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Alberta vota sobre futuro no Canadá e reacende debate sobre independência rica em petróleo

Referendo de 19 de outubro pode abrir caminho a uma consulta vinculante sobre separação; estimativas de custo e ganho fiscal divergem fortemente

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A província canadense de Alberta vai às urnas no dia 19 de outubro em um referendo que não decide diretamente a separação do Canadá, mas que pode abrir caminho para uma consulta futura e vinculante sobre independência. A votação é tratada como um dos testes mais relevantes de unidade nacional do país em anos recentes, segundo a BBC.

No centro da discussão está uma pergunta econômica: Alberta ficaria mais rica como país independente? Para apoiadores do movimento separatista, como o advogado Keith Wilson, a resposta é afirmativa. Ele argumenta que a província tem uma economia singular, sustentada por reservas de petróleo e gás, um setor agrícola relevante e uma força de trabalho jovem e qualificada, condições que, em sua visão, a diferenciam do restante do Canadá.

Origem do movimento e o clima político

O impulso separatista não é recente, mas ganhou força nos últimos anos em meio ao que ficou conhecido como sentimento de 'alienação ocidental' — a percepção, de longa data em Alberta, de que a província é mal compreendida e pouco priorizada pelos tomadores de decisão em Ottawa, segundo a reportagem.

Entre os fatores que alimentaram esse sentimento estão a frustração com a recusa política e ambiental que inviabilizou projetos de oleodutos que ligariam a província, sem saída para o mar, a portos costeiros. Uma década de governos liberais em Ottawa também irritou o eleitorado conservador de Alberta, somada à desconfiança remanescente em relação às medidas federais de restrição durante a pandemia de Covid-19.

Nos últimos 12 meses, organizadores do movimento separatista promoveram assembleias públicas por toda a província para medir o apoio popular e, na sequência, lançaram uma petição para viabilizar a votação, que reuniu mais de 300 mil assinaturas. A premiê de Alberta, Danielle Smith, que se posiciona contra a independência, decidiu neste ano autorizar a realização do referendo.

Pesquisas de opinião citadas pela BBC indicam que entre 20% e 25% dos eleitores de Alberta pretendem votar a favor de avançar para um referendo vinculante de separação, com apoio mais forte entre eleitores mais jovens, de áreas rurais e de perfil conservador.

O peso econômico de Alberta dentro do Canadá

Alberta concentra o setor de petróleo e gás do Canadá e possui reservas estimadas como as quartas maiores do mundo. O petróleo bruto é, de longe, a commodity mais lucrativa do país, tendo gerado C$142 bilhões em valor de exportação somente em 2025, a maior parte vendida a refinarias nos Estados Unidos, segundo o material.

A província tem o maior PIB per capita do país e contribui com bilhões de dólares anuais ao caixa tributário federal em razão do desempenho de sua economia. Desde 1965, Alberta não recebe os chamados pagamentos de 'equalização' — recursos que o governo federal transfere às províncias consideradas menos ricas, classificadas como 'have not'.

Cálculos dos economistas Tegan Hill e Nathaniel Li, do think tank Fraser Institute, mostram que a contribuição líquida total de Alberta para Ottawa desde 2007 soma C$322 bilhões, uma média de cerca de US$17 bilhões por ano. Segundo Hill, esse valor é quase quatro vezes maior que o da Colúmbia Britânica e mais de quatro vezes o de Ontário — enquanto as outras sete províncias foram receptoras líquidas, ou seja, Ottawa transferiu ou gastou mais dinheiro nelas do que arrecadou.

Hill explica que o volume que Alberta transfere ao restante do Canadá é uma das principais queixas citadas pelos defensores da separação, resumida na ideia de que a província sustenta financeiramente outras regiões e poderia reter essa riqueza caso seguisse seu próprio caminho.

A promessa dos defensores da independência

Essa lógica está no centro das projeções do Alberta Prosperity Project, um dos principais grupos que organizam a campanha pela independência. Em seu plano fiscal divulgado no ano passado, o grupo estima que Alberta economizaria até C$47 bilhões por ano ao deixar de pagar impostos federais.

