O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que a liderança americana em ativos digitais pode reforçar o domínio global do dólar, à medida que a força tecnológica se torna um fator cada vez mais relevante para a influência econômica do país, segundo reportagem da CoinDesk.
Bessent disse, nesta terça-feira, que o Departamento do Tesouro pode atuar em conjunto com a SEC e a CFTC para dar mais clareza às regras sobre criptomoedas, depois que o Congresso não conseguiu aprovar uma regulação federal específica para ativos digitais. Ele também mencionou a possibilidade de criar salvaguardas contra bancos que cortam serviços a empresas do setor cripto.
A administração Trump já havia conseguido aprovar o GENIUS Act, que estabeleceu regras federais para stablecoins. Segundo Bessent, essa legislação é uma forma de ampliar a demanda global por dólares americanos e por dívida do Tesouro dos EUA.
Falando na conferência Swell, da Ripple, ao lado do CEO Brad Garlinghouse, Bessent argumentou que o poder por trás das moedas de reserva mundiais ao longo da história veio da força militar, mas que esse eixo está cada vez mais deslocado para a liderança tecnológica.
"We will keep our military umbrella, but I think more and more it's becoming a technology umbrella", disse Bessent, segundo a CoinDesk.
O secretário citou a divisão crescente entre os ecossistemas tecnológicos dos Estados Unidos e da China, em que países e empresas precisam escolher entre sistemas de inteligência artificial e tecnologias de semicondutores de um lado ou de outro. Para Bessent, os ativos digitais fazem parte dessa disputa, já que a infraestrutura financeira escolhida pelos países pode influenciar o alcance do dólar americano.
"I think that digital assets are going to be no different, and we are going to win in the digital asset stack, and that's gonna continue to fortify the [U.S.] dollar", afirmou, de acordo com a reportagem.
As declarações de Bessent deram um fundamento mais amplo ao esforço da administração do presidente Donald Trump para atrair empresas de cripto para dentro dos Estados Unidos, tratando os ativos digitais não apenas como um mercado financeiro, mas como parte da infraestrutura capaz de sustentar a influência econômica americana. O governo já havia garantido a aprovação do GENIUS Act, que criou um arcabouço regulatório federal para as stablecoins — criptomoedas desenhadas para manter valor fixo em relação a moedas fiduciárias como o dólar.
Bessent defendeu que as stablecoins podem reforçar a posição do dólar ao ampliar o acesso à moeda americana em países onde as moedas locais enfrentam inflação ou oscilações bruscas de valor.
Segundo ele, mais de 90% das stablecoins são lastreadas em dólares americanos, e seus emissores costumam manter títulos do governo dos EUA como reserva. Com o crescimento da adoção, a demanda por esses ativos pode aumentar, criando mais uma fonte de financiamento para o governo federal.
"I think it's gonna be an important source of funding for the Treasury", disse Bessent, segundo a CoinDesk.
Abertura de novos mercados
Bessent rebateu a ideia de que as stablecoins apenas substituiriam dólares que as pessoas já possuem, argumentando que elas podem alcançar novos usuários em mercados emergentes interessados em proteger suas economias da desvalorização cambial.
"I think we are opening up new markets all around the world", afirmou o secretário, conforme a reportagem.
Ainda assim, o esforço mais amplo da Casa Branca para regular os mercados de cripto sofreu um revés depois que o Congresso não aprovou o Clarity Act, projeto que estabeleceria um arcabouço federal para o setor.
Bessent chamou o fracasso do projeto de decepção, mas disse que o Departamento do Tesouro pode trabalhar junto a agências reguladoras como a SEC e a CFTC para avançar a supervisão do setor por meio de ações administrativas.
"At Treasury, we have a lot of convening powers", disse Bessent, descrevendo a SEC e a CFTC como "great partners" na construção de um arcabouço regulatório que, segundo ele, poderia servir de modelo para outros países.
Os esforços regulatórios dessas agências podem trazer mais clareza para as empresas de cripto, embora regras definidas por reguladores não tenham a mesma permanência de uma legislação aprovada pelo Congresso.
Bessent também tratou das preocupações do setor com o chamado debanking, termo usado para descrever o corte de serviços bancários a empresas de cripto, em alguns casos sob alegada pressão regulatória.
Ele disse que o Clarity Act ajudaria a evitar um retorno a essas práticas, mas afirmou que salvaguardas regulatórias ainda podem oferecer proteção ao setor.
"I think we can set up regulatory best practices, guardrails that will prevent that from happening again", disse Bessent, de acordo com a CoinDesk.
O que isso significa para o investidor
As declarações de Bessent sinalizam que a agenda cripto da administração Trump não depende exclusivamente da aprovação de uma lei abrangente pelo Congresso. A disposição de usar o poder de articulação do Tesouro junto a SEC e CFTC sugere que o avanço regulatório pode continuar por via administrativa, ainda que com menor grau de permanência jurídica do que uma legislação como o Clarity Act teria oferecido.
Para investidores expostos a stablecoins e empresas do setor cripto nos Estados Unidos, o discurso reforça a leitura de que o governo americano vê esses ativos como peça estratégica de política econômica e não apenas como mercado financeiro isolado — o que pode significar maior apoio institucional ao setor no médio prazo, mas também manutenção da incerteza regulatória até que regras mais permanentes sejam estabelecidas.
A menção ao debanking como ponto de atenção também é relevante para quem acompanha empresas cripto americanas: a promessa de salvaguardas, ainda que por via regulatória e não legislativa, pode reduzir um risco operacional recorrente citado pelo setor, embora sem a garantia de estabilidade que uma lei federal proporcionaria.
Vale acompanhar os próximos passos de SEC e CFTC mencionados por Bessent, já que qualquer ação concreta dessas agências tende a ter efeito direto sobre o apetite de capital institucional por ativos digitais ligados ao dólar, incluindo stablecoins e os títulos do Tesouro americano que as lastreiam.
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