A Williams-Sonoma aparece entre as ações de varejo com melhor desempenho do ano nos Estados Unidos, mesmo em um cenário de enfraquecimento do mercado imobiliário que costuma pesar sobre as vendas de artigos para o lar. A informação é da CNBC.
Segundo a reportagem, os papéis da companhia acumulavam alta de cerca de 23% no acumulado do ano até a última sexta-feira, superando o índice S&P 1500 Home Furnishings e concorrentes diretos como Wayfair, Arhaus, Ethan Allen e RH, antiga Restoration Hardware.
Em entrevista ao programa 'Mad Money', da CNBC, no fim de agosto, a CEO da Williams-Sonoma, Laura Alber, atribuiu o desempenho ao trabalho conjunto sobre produto, atendimento, qualidade e também sobre a forma como a marca comunica sua proposta ao consumidor. Segundo ela, essa combinação tem atraído novos clientes e feito com que consumidores antigos voltem a comprar das marcas do grupo.
Um setor pressionado pelos juros
A CNBC destaca que a tese de investimento tradicional para o setor de móveis e decoração costuma estar ligada à venda de imóveis: quando famílias compram casas novas, tendem a comprar também mobiliário novo. Nos Estados Unidos, mercado que responde por 96% das vendas da Williams-Sonoma, os consumidores enfrentam um cenário imobiliário fraco, pressionado por juros altos e pela alta de custos de energia e alimentos.
Ainda assim, em um horizonte de três anos, as ações da Williams-Sonoma acumulam valorização superior a 200%, de acordo com os dados citados pela reportagem.
Margens em expansão desde a pandemia
Para a CNBC, parte da explicação está na correção de fundamentos internos do negócio, que reúne, além da marca homônima, redes como Pottery Barn e West Elm. Em 2019, a margem operacional da companhia — indicador-chave de rentabilidade — era de 7,9%. Em 2021, esse número havia subido para 17,6%.
Após o boom imobiliário impulsionado pela pandemia, o mercado perdeu fôlego e as vendas da Williams-Sonoma recuaram na sequência. Ainda assim, a companhia demonstrou aos investidores capacidade de sustentar rentabilidade mesmo em um cenário mais adverso.
Peter Keith, chefe de pesquisa de consumo da Piper Sandler, afirmou à CNBC que a empresa adotou movimentos estratégicos relevantes nesse período, incluindo a redução de promoções e a otimização da cadeia de suprimentos, com entregas diretas ao consumidor. Segundo ele, essas medidas geraram uma expansão de mais de 10 pontos percentuais na margem EBIT da companhia durante os anos mais difíceis do setor.
Esses ajustes continuam surtindo efeito: a receita da Williams-Sonoma somou US$ 7,81 bilhões em 2025, ante US$ 8,25 bilhões em 2021, mas o lucro operacional se manteve praticamente estável entre os dois períodos, segundo os números apresentados pela CNBC.
Crescimento sem depender de promoções
Atualmente, a estratégia da companhia é capturar fatia maior do mercado existente de artigos para o lar sem abrir mão das margens conquistadas. Uma das formas encontradas para isso foi manter a venda de produtos a preço cheio, em contraste com rivais que intensificaram promoções.
Segundo Keith, a ausência de liquidações amplas tende a distribuir o volume de vendas de forma mais uniforme ao longo do tempo, o que também gera efeitos positivos sobre a cadeia de suprimentos e contribui para a expansão de margem.
O comércio eletrônico, geralmente mais rentável do que as lojas físicas, responde por mais de dois terços das vendas da Williams-Sonoma, segundo a reportagem. A empresa também tem recorrido a inteligência artificial para ampliar essa fatia do negócio.
Em teleconferência de resultados de novembro, a companhia informou ter lançado uma assistente de vendas baseada em IA apelidada de 'Olive'. Em agosto, a empresa disse que clientes que interagem com a ferramenta compram a uma taxa três vezes maior do que os demais.
A Williams-Sonoma também utiliza inteligência artificial para reduzir custos na cadeia de suprimentos e nas entregas, segundo declaração do diretor de Tecnologia e Digital, Sameer Hassan, na teleconferência de resultados do primeiro trimestre, em maio.
As vendas para o segmento business-to-business (B2B) também têm sido destaque positivo. No trimestre mais recente, encerrado em agosto, a categoria cresceu quase 15%, com expansão em áreas como navios de cruzeiro, moradias para idosos e alojamentos estudantis. A companhia afirmou acreditar que esse segmento, que hoje responde por cerca de US$ 1 bilhão em vendas anuais, pode dobrar de tamanho nos próximos anos.
