O Banco da Inglaterra decidiu manter a taxa básica de juros em 3,75% nesta quinta-feira, mesmo com a inflação britânica bem acima da meta de 2%. A instituição, no entanto, deixou claro que um aumento se torna cada vez mais provável nas próximas reuniões.
O Comitê de Política Monetária (MPC) votou por 6 a 3 pela manutenção da taxa. Os três votos divergentes defendiam uma elevação de 25 pontos-base, para 4%. Segundo dados da LSEG, o mercado precificava 76% de chance de que o banco mantivesse os juros inalterados nesta reunião, mas já projeta com ampla probabilidade um aumento de pelo menos 25 pontos-base no encontro de novembro.
Reino Unido destoa dos pares internacionais
A decisão britânica marca uma divergência em relação a outros grandes bancos centrais. O Federal Reserve americano anunciou na quarta-feira um aumento de um quarto de ponto percentual, o primeiro desde 2023, sob a liderança do presidente Kevin Warsh. Na semana anterior, o Banco Central Europeu havia elevado os juros pela segunda vez neste ano, após ter feito, em junho, seu primeiro aumento em três anos. O Banco do Japão, por sua vez, era esperado para subir sua taxa básica ao fim de uma reunião de dois dias marcada para sexta-feira.
Em comunicado, o governador do BoE, Andrew Bailey, afirmou que, até o momento, o encarecimento global de energia teve efeito limitado sobre preços e salários no Reino Unido. Ele ponderou, contudo, que quanto mais essa volatilidade persistir, maior será o impacto sobre a inflação — e maior a probabilidade de que o banco precise elevar a taxa básica para garantir o retorno da inflação à meta de 2%.
Os argumentos dos dissidentes
Os membros do MPC que votaram pela alta citaram a incerteza gerada pela guerra no Irã e a necessidade de antecipar seus possíveis efeitos econômicos. Catherine Mann, integrante do comitê e ex-economista-chefe global do Citibank, argumentou que os riscos de alta para a inflação aumentaram desde julho, quando ela já havia votado a favor de um aperto. Segundo ela, a continuidade intermitente do conflito elevou os preços de energia bem acima da base projetada no relatório de julho, com a previsão de curto prazo do BoE apontando o índice de preços ao consumidor acima de 4% no início de 2027.
Mann afirmou ainda que elevar a taxa básica é uma estratégia de gestão de risco mais adequada diante da incerteza sobre a dinâmica inflacionária e possíveis efeitos de segunda ordem, já que essa postura evitaria um cenário pior, no qual a inflação se torna persistente e exige um aperto ainda mais rígido no futuro.
Megan Greene, outra dissidente, apontou incertezas sobre a extensão dos efeitos de segunda ordem da guerra no Irã, restrições de oferta ligadas à inteligência artificial e o fenômeno climático El Niño como fontes adicionais de pressão inflacionária. O terceiro voto pela alta veio de Huw Pill, para quem elevar os juros enviaria um sinal claro do compromisso do comitê com a estabilidade de preços em meio à névoa do conflito geopolítico e do ruído nos dados. Pill afirmou que agir de forma decisiva agora reduziria a necessidade de reverter pressões inflacionárias já consolidadas mais adiante.
Inflação no Reino Unido chega a 3,1% em agosto
O BoE não alterava sua taxa desde dezembro, quando havia votado por um corte de 25 pontos-base. Dados divulgados na quarta-feira mostraram que a inflação britânica subiu a 3,1% em agosto, primeira vez acima de 3% desde março. Segundo o Escritório Nacional de Estatística (ONS), a alta foi impulsionada majoritariamente pelo custo dos combustíveis, que subiu 23% na comparação anual.
Como importador líquido de energia, o Reino Unido é particularmente vulnerável a choques externos no setor, e o país ainda enfrenta uma crise de custo de vida herdada da inflação pós-pandemia e dos efeitos da guerra na Ucrânia sobre o fornecimento de gás natural.
Pressão sobre os títulos públicos britânicos
As preocupações globais com inflação, a instabilidade política e as dúvidas sobre a política fiscal britânica têm pressionado os chamados gilts, os títulos do governo do Reino Unido, ao longo deste ano. O país tem o maior custo de captação entre os membros do G7, com os rendimentos de seus títulos de 20 e 30 anos se aproximando da marca de 6%.
Após o anúncio da decisão, os rendimentos dos gilts recuaram: o título de referência de 10 anos caiu 4 pontos-base, para 5,2473%, enquanto o de 30 anos cedeu cerca de 7 pontos-base, para 5,7932%.
Scott Gardner, estrategista de investimentos da J.P. Morgan Personal Investing, avaliou em nota que o banco central está ganhando tempo. Segundo ele, apesar da inflação cheia ter subido ao longo do verão, o mercado de trabalho continua a se enfraquecer, enquanto os núcleos de inflação e a inflação de serviços — indicadores mais observados — permaneceram relativamente resistentes desde o início do conflito no Oriente Médio. Gardner ponderou que, até agora, a economia britânica ficou majoritariamente isolada dos efeitos do conflito, à exceção das contas de energia mais altas, mas que quanto mais a guerra se prolongar, mais difícil será sustentar essa resiliência.
Neil Birrell, diretor de investimentos da Premier Miton, comentou em nota que o BoE parece mais relaxado em relação aos riscos inflacionários do que seus pares internacionais, ainda que o próprio mercado já esteja precificando o custo de captação por conta própria. Diante da expectativa de novas altas de juros até o fim deste ano e meados do próximo, segundo Birrell, o mercado de gilts pode ficar mais suscetível a um movimento na direção oposta.
O que isso significa para o investidor
A decisão do BoE reforça um cenário de descompasso entre os principais bancos centrais: enquanto Fed, BCE e Banco do Japão avançam com apertos monetários, o Reino Unido opta por esperar mais um ciclo antes de agir. Como mostrou a cobertura do AAR News em 16 de setembro, o rendimento do Treasury de 10 anos voltou à marca de 5% após o Fed elevar juros e o presidente Kevin Warsh alertar que a inflação americana segue elevada — um pano de fundo que já pressiona o custo de capital global e tende a se refletir também nos mercados britânicos.
Para quem investe em ativos britânicos ou expostos à libra, a sinalização de alta praticamente certa em novembro, somada aos votos dissidentes que já defendiam o aperto agora, aponta para uma trajetória de juros mais altos pela frente. Isso tende a manter pressão sobre o mercado de gilts, especialmente nos vencimentos mais longos, que já operam com os maiores custos de captação entre os países do G7.
O recuo imediato dos rendimentos de 10 e 30 anos após o anúncio sugere que parte do mercado já havia precificado a manutenção da taxa, mas as próprias falas de gestores citados — como Gardner e Birrell — indicam que essa acomodação pode ser temporária. Vale acompanhar os próximos dados de inflação e de mercado de trabalho no Reino Unido, além do desdobramento do conflito no Irã, fatores que o próprio comitê do BoE citou como determinantes para a decisão de novembro.
Agregado por AAR News · fonte: CNBC
Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos