Tesouro americano. O mercado precifica três novas altas de um quarto de ponto percentual até abril de 2027, o que levaria a taxa dos fed funds para a faixa entre 4,50% e 4,75%, segundo a reportagem. Mas, para Dori, isso não representa necessariamente um risco: "Eu não concordo totalmente que os juros precisem cair para que os ativos digitais tenham desempenho superior", afirmou.
O único ponto de atenção para os otimistas é que a sazonalidade oferece pouco conforto para a semana que vem. Historicamente, o bitcoin cai em média 2,5% na 38ª semana do ano, com ganhos registrados em apenas quatro ocasiões, segundo dados do Coinglass citados pela CoinDesk. Ainda assim, desempenho passado não garante resultado futuro — e a mesma sazonalidade se torna positiva na entrada do quarto trimestre: em média, o bitcoin sobe 77% no período, de acordo com dados da própria CoinDesk.
O que isso significa para o investidor
A cobertura anterior da AAR News já vinha destacando que o bitcoin passou a negociar de forma mais independente do dólar e das bolsas após a derrota do Clarity Act no Senado, com a decisão de juros do Fed funcionando como teste para saber se essa correlação seria restabelecida. Os dados desta semana reforçam esse quadro: mesmo com o aumento de juros confirmado e a legislação travada, o ativo não sofreu a reação negativa que seria esperada em um cenário de maior sensibilidade a fatores macro tradicionais.
Para o investidor brasileiro que acompanha criptoativos, o ponto central é que o mercado parece estar precificando riscos regulatórios e monetários com antecedência, o que reduz o potencial de surpresas negativas bruscas no curto prazo — mas não elimina a exposição a choques inesperados, especialmente se o Fed sinalizar postura mais dura do que o previsto ou se o dólar continuar se fortalecendo.
Outra matéria da AAR News já havia apontado semelhanças entre o comportamento recente do bitcoin e o padrão observado em 2022, quando o ativo recuou antes do primeiro aumento de juros do Fed naquele ciclo, seguido por um rali que antecedeu uma queda mais acentuada. Esse histórico recente serve como lembrete de que a resiliência atual não deve ser lida como imunidade permanente a choques monetários.
Segundo o scanner da TradingView, em 18 de setembro de 2026 às 10h56 no horário de Brasília, o bitcoin era cotado a US$ 79.932,13, com alta de 4,62% no dia, enquanto o ouro operava a US$ 4.350,41, com valorização de 0,21% no dia — movimento que sugere apetite simultâneo por ativos de risco e por reserva de valor, em linha com a leitura de que juros mais altos não são necessariamente um fator bearish para o criptoativo neste momento específico do ciclo.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
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