O debate sobre o rumo do bitcoin até o fim de 2026 ganhou contornos opostos entre casas especializadas em criptoativos. Enquanto a gestora Bitwise mantém a expectativa de que a moeda retome o patamar de US$ 100 mil, a firma londrina de dados e negociação LO:TECH trabalha com uma faixa bem mais contida, entre US$ 85 mil e US$ 95 mil, reflexo direto da incerteza em torno da política de juros nos Estados Unidos, segundo reportagem da CoinDesk.
A divergência não está exatamente sobre se existem forças de fundo capazes de sustentar o ativo — adoção institucional, avanços regulatórios e preocupações fiscais aparecem como pontos comuns nas análises —, mas sobre o tempo necessário para que esses fatores se traduzam em alta antes do encerramento do ano.
Ryan Rasmussen, chefe de pesquisa da Bitwise, disse à CoinDesk acreditar que o bitcoin termina o ano em patamar superior ao atual, possivelmente acima de US$ 100 mil. Ele cita três motores de médio prazo: as compras institucionais via ETFs e aquisições corporativas; a busca por ativos considerados resistentes à inflação, ao endividamento crescente e à desvalorização de moedas; e um ambiente regulatório mais claro, que reduziria a percepção de risco de se expor a criptoativos. Para Rasmussen, esses fatores superam com folga os riscos de curto prazo.
O obstáculo macroeconômico
Mesmo otimista, Rasmussen reconhece que a volatilidade deve aumentar em torno de uma possível nova alta de juros pelo Federal Reserve no fim de outubro e das eleições de meio de mandato nos EUA em novembro. Segundo ele, um rompimento de preços para cima dificilmente ocorre nesse contexto — embora a própria incerteza possa abrir espaço para investidores montarem posições.
Adam Morgan McCarthy, chefe de pesquisa da LO:TECH, adota postura mais cautelosa e trabalha com uma faixa de US$ 85 mil a US$ 95 mil até o fim do ano como cenário-base. Segundo ele, o ambiente macroeconômico tem sido desfavorável ao bitcoin ao longo de todo o ano, com o Fed já tendo elevado juros em setembro e o mercado precificando em torno de 75% de chance de novo aumento em dezembro — fator que, na avaliação do analista, deve continuar pressionando o ativo.
O Fed de fato elevou sua taxa básica em um quarto de ponto percentual em setembro. Os dados de inflação divulgados em 14 de outubro complicaram ainda mais o quadro: os preços ao consumidor subiram 0,6% em relação ao mês anterior, com o núcleo avançando 0,3%, movimento no qual os combustíveis responderam por mais da metade do aumento geral. Para McCarthy, uma recuperação do bitcoin acima de US$ 100 mil dependeria de o mercado passar a precificar uma pausa do Fed em dezembro, apoiada por recuo nos preços do petróleo e na inflação.
James Butterfill, chefe de pesquisa da CoinShares, descreve uma tensão semelhante entre inflação persistente e enfraquecimento do mercado de trabalho: uma eventual desaceleração dos preços daria ao Fed margem para reagir à fraqueza no emprego, enquanto pressão inflacionária adicional tenderia a manter a política monetária restritiva e a pesar sobre o bitcoin. No momento da publicação da reportagem da CoinDesk, a criptomoeda era negociada perto de US$ 81.500.
Menos alavancagem, potencial de squeeze
Luca Invernizzi, trader sênior de derivativos da Laser Digital, subsidiária de criptoativos do Nomura, afirma que o bitcoin deve seguir funcionando essencialmente como um ativo de macro até o fim do ano, acompanhando o movimento dos juros de títulos do Tesouro americano de prazo mais longo. Ele classifica a recuperação observada desde as mínimas do verão como pouco convincente, apontando volumes fracos, entradas em ETFs perdendo força e desaceleração nas compras corporativas.
Do lado do posicionamento, porém, Invernizzi vê sinais mais favoráveis: segundo ele, boa parte da alavancagem excessiva já foi eliminada do bitcoin, com o excesso especulativo migrando para altcoins. McCarthy, da LO:TECH, reforça essa leitura ao observar que há menos posições compradas aglomeradas sujeitas a uma reversão brusca. As taxas de financiamento entre traders de contratos perpétuos estão em zero ou abaixo disso, e o rali de agosto teria sido puxado majoritariamente pelo fechamento de apostas vendidas, não pela abertura de novas posições compradas.