O próprio plano reconhece que os custos de Alberta seriam maiores como país independente, já que a província passaria a arcar com despesas como defesa nacional e diplomacia internacional, estimadas em até C$31,6 bilhões ao ano. Esse valor se somaria a gastos que a província já cobre atualmente, como saúde e educação, da ordem de C$75 bilhões.

Depois de descontar essenciais e novas despesas, o Alberta Prosperity Project projeta um superávit anual entre C$24 bilhões e C$46 bilhões. Com esse montante, defensores da separação argumentam que seria possível reduzir impostos individuais em mais de C$10 mil por ano, ampliar investimentos em infraestrutura ou direcionar recursos ao fundo de riqueza da província.

As contas da separação, segundo críticos e o governo provincial

A premiê Danielle Smith projeta um cenário bem mais sóbrio. Segundo ela, a província poderia arcar com até C$400 bilhões (US$283 bilhões; £213 bilhões) apenas em custos de transição, além de perdas adicionais em investimentos e comércio decorrentes da instabilidade política gerada pelo processo.

Um relatório encomendado pelo governo de Smith e divulgado neste mês calculou os custos da separação entre C$50 bilhões e C$170 bilhões ao longo de cinco anos, com uma perspectiva de longo prazo descrita como altamente imprevisível. O documento alerta que a lista de providências necessárias para uma Alberta independente seria longa e onerosa.

Entre as tarefas citadas estão a criação de agências próprias para administração tributária e segurança nacional, o desenvolvimento de uma constituição, de sistemas jurídicos e judiciais próprios, de planos de pensão independentes, além da negociação da divisão de ativos federais, como parques nacionais e bases militares.

Lennie Kaplan, ex-funcionário da área de finanças de Alberta, afirma que a província também teria de assumir parte da dívida nacional do Canadá, entre outros desafios fiscais e responsabilidades. Um relatório da CanadaWest Foundation, think tank sediado na própria Alberta, estima que a província poderia ficar com uma dívida adicional entre C$258 bilhões e C$333 bilhões.

Considerando o impacto projetado sobre o PIB provincial somado aos custos extras, o relatório calcula que a separação poderia reduzir em 5,8%, em média, a renda disponível dos moradores de Alberta. Kaplan questiona o racional por trás do movimento: por que criar tamanha incerteza, que poderia comprometer a posição fiscal da província, em vez de buscar soluções dentro da estrutura federal canadense?

Ceticismo entre economistas

Vários economistas ouvidos pela BBC argumentam que as projeções dos grupos pró-independência carecem de clareza metodológica e tendem a superestimar os ganhos financeiros de uma eventual separação. Para Hill, do Fraser Institute, um dos principais riscos econômicos é a incerteza prolongada — especialmente se o referendo não encerrar a discussão ou se o processo de ruptura com o Canadá se arrastar por anos.

Ela questiona por que alguém investiria capital na província sem saber se Alberta continuará parte do Canadá ou seguirá um caminho independente nos próximos anos, argumento que resume a cautela do mercado diante do processo eleitoral em curso.

O que isso significa para o investidor

Para quem acompanha ativos ligados a energia e a mercados norte-americanos, o processo em Alberta introduz um fator de risco político que normalmente não está precificado em commodities como petróleo e gás — setores nos quais a província tem peso direto, dado que concentra reservas entre as quatro maiores do mundo e exporta majoritariamente para refinarias dos Estados Unidos.

O ponto mais relevante para o investidor não é o resultado imediato da votação de 19 de outubro, que não decide a separação, mas sim o sinal que ela dá sobre a persistência da incerteza institucional na província. Como apontam os próprios economistas citados, prazos indefinidos sobre a permanência de Alberta no Canadá tendem a pesar mais sobre decisões de alocação de capital do que os números de custo ou economia projetados por qualquer um dos lados.

Vale observar que as estimativas financeiras em disputa variam enormemente — de um potencial superávit anual de até C$46 bilhões, segundo os defensores da independência, a custos de transição que podem chegar a C$400 bilhões, segundo o governo provincial. Essa discrepância, por si só, é um indicador de que qualquer modelagem de cenário sobre Alberta independente carrega hoje um grau elevado de incerteza, e investidores expostos a ativos canadenses de energia devem acompanhar os próximos desdobramentos políticos antes de reprecificar posições com base nesse debate.

Agregado por AAR News · fonte: BBC

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