Criptomoedas · Opinião

18 anos do white paper do bitcoin: pequenas empresas ainda pagam a conta dos resgates

Para o CEO da Onramp, Michael Tanguma, o sistema que motivou Satoshi Nakamoto a criar o bitcoin continua socorrendo bancos grandes enquanto negócios menores absorvem a inflação

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Satoshi Nakamoto publicou o white paper do bitcoin em 31 de outubro de 2008, quatro semanas depois de o Congresso americano aprovar um pacote de resgate bancário de US$ 700 bilhões. O primeiro bloco da rede, minerado em 3 de janeiro de 2009, trazia embutida uma manchete de jornal londrino sobre um novo socorro ao setor financeiro — "Chancellor on brink of second bailout for banks".

Dezoito anos depois, segundo artigo de opinião assinado por Michael Tanguma, CEO da Onramp, publicado pela CoinDesk, a lógica descrita por Satoshi continua em funcionamento: as maiores instituições recebem amparo em momentos de crise, enquanto pequenos negócios lidam com o repasse de custos mais altos. Para o autor, o bitcoin representa uma reserva de valor que nenhum pacote de resgate consegue diluir.

Uma sequência de resgates que não para

O artigo lista episódios posteriores a 2008 em que o sistema financeiro recorreu a medidas excepcionais. Em março de 2020, o Federal Reserve cortou juros para perto de zero e se comprometeu a comprar títulos sem limite definido. Em 12 de março de 2023, reguladores acionaram uma exceção de risco sistêmico para proteger todos os depositantes do Silicon Valley Bank, incluindo valores muito acima do teto de seguro de US$ 250 mil.

De acordo com os números citados no texto, o balanço do Federal Reserve saltou de US$ 0,9 trilhão em setembro de 2008 para US$ 9,0 trilhões em abril de 2022. O crescimento anual do agregado monetário M2 chegou a um pico de 26,8% em fevereiro de 2021, o ritmo mais acelerado da série histórica iniciada em 1960. Já os juros líquidos sobre a dívida federal somaram US$ 1,05 trilhão no ano fiscal de 2026, superando os US$ 965 bilhões destinados à defesa.

Pequenas empresas com pouco fôlego de caixa

Tanguma argumenta que são as pequenas empresas que sentem o impacto com mais intensidade, justamente por operarem com margens de segurança mais estreitas. Uma pesquisa feita nas primeiras semanas das paralisações de 2020 mostrou que a empresa mediana com mais de US$ 10 mil em despesas mensais tinha reservas equivalentes a apenas duas semanas de caixa.

Custos repassados em preços e fechamentos

O artigo usa a carne bovina moída como referência de custo: o preço médio subiu de US$ 3,87 por libra em fevereiro de 2020 para US$ 6,79 em setembro de 2026, uma alta de 76%, contra 30% de avanço acumulado pelo índice geral de preços ao consumidor no mesmo período.

Parte desse custo adicional é repassada aos consumidores. Em setembro, uma proporção líquida de 31% dos donos de pequenos negócios relatou ter aumentado os preços de venda, mais do que o dobro da média histórica de 14% líquidos.

Os fechamentos de estabelecimentos acompanharam essa pressão. Entre o início de 2025 e o início de 2026, o estado de Nova York perdeu um total líquido de 1.928 restaurantes, bares e outros negócios de food service, dos quais 1.102 somente na cidade de Nova York — uma queda mais acentuada, segundo o texto, do que a registrada no primeiro ano da pandemia.

Em nível nacional, o artigo cita que cerca de 948 mil estabelecimentos privados fecharam em 2008, 925 mil em 2019 e 1,23 milhão em 2024, considerando fechamentos antes de descontar novas aberturas. Segundo os dados apresentados, cada ano entre 2022 e 2024 superou o volume de fechamentos registrado em 2008.

O contraste quando o preço é medido em satoshis

O autor observa que o cenário muda quando o preço da carne é medido em satoshis, a menor unidade do bitcoin. Nessa métrica, uma libra de carne moída caiu 79%, de cerca de 40.100 satoshis em fevereiro de 2020 para cerca de 8.400 em setembro de 2026 — reflexo, argumenta Tanguma, do design de oferta fixa de 21 milhões de unidades criado por Satoshi, que nenhum governo ou pacote de resgate pode expandir.

Reserva em dólar perde poder de compra

Para o autor, o outro lado da equação é a reserva de caixa que sustenta uma empresa em um ano ruim, e essa reserva, mantida em dólares, também perde valor. Segundo o texto, o M2 está cerca de 50% maior do que em fevereiro de 2020.

Um índice de preço de carne moída citado no artigo ilustra o ponto: uma empresa com US$ 100 mil em caixa em fevereiro de 2020 poderia comprar cerca de 25.900 libras de carne moída na época. O mesmo valor em dinheiro comprava cerca de 14.700 libras em setembro de 2026, uma redução de 43%. Em relação a uma cesta mais ampla de bens e serviços, esse mesmo caixa passou a ter poder de compra equivalente a cerca de US$ 77.100.

O argumento sobre volatilidade

O artigo reconhece que críticos apontam a volatilidade do bitcoin como obstáculo para empresas com margens apertadas — o ativo caiu 77% entre novembro de 2021 e novembro de 2022, segundo os números citados. Desde então, voltou a superar a máxima registrada em novembro de 2021. Em contraponto, o autor argumenta que o dinheiro em caixa não teve recuperação semelhante: desde fevereiro de 2020, perdeu cerca de 23% de poder de compra frente ao índice geral de preços ao consumidor e 43% frente à carne moída.

A decisão permanece com o empresário

Tanguma conclui que a escolha sobre onde manter o excedente de caixa continua sendo do proprietário do negócio, e que o bitcoin oferece, em sua visão, uma reserva fora do alcance de futuros pacotes de socorro. A CoinDesk publicou uma nota informando que as opiniões expressas no artigo são do autor e não refletem necessariamente a posição da própria CoinDesk, de seus proprietários ou afiliados.

O que isso significa para o investidor

O artigo é, antes de tudo, uma peça de opinião assinada por um executivo do setor cripto, e isso deve pesar na leitura dos números: eles foram selecionados para sustentar uma tese favorável ao bitcoin como reserva de valor, não para oferecer um panorama neutro da economia americana. Ainda assim, os dados de erosão do poder de compra do dólar e de pressão de custos sobre pequenos negócios são pontos que qualquer investidor brasileiro exposto a ativos em dólar ou a negócios próprios nos EUA deveria acompanhar.

Para quem já tem posição em bitcoin, o argumento de oferta fixa de 21 milhões de unidades reforça a narrativa de reserva de valor de longo prazo, mas convive com a volatilidade reconhecida no próprio texto — uma queda de 77% em um intervalo de doze meses é um risco concreto, não hipotético, para quem precisa de liquidez no curto prazo. Segundo cotação da TradingView referente a 31 de outubro de 2026, às 16h21 (horário de Brasília), o bitcoin era negociado a US$ 77.516,76, com alta de 0,44% no dia, patamar que, conforme citado no artigo, já supera a máxima anterior de novembro de 2021.

O ponto prático para investidores e empresários é menos sobre escolher entre dólar e bitcoin e mais sobre entender a composição de uma reserva de caixa em um ambiente de expansão monetária e aumento de gastos com juros da dívida pública americana. Acompanhar indicadores como o M2, o balanço do Fed e os dados de fechamento de pequenas empresas nos próximos trimestres pode ajudar a calibrar quanto de exposição a ativos alternativos faz sentido dentro de uma estratégia de preservação de capital, sem perder de vista que a volatilidade do bitcoin segue sendo o principal contraponto ao argumento apresentado no artigo.

Agregado por AAR News · fonte: CoinDesk

Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos