O rendimento do título do Tesouro americano de 10 anos voltou a negociar no nível de 5% nesta quarta-feira, após o Federal Reserve elevar a taxa básica de juros e o presidente do banco central, Kevin Warsh, destacar que os riscos inflacionários permanecem elevados. A taxa de referência do mercado de renda fixa encerrou praticamente estável em 5,008%.
O movimento ocorreu depois de o Fed aumentar seu juro de referência para a faixa de 3,75% a 4%, saindo do intervalo de 3,5% a 3,75%. Foi a primeira alta em três anos. O rendimento do Treasury de 2 anos subiu 5 pontos-base para 4,717%, revertendo queda registrada mais cedo no pregão. Um ponto-base equivale a 0,01%, e rendimentos e preços de títulos se movem em direções opostas.
Em comunicado, o comitê de política monetária do Fed afirmou que a inflação permanece elevada. A ação de política de hoje apoiará um retorno mais oportuno à meta de 2 por cento do Comitê, disse o Federal Open Market Committee.
O anúncio desta quarta-feira acontece após forte alta nos preços do petróleo, impulsionada por escaladas na guerra entre Estados Unidos e Irã. Esses preços elevados de energia começaram a aparecer nos relatórios recentes de inflação, incluindo os números do índice de preços ao consumidor de agosto.
Em coletiva de imprensa, Warsh reforçou a preocupação com a trajetória dos preços. As leituras de inflação deste verão não me dizem que as tendências subjacentes melhoraram de forma significativa, afirmou o presidente do Fed. A inflação está alta demais e tem estado assim por tempo demais, acrescentou.
Os dados quentes de inflação pressionaram a ponta longa da curva de juros do Tesouro nas últimas semanas, levando o rendimento do Treasury de 10 anos a atingir na terça-feira o maior nível desde 2007.
Expectativa de ciclo moderado
Kay Haigh, chefe global e CIO de renda fixa e soluções de liquidez da Goldman Sachs Asset Management, avaliou que o Fed sinalizou não prever neste estágio um ciclo agressivo de aperto monetário. A maioria dos membros do FOMC vê um total de duas altas este ano de acordo com o SEP, e o banco central provavelmente pulará a reunião de outubro dada sua proximidade com as eleições de meio de mandato, disse.
Haigh apontou que uma alta adicional em dezembro é o cenário-base da gestora, embora isso permaneça contingente aos próximos relatórios de CPI e à trajetória dos preços de energia.
O que isso significa para o investidor
A volta do rendimento do Treasury de 10 anos ao patamar de 5% confirma o cenário de taxas estruturalmente mais altas que o AAR vem acompanhando desde a semana passada. Como reportamos em 14 de setembro, o mercado já precificava em 92,3% a chance de alta nesta reunião — a decisão em si não surpreendeu, mas a firmeza do discurso de Warsh sobre inflação persistente reforça que o Fed não pretende sinalizar pausa ou pivô no curto prazo.
Para quem investe no Brasil, a combinação de juros americanos elevados e retórica hawkish do Fed mantém pressão sobre ativos de risco emergentes. Fluxos tendem a favorecer a renda fixa americana enquanto a incerteza sobre a trajetória da inflação nos EUA persistir, especialmente com o componente energia ainda volátil por conta do conflito no Oriente Médio.
O fato de a curva americana ter reagido de forma contida — com o rendimento de 10 anos praticamente estável e o de 2 anos subindo apenas 5 pontos-base — sugere que o mercado já havia incorporado boa parte do movimento. A questão agora é se os próximos dados de CPI confirmarão a visão de Warsh de que as tendências subjacentes não melhoraram, o que abriria espaço para a segunda alta do ano em dezembro.
Investidores devem acompanhar os relatórios de inflação de setembro e outubro, além da evolução dos preços do petróleo. Se a energia recuar e o núcleo da inflação mostrar desaceleração, o Fed pode de fato pausar após dezembro. Caso contrário, o ciclo de aperto pode se estender para 2027, mantendo a pressão sobre bolsas e crédito tanto nos EUA quanto em mercados emergentes como o brasileiro.
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