A Anthropic, gigante de inteligência artificial, tem buscado apoio de potenciais investidores diante de uma esperada estreia em bolsa, segundo apurou a BBC. O movimento busca convencer o mercado de que a empresa tem capacidade real de gerar lucro, mesmo em meio a gastos elevados com tecnologia.
A receita da companhia avançou 45%, para US$ 16,8 bilhões (£12,7 bilhões) no trimestre encerrado em setembro, de acordo com informações obtidas pela BBC. Assim como outras empresas do setor de IA, a Anthropic tenta se posicionar como capaz de produzir retornos expressivos apesar do volume bilionário investido em infraestrutura tecnológica.
A companhia também destacou, durante o evento, preocupações com segurança no desenvolvimento de seus modelos, depois que pesquisadores atuais e ex-funcionários alertaram para riscos graves — e até existenciais — que a IA poderia representar para a humanidade.
Trajetória de receita e lucro ajustado
Segundo o material apurado pela BBC, a receita da Anthropic cresceu em trimestres sucessivos ao longo do ano: partiu de US$ 4,7 bilhões nos três primeiros meses e saltou para US$ 11,6 bilhões no período seguinte, antes de atingir os US$ 16,8 bilhões mais recentes.
A empresa afirmou a investidores, durante o evento realizado em sua sede em São Francisco, que registrou lucro no terceiro trimestre em base ajustada — metodologia contábil que desconsidera custos não recorrentes. De acordo com a reportagem, investidores deixaram o encontro otimistas com o ritmo de crescimento da receita e com a trajetória rumo à rentabilidade.
Segurança da IA e disputa geopolítica
Além das dúvidas sobre geração de lucro, o setor de inteligência artificial também enfrenta questionamentos sobre a segurança dos modelos desenvolvidos. O presidente americano Donald Trump, no entanto, minimizou essas preocupações, afirmando que pesquisadores têm levantado cenários que "não vão acontecer" e defendendo que, na disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, "quem vencer a corrida da IA, vence".
A rival OpenAI também já se manifestou sobre o tema. Seu presidente-executivo, Sam Altman, disse em setembro que a empresa não abrirá capital neste ano enquanto trabalha para endereçar as preocupações relacionadas à segurança da tecnologia. A OpenAI, criadora do ChatGPT, também planeja uma listagem em bolsa de grande porte, segundo a BBC.
Humor do mercado
Os números de receita da Anthropic, somados aos da OpenAI, funcionam como termômetro do crescimento do setor de IA e de sua capacidade de financiar a infraestrutura necessária para seguir desenvolvendo a tecnologia, segundo a reportagem.
Ações de empresas de tecnologia nos Estados Unidos recuaram na quarta-feira em meio a preocupações sobre os investimentos bilionários destinados à IA. Papéis de fabricantes de chips — entre eles AMD, Nvidia e Intel — caíram de forma acentuada.
Na Ásia, as ações da japonesa SoftBank, investidora relevante do setor de tecnologia, recuaram mais de 9% na quinta-feira. Gigantes sul-coreanas de semicondutores também foram afetadas: a Samsung caiu 9,5% e a SK Hynix, 11%.
As quedas desta semana ocorreram após declarações de Hock Tan, presidente-executivo da fabricante americana Broadcom, sobre os gastos do setor com inteligência artificial. Em conferência em Singapura na segunda-feira, Tan afirmou que muitos investidores não têm noção do que estão fazendo e criaram expectativas exageradas, comparando o comportamento do mercado a uma espécie de cassino.
As perdas se aprofundaram depois que dados de inflação dos Estados Unidos, divulgados na quarta-feira, mostraram alta de preços acima do esperado em setembro. Isso alimentou receios de que o Federal Reserve se veja pressionado a elevar o custo do crédito no país.
O que isso significa para o investidor
O movimento da Anthropic para atrair investidores antes de uma eventual abertura de capital reforça um padrão já visto em outras gigantes de tecnologia: a necessidade de demonstrar que o crescimento acelerado de receita pode, de fato, se converter em lucro sustentável, e não apenas em promessas respaldadas por gastos bilionários em infraestrutura.
Para quem acompanha o mercado brasileiro e investe em ativos ligados à cadeia global de tecnologia, os números divulgados pela Anthropic — e a reação dos investidores no evento em São Francisco — servem como indicador do apetite por risco no setor de IA. O fato de empresas de chips como AMD, Nvidia e Intel terem recuado na mesma semana, assim como SoftBank, Samsung e SK Hynix na Ásia, mostra que o otimismo em torno da inteligência artificial convive com nervosismo quanto ao ritmo e à sustentabilidade desses investimentos.
A fala de Hock Tan, da Broadcom, comparando o comportamento de parte dos investidores a um cassino, e o dado de inflação americana acima do esperado em setembro, são dois pontos que merecem atenção redobrada: ambos tocam no mesmo ponto sensível, a possibilidade de o Federal Reserve manter juros mais altos por mais tempo, o que tende a penalizar especialmente ativos de crescimento — categoria em que se encaixam as empresas de IA.
Para o investidor brasileiro exposto a tecnologia, seja via ETFs internacionais, seja via ações listadas em bolsas americanas, o episódio reforça a importância de acompanhar não só os resultados de receita das líderes do setor, mas também o discurso de executivos de empresas-chave da cadeia de suprimentos, como chips e capital, que tendem a antecipar movimentos de maior volatilidade.
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