Esse quadro reduz o combustível para uma liquidação forçada e deixa espaço para um novo movimento de alta repentina. Segundo Invernizzi, uma ruptura consistente acima de US$ 90 mil poderia desencadear uma nova rodada de fechamento de posições vendidas. Com a volatilidade implícita novamente perto das mínimas e o mercado de opções ainda inclinado para proteção contra quedas, ele vê nas opções de compra uma forma mais eficiente de se posicionar para uma alta sem recorrer diretamente ao mercado à vista.
Demanda de longo prazo
A recuperação mais ampla do setor cripto é outro fator citado como suporte. Em nota a clientes assinada por Peter Christiansen, o Citi informou que a capitalização total do mercado de criptoativos passou de cerca de US$ 2,1 trilhões para quase US$ 3 trilhões no terceiro trimestre, com fluxos institucionais em ETFs voltando a ficar positivos e melhora na atividade de exchanges, stablecoins e infraestrutura de ativos digitais. O banco também destaca o interesse crescente de investidores por negócios ligados à tokenização, custódia, stablecoins e liquidação de operações, área em que os avanços regulatórios continuam mesmo após o Clarity Act não ter avançado no Congresso americano.
Butterfill pondera que os fluxos para produtos de investimento em cripto perderam força recentemente, após um total de US$ 11,1 bilhões em entradas desde meados de julho. Ele interpreta essa desaceleração como reflexo de incerteza, não de deterioração dos fundamentos do bitcoin, mas reconhece que uma alta sustentada exige retomada das compras. Assim como Rasmussen, ele vê nas preocupações com as finanças públicas dos EUA uma possível fonte de demanda no longo prazo: juros mais altos dos Treasuries costumam apertar as condições financeiras e prejudicar o bitcoin, mas essa relação pode mudar caso investidores passem a interpretar esses juros como compensação pelo risco fiscal.
Butterfill resume sua visão dizendo esperar preços mais altos no médio prazo, mas afirma que gostaria de ver o argumento fiscal se traduzir em alocações consistentes antes de apostar em um rompimento decisivo. Rasmussen se mostra mais confiante de que essas forças vão se converter em ganhos em prazo mais curto, afirmando esperar uma reprecificação significativa do bitcoin assim que o mercado atravessar o período atual de turbulência.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha criptoativos a partir do Brasil, o quadro traçado pela CoinDesk reforça que o bitcoin segue, por ora, refém da política monetária americana mais do que de narrativas específicas do setor. A proximidade de uma possível nova alta de juros do Fed e a disputa eleitoral de meio de mandato nos EUA tendem a manter a volatilidade elevada nas próximas semanas, independentemente de qual lado da divisão entre Bitwise e LO:TECH se confirme primeiro.
Vale notar que, segundo cobertura recente do AAR News, o bitcoin vinha oscilando perto de US$ 82.100 em meio a um cenário de altcoins em alta e silêncio do Fed sobre o rumo dos juros, além de um episódio de quase US$ 1 bilhão em liquidações forçadas que atingiu com mais força o ether. Pela cotação mais recente do scanner da TradingView, referente a 18 de outubro de 2026 às 10h20 no horário de Brasília, o bitcoin era negociado a US$ 81.838,55, com alta de 0,57% no dia — um nível ainda distante tanto do piso de US$ 85 mil citado pela LO:TECH quanto da marca psicológica de US$ 100 mil mencionada pela Bitwise.
O ponto de atenção prático está nos gatilhos específicos levantados pelos próprios analistas: uma eventual sinalização do Fed de pausa nos juros em dezembro, a trajetória dos preços de petróleo e da inflação ao consumidor, e a retomada de fluxos consistentes para ETFs de bitcoin. A redução da alavancagem no mercado, mencionada tanto por Invernizzi quanto por McCarthy, sugere que uma eventual recuperação de preços tende a depender mais de compras novas do que de um efeito cascata de liquidações — o que pode tornar o movimento, se vier, mais lento e menos abrupto do que em ciclos anteriores.
Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk
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