Dezoito anos depois da publicação do white paper do bitcoin, ainda não está claro se o ativo digital mais antigo do mercado está de fato mais próximo de se tornar uma versão puramente peer-to-peer de dinheiro eletrônico, como propôs Satoshi Nakamoto. É essa a reflexão de Nikhilesh De, colunista da CoinDesk, que argumenta que o legado cultural gerado pelo bitcoin pode ter superado o próprio objetivo original do projeto.
Segundo o autor, essa influência aparece nos produtos financeiros oferecidos a investidores, nas tecnologias adotadas tanto por startups quanto por grandes instituições, nas narrativas que insistem em se reinventar em torno do setor, no fato de a Coreia do Norte ter transformado o hacking de exchanges de criptomoedas em fonte relevante de receita para o regime — e até em videogames.
O bitcoin, segundo a coluna, está hoje plenamente incorporado ao sistema financeiro tradicional. A reportagem cita a cotação do ativo em US$ 77.383,23 no momento da publicação, lembrando que investidores de varejo e institucionais já conseguem se expor ao ativo via fundos negociados em bolsa (ETFs), enquanto empresas lançam produtos que permitem tomar empréstimos com bitcoin como garantia — mesmo que pagar um café com a moeda continue incomum.
A indústria cripto que nasceu a partir dessa ideia original foi ainda mais longe. Ao longo de nove anos cobrindo o setor, De relata ter visto diversas modas surgirem e desaparecerem: o fenômeno CryptoKitties tomou conta de 2018, o yield farming teve seu momento de euforia, a dogecoin ganhou tração durante a pandemia, e os tokens não fungíveis (NFTs) atraíram até a casa de leilões Christie's e a revista Time. Ainda que a maioria dessas ondas tenha ficado restrita ao próprio ecossistema cripto, elas se tornaram referências culturais reconhecidas até por quem está fora do setor.
O colunista destaca também o peso político do setor: a indústria cripto foi a maior doadora política nas eleições americanas de 2024 e já contribuiu para tornar as eleições de meio de mandato de 2026 as mais caras da história dos Estados Unidos.
O outro lado dessa expansão é o crescimento constante de ataques ao setor, em geral atribuídos à Coreia do Norte, com prejuízos cada vez maiores. O mais recente, ocorrido dois dias antes da publicação da coluna, provocou a perda de mais de US$ 6 bilhões em ativos da Binance — o maior hack de criptomoedas já registrado.
A ironia apontada pelo autor é que, nesse episódio, foram justamente os players centralizados — emissoras de stablecoins como Tether e Circle — que tiveram papel decisivo na contenção dos danos. As duas companhias congelaram juntas cerca de US$ 2,4 bilhões em fundos roubados, enquanto organizações autônomas descentralizadas (DAOs) e plataformas menores bloquearam algumas centenas de milhões adicionais.
Já bitcoin, ether e outras criptomoedas totalmente descentralizadas cumpriram à risca o espírito da proposta original de Satoshi: são descentralizadas, incontroláveis e, por isso mesmo, os recursos roubados nesses casos tendem a permanecer irrecuperáveis, segundo a coluna.
Blockchain, não bitcoin
Para De, o verdadeiro legado do white paper pode estar menos no ativo bitcoin em si e mais na infraestrutura tecnológica descrita por Satoshi. Trata-se de uma ideia familiar para quem acompanha o setor desde 2018: a de que a tecnologia blockchain por trás das criptomoedas seria mais interessante e útil do que os próprios ativos digitais. O colunista cita exemplos já conhecidos, como a experiência do Walmart com blockchain para rastrear hortaliças frescas e o apoio da IBM ao projeto Hyperledger.
Em setembro, o CEO da Depository Trust & Clearing Corporation (DTCC), Frank La Salla, resumiu essa separação em um evento na Universidade de Georgetown, afirmando, segundo a CoinDesk, que existe de um lado a criptomoeda como classe de ativos e, de outro, o blockchain como tecnologia.
De diz ouvir esse refrão cada vez com mais frequência em suas apurações. Redes permissionadas como a Canton Network, a Kinexys do JPMorgan e a parceria da Intercontinental Exchange com a OKX estariam ganhando tração, ao mesmo tempo em que outras instituições financeiras desenvolvem suas próprias redes internas para casos de uso corporativo.
O conceito de 'blockchain, não bitcoin' não é novo, lembra o colunista: David Solomon, do Goldman Sachs, já havia tratado do tema em um artigo de opinião sobre tokenização em 2022, e a própria CoinDesk cobriu uma série de painéis sobre a ideia no Fórum Econômico Mundial de 2023.
Charley Cooper, hoje presidente na Ava Labs e ex-diretor-geral da R3 — uma das várias iniciativas que tentaram levar tecnologia descentralizada a instituições financeiras tradicionais —, afirmou no mês passado, ao ser questionado sobre o retorno dessa tese entre grandes bancos, que já estava certo em 2015.