A virada da Pottery Barn
Keith avaliou, segundo a CNBC, que o bom desempenho de categorias como velas, almofadas e itens de cozinha ajudou a tornar a companhia menos dependente dos fundamentos do mercado imobiliário. Ainda assim, a linha de móveis continua sendo essencial para várias das marcas do grupo, o que exigiu ajustes específicos.
Entre os anos fiscais de 2022 e 2025, a receita da Pottery Barn, maior marca da Williams-Sonoma, caiu mais de 15%. Na teleconferência do quarto trimestre do ano fiscal de 2025, em março, a companhia reconheceu ter apostado demais em itens de decoração para compensar a queda nas vendas de móveis durante a desaceleração imobiliária pós-pandemia.
No trimestre mais recente, encerrado em agosto, as vendas em mesmas lojas da Pottery Barn subiram 5,1%. Para Keith, esse é um dos pontos mais animadores da companhia atualmente, justamente pela retomada de crescimento da marca.
O risco das tarifas
Apesar do desempenho relativo positivo no setor, a Williams-Sonoma enfrenta desafios ligados à política comercial americana. Mais de 80% das compras de mercadorias da companhia em 2025 vieram de fabricantes estrangeiros, o que a expõe a tarifas de importação.
Em agosto, Laura Alber disse esperar que as tarifas se estabilizem, afirmando que, se permanecerem em um patamar fixo, isso facilitaria a vida de todos os envolvidos, incluindo os investidores da companhia.
A Williams-Sonoma recebeu um reembolso tarifário de US$ 200 milhões depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, em fevereiro, que o presidente Donald Trump não tinha autoridade para impor tarifas com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA).
Segundo Alber, a companhia repassou parte desse valor a fornecedores e destinou US$ 10 milhões para uma contribuição de US$ 1.000 na aposentadoria (401k) de cada funcionário. De acordo com o relatório do segundo trimestre, o valor total reembolsado a fornecedores somou US$ 47,5 milhões.
Diferentemente de outras varejistas, a Williams-Sonoma optou por manter esse reembolso tarifário separado de seus resultados reportados, o que, na avaliação de Keith, reforça a solidez dos fundamentos do negócio.
Segundo o analista da Piper Sandler, a companhia construiu um modelo com múltiplas marcas, cada uma com oportunidades próprias de crescimento, algumas ainda emergentes, combinando lojas físicas e comércio eletrônico em uma abordagem que ele considera uma vantagem competitiva relevante em um setor de móveis descrito como altamente fragmentado.
O que isso significa para o investidor
O caso da Williams-Sonoma ilustra como a execução operacional pode, em determinadas janelas, pesar mais do que o pano de fundo macroeconômico do setor em que uma empresa atua. Mesmo com juros altos pressionando o mercado imobiliário americano — fator historicamente correlacionado à demanda por móveis —, a companhia sustentou expansão de margem e ganhos de participação em receita, segundo os dados apresentados pela CNBC.
Para quem acompanha ações de varejo listadas nos Estados Unidos, episódios como esse reforçam a importância de olhar para indicadores de margem operacional e mix de vendas (online versus loja física, B2B versus varejo tradicional), e não apenas para o ciclo macro do setor. A dependência de fornecedores estrangeiros, no entanto, mantém a companhia exposta a decisões judiciais e políticas sobre tarifas nos EUA, tema que segue em aberto e que Alber classificou como fator a ser monitorado de perto.
Vale notar que o desempenho da Williams-Sonoma ocorre em um momento de estabilidade relativa do mercado acionário americano como um todo: o S&P 500 era cotado a 7.650,50 pontos, com alta de 0,17% no dia, às 15h12 (horário de Brasília) de 20 de setembro de 2026, segundo dados de scanner da TradingView. Nesse contexto, o descolamento da Williams-Sonoma frente ao índice de móveis e a concorrentes diretos tende a ser lido pelo mercado como sinal de execução diferenciada, e não apenas de fluxo geral para o setor.
Para investidores brasileiros com exposição a ETFs ou ações internacionais ligadas a varejo e consumo discricionário nos EUA, o episódio reforça a necessidade de avaliar caso a caso a qualidade da gestão e a diversificação de marcas dentro de um mesmo grupo, especialmente em setores sensíveis a juros e câmbio, como o de bens duráveis para o lar.
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