As ações das principais companhias de luxo da Europa operam nos patamares mais baixos em mais de dez anos, segundo a Bloomberg. Os resultados recentes de duas das maiores grifes do setor esfriaram as apostas de que a retração do segmento estaria perto do fim.
A fabricante da bolsa Birkin viu seus papéis ampliarem as perdas nesta sexta-feira, um dia depois de divulgar vendas no terceiro trimestre abaixo do esperado pelo mercado, em boa parte por causa da demanda enfraquecida na China. Segundo a reportagem, as ações da grife são negociadas a cerca de 27 vezes o lucro projetado, patamar bem inferior ao pico pós-pandemia, de aproximadamente 70 vezes.
Analistas do banco Berenberg, liderados por Nick Anderson, rebaixaram a recomendação da empresa de compra para manutenção nesta sexta-feira. O time cita preocupação com uma exposição à China maior do que se imaginava, além de uma base de consumidores mais dependente de clientes aspiracionais do que previamente estimado.
LVMH também sofre com a China
A gigante dona de marcas como Louis Vuitton apresentou números morosos na semana passada, também em meio à queda nas vendas no mercado chinês, e viu sua valuation derreter nos últimos meses. De acordo com a Bloomberg, o grupo é negociado atualmente a cerca de 16 vezes o lucro futuro, o nível mais baixo em mais de uma década.
As ações de ambas as companhias acumulam queda de cerca de 40% neste ano, à medida que a recuperação esperada para a indústria do luxo não se concretizou. Consumidores chineses de alta renda reduziram gastos em meio à crise no setor imobiliário do país, à instabilidade nos mercados financeiros locais e a um esforço das autoridades chinesas para tributar riqueza mantida no exterior.
Kering e a Gucci pressionam ainda mais o setor
A dona da Gucci reforçou as preocupações do mercado ao divulgar seus resultados na noite de quinta-feira, afirmando que o consumo na China segue fraco e que as vendas da grife italiana ficaram abaixo das estimativas dos analistas. As ações da companhia chegaram a cair 12% nesta sexta-feira, a maior queda desde abril de 2025.
"As valuations refletem tanto os resultados abaixo do esperado quanto um cenário macroeconômico mais fraco", disse a analista do Bernstein Maria Meita, segundo a Bloomberg. Para ela, a gigante do grupo francês segue sendo, na prática, uma aposta no desempenho macroeconômico chinês, e provavelmente só deve reagir quando o país voltar a crescer com mais força. Já no caso da fabricante da Birkin, os investidores teriam perdido parte da confiança no modelo de negócios historicamente considerado resiliente da marca, segundo a analista.
A reportagem lembra que essa grife costuma ser vista como uma opção mais segura em momentos de volatilidade, justamente pelas longas listas de espera por seus produtos mais cobiçados — um fator que, segundo Meita, estaria sendo colocado em xeque pelo mercado.
Preços baixos não atraem compradores
Mesmo com as ações mais baratas, os investidores ainda relutam em aproveitar a queda dos papéis do setor de luxo. Um fator adicional de risco, segundo a Bloomberg, é a propagação de agitação social na França, país-sede de várias dessas grifes.
Para a fabricante da Birkin, a instabilidade política e social no país "adiciona mais risco, dado que as marchas planejadas ameaçam o tráfego nas lojas e o turismo", escreveu a analista da Bloomberg Intelligence Deborah Aitken, segundo a reportagem.
O que isso significa para o investidor
O quadro traçado pela Bloomberg mostra um setor de luxo europeu pressionado por uma combinação pouco comum: múltiplos de valuation historicamente baixos e, ainda assim, ausência de apetite comprador. Isso sugere que o mercado não está precificando apenas resultados trimestrais fracos, mas uma mudança estrutural na percepção sobre a resiliência dessas marcas frente à desaceleração do consumo chinês.
Para quem acompanha ativos internacionais a partir do Brasil, o episódio reforça a importância de olhar além do preço nominal de uma ação antes de considerá-la barata. Múltiplos comprimidos podem refletir risco real — neste caso, dependência de um mercado específico, a China, e exposição a fatores políticos locais, como a instabilidade social na França, que afeta diretamente o fluxo de turistas e consumidores nas lojas físicas.
Vale observar os próximos resultados trimestrais das grifes citadas e qualquer sinal de recuperação do consumo chinês como gatilhos potenciais para uma reprecificação do setor. Até lá, a cautela dos analistas citados pela Bloomberg — que já rebaixaram recomendações e apontam riscos macro e geopolíticos simultâneos — indica que o chamado "desconto" nas ações de luxo pode persistir por mais tempo do que investidores otimistas esperam.
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