A menos de duas semanas das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, o humor dos americanos em relação à economia voltou a níveis próximos aos observados na saída da pandemia. Segundo a mais recente pesquisa CNBC All-America Economic Survey, a aprovação do presidente Donald Trump na condução da economia atingiu o patamar mais baixo já registrado pelo levantamento.
De acordo com a sondagem, oito em cada dez americanos classificam a economia como regular ou ruim, o maior índice desde dezembro de 2023. O resultado é um dos sinais que, segundo a CNBC, indicam um cenário difícil para os candidatos republicanos no pleito de meio de mandato.
A visão negativa é mais acentuada entre democratas e independentes, mas o levantamento identificou também um movimento relevante de piora entre eleitores republicanos nos últimos meses. No total, 63% do público se diz pessimista com o estado atual da economia e suas perspectivas, alta de 1 ponto percentual frente à pesquisa de julho. Entre os republicanos, esse pessimismo chega a 35%, alta de 6 pontos em relação a julho e o maior nível já registrado entre eleitores do partido em qualquer um dos dois mandatos de Trump.
"Chegamos a esse ponto não porque independentes ou democratas ficaram mais pessimistas — foi porque os republicanos ficaram", afirmou Micah Roberts, sócio da Public Opinion Strategies e responsável pela ala republicana do levantamento. Segundo ele, desde que Trump assumiu a presidência, os republicanos mantinham uma pequena margem classificando a economia como excelente ou boa, movimento que agora se reverteu.
A pesquisa ouviu 1.000 eleitores registrados em todo o país, com margem de erro de 3,1 pontos percentuais para mais ou para menos. O resultado mostrou preferência por um Congresso sob controle democrata na proporção de 52% a 45%, uma vantagem de 7 pontos percentuais que representa um ganho de 3 pontos para os democratas frente a julho.
Engajamento eleitoral e preferências por tema
O levantamento trouxe outros sinais desfavoráveis para os republicanos. Do total de democratas, 72% se declararam muito interessados nas eleições de 3 de novembro, ante 62% dos republicanos. As mulheres mostraram interesse 10 pontos percentuais maior do que os homens e preferem o controle democrata do Congresso por uma margem de 22 pontos. Entre os independentes, a preferência por controle democrata chega a 49% contra 33%. A maioria dos entrevistados também considera que os democratas fariam um trabalho melhor do que os republicanos em temas apontados como prioritários, como corrupção e o custo de alimentos e combustíveis.
Nos oito estados com disputas competitivas pelo Senado, os entrevistados preferem o controle democrata do Congresso por 4 pontos percentuais — mesmos estados em que Trump venceu por uma margem combinada de 10 pontos na eleição presidencial de 2024.
Para Jay Campbell, sócio da Hart Associates e responsável pela ala democrata da pesquisa, os números mostram "as coisas se movendo para longe dos republicanos ou em direção aos democratas", um cenário que, segundo ele, deixaria qualquer campanha republicana apreensiva faltando duas semanas para a votação.
Aprovação de Trump e desempenho econômico
A aprovação geral de Trump se manteve estável, mas em patamar baixo: 40% aprovam sua gestão e 59% desaprovam, resultando em uma aprovação líquida de -19 pontos percentuais, ante -8 pontos um ano atrás.
O dado mais expressivo, porém, é a queda de 9 pontos na aprovação líquida da economia em apenas três meses. A aprovação da condução econômica recuou de 38% em julho para 34% na pesquisa atual, enquanto a desaprovação subiu de 60% para 65%. O resultado líquido de -31 pontos é o pior de toda a trajetória de Trump somando seus dois mandatos. A desaprovação de 65% fica 1 ponto percentual acima do pior resultado já registrado pelo ex-presidente Joe Biden e representa o maior índice de desaprovação econômica entre todos os presidentes acompanhados pela pesquisa da CNBC desde Barack Obama.
Corrupção e custo de vida no topo das preocupações
A corrupção no governo foi apontada como principal preocupação por 36% dos entrevistados, tema em que os democratas têm vantagem de 4 pontos percentuais sobre os republicanos. O custo de alimentos e compras no supermercado, segunda maior preocupação, mostrou a vantagem democrata ampliar-se para 16 pontos, ante 7 pontos em julho. Os democratas também aparecem à frente na proteção da democracia e no enfrentamento do preço elevado da gasolina.
Entre os eleitores mais engajados na eleição estão justamente os que colocam corrupção e proteção da democracia como temas prioritários — e esse grupo prefere o controle democrata do Congresso por margens expressivas.
Os republicanos continuam com vantagem consistente em segurança de fronteira e imigração, mas essa liderança recuou para 9 pontos, ante 15 pontos anteriormente. Já em empregos e desemprego, e também na questão do Irã, os democratas passaram à frente: no caso do Irã, o tema que era vantagem de 2 pontos para os republicanos virou vantagem de 5 pontos para os democratas.
O público segue cético quanto ao valor da ação militar contra o Irã. Apenas 46% acreditam que a operação valeu a pena para conter o desenvolvimento nuclear iraniano, recuo frente aos 53% registrados em abril. E apenas 35% consideram que a ação militar valeu a pena diante da alta no preço da gasolina.
Consenso bipartidário sobre conflitos de interesse
Apesar da polarização em diversos temas, o levantamento identificou ampla concordância entre os entrevistados quanto a restrições a conflitos de interesse: a grande maioria do público defende que autoridades eleitas, incluindo o presidente e membros do Congresso, não deveriam poder possuir ou negociar ações de empresas individuais que mantenham contratos com o governo federal. Além disso, 89% afirmaram que empresas de propriedade ou com participação de familiares diretos de um presidente em exercício não deveriam poder receber contratos do governo federal.
Ainda que a corrupção lidere as preocupações, o custo de vida permanece no centro das atenções dos eleitores registrados. Somando preocupações com alimentos, gasolina e moradia, o tema é apontado como prioridade por 57% dos entrevistados. Uma parcela crescente do público relata que os preços seguem subindo mais rápido que o usual, com 55% nessa percepção — alta de 5 pontos percentuais frente a um ano atrás. O custo dos alimentos superou o da gasolina como maior preocupação, na proporção de 34% a 23%. O tema aparece como prioridade na maioria dos grupos demográficos, sendo mais elevado entre famílias com renda de até US$ 30 mil e entre apoiadores da pauta dos Democratic Socialists of America — mas também é o principal tema entre republicanos que não se identificam com o movimento MAGA.
Institutos pedem cautela sobre a extensão dos ganhos democratas
Os dois institutos responsáveis pela pesquisa recomendaram cautela na leitura dos resultados. Roberts, da POS, descreveu a disputa como um embate entre "o mapa e o momentum". Segundo ele, há indicações nacionais de que o eleitorado está se inclinando mais para os democratas, mas o movimento está concentrado, cada partido consolida sua própria base, e uma mudança de maior escala dependeria dos democratas conquistarem distritos e estados em que Trump venceu com folga há apenas dois anos.
Campbell, por sua vez, não vê uma eleição de "realinhamento" nos moldes de 1994 ou 2008. Para ele, trata-se de um "retorno à média", com eleitores jovens e eleitores de grupos minoritários voltando ao campo democrata, impulsionados por independentes insatisfeitos com a condução econômica de Trump. Ele pondera, no entanto, que em nenhum momento se esperou que os candidatos democratas conseguissem atrair uma fatia relevante do eleitorado republicano.
O que isso significa para o investidor
Para quem acompanha ativos americanos e globais a partir do Brasil, o dado mais relevante da pesquisa CNBC não é político em si, mas o diagnóstico sobre custo de vida: alimentos, gasolina e moradia seguem como principais fontes de desconforto do consumidor americano, mesmo com a aprovação econômica de Trump em queda. Esse tipo de sinal tende a reforçar a atenção do mercado a dados de inflação ao consumidor e a expectativas sobre a trajetória de juros nos EUA nas próximas semanas.
A perda de aprovação econômica também é relevante porque atinge a própria base republicana — o levantamento mostra pessimismo recorde entre eleitores do partido. Historicamente, esse tipo de erosão interna costuma anteceder mudanças de composição no Congresso, o que pode afetar a previsibilidade da agenda fiscal e regulatória americana caso o equilíbrio de forças no Legislativo se altere após o pleito de novembro.
Vale observar também o quase consenso bipartidário contra conflitos de interesse envolvendo negociação de ações por autoridades e contratos federais a empresas ligadas a famílias de presidentes. Ainda que não haja, no material analisado, qualquer indicação de mudança legislativa concreta, esse tipo de sentimento público tende a alimentar, ao longo do tempo, discussões sobre regras de governança e transparência que podem repercutir em setores sensíveis a contratos públicos.
Por ora, o investidor brasileiro deve tratar a pesquisa como um termômetro político relevante, mas não como sinal definitivo de direção de mercado. O desdobramento concreto — se os democratas de fato ampliam sua presença no Congresso em novembro — é o próximo ponto de atenção, já que alterações na composição legislativa costumam influenciar expectativas sobre política fiscal, comercial e regulatória dos Estados Unidos, com reflexos indiretos sobre câmbio e fluxo de capitais para mercados emergentes como o brasileiro.
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