Cooper descreveu uma dissonância entre o comportamento dos preços das criptomoedas e o ritmo de adoção institucional. Segundo ele, comparar as cotações atuais com as de 18 meses atrás poderia sugerir que o setor cripto está em queda livre, mas o avanço de instituições sérias — que estariam migrando de projetos de pesquisa e desenvolvimento para operações reais com ativos do mundo real tokenizados — estaria crescendo de forma exponencial.
Tudo isso, escreve De, mostra como o setor cripto está se integrando aos serviços financeiros a ponto de o usuário final sequer perceber que está lidando com um blockchain. Mas o legado de Satoshi seria mais amplo do que apenas criar uma infraestrutura financeira mais eficiente para instituições: o setor também se infiltrou na cultura popular, com filmes e séries de TV fazendo referência ao universo cripto.
O sinal mais claro disso, segundo o autor, veio de um lugar inesperado: uma organização autônoma descentralizada apareceu como elemento central em um videogame que ele jogou recentemente. Com um aviso de spoiler, De revela que, no jogo Ace Combat 8: Wings of Theve, o vilão principal é secretamente uma DAO com token de governança. Ao final da trama, uma tela informa que a organização havia apagado seus dados fora da cadeia (off-chain) e que os usuários por trás dela permaneceram anônimos — um detalhe que, segundo o colunista, só reforça o caráter fictício da história, já que, na vida real, seria difícil uma DAO ter influência tão significativa mantendo total anonimato.
Os próximos 18 anos
De questiona para onde o bitcoin pode caminhar a partir de agora. Caso os Estados Unidos aprovem, em 2027, um projeto de lei tributária que facilite o uso de criptomoedas para comprar bens e serviços, as pessoas de fato passariam a pagar com bitcoin? Ou a tendência deflacionária inerente ao ativo continuaria incentivando o chamado 'hodl' — a retenção de longo prazo —, com pagamentos feitos preferencialmente em stablecoins ou moeda fiduciária?
Para além dos pagamentos, o colunista pondera que, enquanto empresas integram suas ferramentas de blockchain e voltam os olhos para a inteligência artificial como próxima grande fronteira, a indústria cripto precisará decidir se continua perseguindo alguma forma da visão original de Satoshi ou se simplesmente absorve as partes mais úteis da tecnologia para se transformar em bancos regulados.
O que isso significa para o investidor
A reflexão da CoinDesk ganha peso justamente num momento de turbulência operacional no setor. Reportagens recentes do AAR News mostraram como o hack da Binance — citado na própria coluna como o maior ataque cripto da história, com perdas acima de US$ 6 bilhões — já provocou reação imediata no mercado de derivativos: grandes operadores compraram opções de venda (puts) de bitcoin minutos após os primeiros saques suspeitos, segundo rastreamento da plataforma Paradigm. A venda forçada de posições alavancadas somou US$ 1,53 bilhão em liquidações, das quais quase 84% eram apostas na alta de bitcoin, ether e XRP, com a própria Binance concentrando quase metade do total, de acordo com dados da CoinGlass.
Outro ponto que merece atenção de quem investe em cripto é a rastreabilidade dos fundos roubados: segundo apuração da CoinDesk, o hacker por trás do ataque distribuiu US$ 1,4 bilhão em bitcoin por 19 carteiras que seguem intocadas desde a noite do ataque, com a firma TRM Labs apontando a atuação da unidade norte-coreana conhecida como TraderTraitor. Esse padrão reforça o argumento central da coluna: ativos verdadeiramente descentralizados, como bitcoin e ether, dificultam a recuperação de fundos roubados — um risco estrutural que convive, lado a lado, com a crescente adoção institucional via ETFs e produtos de crédito colateralizado em bitcoin.
Para o investidor brasileiro, a lição prática é dupla. De um lado, a tese de 'blockchain, não bitcoin' — com redes permissionadas como Canton Network, Kinexys do JPMorgan e a parceria ICE-OKX avançando em produção real — sugere que a infraestrutura por trás das criptomoedas segue atraindo capital institucional mesmo em períodos de volatilidade de preço, como destacou Charley Cooper, da Ava Labs. De outro, episódios como o hack da Binance mostram que a exposição direta a exchanges centralizadas continua carregando risco operacional relevante, ainda que tenham sido justamente players centralizados — Tether e Circle — os que mais ajudaram a conter perdas, ao congelar US$ 2,4 bilhões em fundos roubados.
Com o bitcoin cotado a US$ 77.354,44 às 12h21 (horário de Brasília) de 31 de outubro de 2026, alta de 0,23% no dia, segundo dados da TradingView, o mercado parece absorver o episódio sem pânico generalizado — um sinal que investidores devem monitorar nas próximas semanas, junto com o desdobramento das investigações sobre os fundos ainda não movimentados e o ritmo de adoção institucional de blockchain fora do universo especulativo.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos