A Alphabet, controladora do Google, viu seu valor de mercado recuar pouco mais de US$ 500 bilhões (£374 bilhões) na quinta-feira, depois que a companhia reconheceu que os resumos gerados por inteligência artificial em seu buscador estão impactando a receita publicitária, segundo reportagem da BBC.
O diretor comercial da empresa, Philipp Schindler, afirmou que o chamado 'AI mode', recurso que responde perguntas de forma conversacional, está reduzindo o dinheiro que o Google obtém com anúncios exibidos ao lado dos resultados de busca tradicionais. Ainda assim, segundo a BBC, Schindler disse se sentir 'muito bem com nossa trajetória' em relação à versão do buscador voltada para IA.
Disputa pela atenção do usuário
O papel histórico do Google como principal ferramenta de busca na internet tem sido contestado pelo avanço da IA generativa, com milhões de usuários migrando para programas como ChatGPT e Claude, de acordo com o material da BBC.
Kim Scott, que anteriormente liderou o negócio de publicidade do Google, disse ao programa Today, da BBC, que a empresa prefere 'comer o próprio almoço' a permitir que concorrentes façam isso com sua receita de buscas. Segundo ela, o Google foi fundado sobre a lógica de apostas tecnológicas de longo prazo, mesmo que isso prejudique resultados no curto prazo. 'Acho que eles estão fazendo uma aposta de longo prazo em IA', afirmou Scott.
Resultados abaixo do esperado
Nos resultados divulgados na quarta-feira, a Alphabet informou que a receita total cresceu 25% no trimestre encerrado em setembro, na comparação com igual período do ano anterior, somando US$ 127,6 bilhões. Apesar do crescimento, a empresa não atingiu as projeções dos analistas, especialmente na divisão de publicidade, o que gerou reação negativa entre investidores.
As ações da Alphabet caíram mais de 12% após a divulgação dos números, atingindo a mínima dos últimos seis meses. Ao fim do pregão de quinta-feira, o valor de mercado total da companhia havia recuado para US$ 3,46 trilhões, ante US$ 3,97 trilhões no dia anterior, segundo a BBC.
Tracy Woo, analista principal da Forrester, avaliou que o desempenho aquém do esperado na divisão de buscas da Alphabet expõe a dificuldade de financiar investimentos pesados em IA ao mesmo tempo em que se tenta preservar a força dos negócios já consolidados da empresa.
Amazon e Microsoft também divulgaram balanços
A mesma semana trouxe atualizações de resultados da Microsoft e da Amazon, que, assim como o Google, sinalizaram planos de manter gastos elevados na corrida pela inteligência artificial. Segundo a reportagem, investidores demonstraram preocupação com os efeitos dessas estratégias sobre a capacidade de cada companhia de continuar expandindo suas operações centrais.
As ações da Amazon recuaram 6% no after-hours de quinta-feira. A empresa registrou crescimento de 11% nas vendas trimestrais, chegando a US$ 201 bilhões, mas revelou um fluxo de caixa negativo de US$ 42 bilhões — um número que, segundo a BBC, mostra não apenas que a companhia está gastando mais do que arrecada, mas que esse gasto multiplicou-se por seis em apenas três meses.
O presidente-executivo da Amazon, Andy Jassy, justificou o volume de investimentos afirmando que a empresa tem diante de si a chance de construir não um, mas dois negócios capazes de gerar US$ 1 trilhão no futuro: os serviços de nuvem e as operações de varejo físico. Durante teleconferência com analistas financeiros, Jassy também citou repetidamente o potencial da fabricação e venda de chips próprios pela Amazon, além da plataforma de desenvolvimento de IA Bedrock, que oferece a usuários pagantes acesso à maioria dos principais modelos e ferramentas de inteligência artificial do mercado.
'Uma das lições que aprendemos em mais de 20 anos é que não existe uma única ferramenta capaz de dominar o mundo', disse Jassy, segundo a BBC. 'As pessoas sempre presumem que o que está liderando no início será a única coisa usada — isso nunca se confirma', completou.
Questionado repetidamente sobre o volume de gastos da companhia, Jassy admitiu que 'seria mais conveniente' se esse investimento fosse diluído ao longo dos próximos 25 anos. 'Não é o mundo em que vivemos', acrescentou, segundo a reportagem. Ele disse ainda acreditar que a empresa tem condições de sustentar o plano e que isso 'mudará para sempre o tamanho, a receita e o fluxo de caixa livre da Amazon'.
Reação mais contida a Microsoft
A reação do mercado ao balanço da Microsoft foi mais comedida, com as ações recuando menos de 1% na quinta-feira. A empresa, uma das maiores investidoras da OpenAI, reduziu em cerca de US$ 5 bilhões os aportes destinados a projetos de inteligência artificial. A companhia também anunciou nos dias anteriores planos de cortar milhares de postos de trabalho, medida que deve reduzir ainda mais seus custos.
Segundo a BBC, a receita da Microsoft cresceu 19% na comparação anual, somando US$ 92,3 bilhões no trimestre. O braço de computação em nuvem, considerado estratégico para a empresa, avançou 30%, chegando a US$ 63 bilhões.
O presidente-executivo Satya Nadella afirmou que o uso do Copilot, assistente de inteligência artificial da Microsoft, levou a 'tarefas automatizadas praticamente dobrando desde julho', com o número de usuários diários crescendo 500% em relação ao ano anterior.
Embora menor volume de gastos combinado a crescimento de vendas normalmente seja recebido de forma positiva por investidores, Tracy Woo, da Forrester, observou que o mercado está tentando enxergar mais à frente para avaliar quais negócios realmente cumprirão as grandes promessas em torno da inteligência artificial. 'Os resultados da Microsoft reforçam que a demanda corporativa por IA segue forte, mas também destacam uma questão maior enfrentada pela indústria de tecnologia: onde, afinal, o valor gerado pela IA será capturado', disse a analista, segundo a BBC.
O que isso significa para o investidor
O episódio evidencia um dilema que passa a atravessar todo o setor de tecnologia: as big techs estão comprometendo bilhões de dólares em infraestrutura de inteligência artificial sem clareza sobre quando — e como — esse investimento se converterá em receita sustentável. No caso do Google, o problema é mais direto: a própria tecnologia que a empresa desenvolve para se manter relevante está canibalizando seu modelo de negócio original, baseado em anúncios ao lado de resultados de busca.
Para quem investe em ações de tecnologia, os números divulgados por Alphabet, Amazon e Microsoft nesta semana funcionam como um termômetro de como o mercado está reprecificando o risco da corrida por IA. A queda acentuada das ações da Alphabet mostra que, mesmo diante de crescimento de receita robusto, investidores penalizam sinais de que o núcleo do negócio pode estar sob pressão. Já a reação mais branda à Microsoft sugere que o mercado diferencia empresas que conseguem mostrar crescimento em nuvem e produtividade das que apresentam apenas promessas de longo prazo, como no caso da Amazon.
Vale acompanhar os próximos balanços trimestrais das três companhias para verificar se a publicidade do Google se estabiliza, se o fluxo de caixa da Amazon melhora à medida que os investimentos em nuvem e chips maturam, e se a Microsoft consegue manter o ritmo de adoção do Copilot sem novos cortes de pessoal. A forma como cada uma dessas empresas equilibrar investimento pesado em IA com a preservação de suas receitas tradicionais deve seguir sendo o principal fator de volatilidade para esses papéis nos próximos trimestres.
Agregado por AAR News · fonte: BBC
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