Bancos dos Estados Unidos começaram a endurecer critérios de concessão de crédito diante de preocupações crescentes com a saúde subjacente da economia, segundo um levantamento divulgado pelo Federal Reserve, conforme noticiado pela CNBC.
A pesquisa trimestral do Fed sobre práticas e padrões de concessão de empréstimos bancários, referente a outubro, foi publicada em 2 de novembro e mostrou um cenário de crédito desigual no terceiro trimestre, com pequenas empresas, famílias mais arriscadas e o segmento de imóveis comerciais enfrentando um aperto mais acentuado nas condições de financiamento, de acordo com a CNBC.
O estudo reuniu respostas de 61 bancos domésticos e 18 filiais americanas de instituições financeiras estrangeiras, e cobriu mudanças em padrões, termos e demanda por crédito ao longo do terceiro trimestre, segundo a reportagem. A CNBC destaca que a pesquisa acompanha padrões relatados de concessão, termos e demanda — não o volume efetivo de empréstimos — funcionando como um retrato da evolução das condições e do sentimento de crédito.
Pequenas empresas sentem o aperto
O crédito comercial e industrial destinado a empresas grandes e de médio porte ficou praticamente estável em relação à pesquisa anterior, mas os bancos apertaram as condições para empresas menores, segundo o material da CNBC.
O relatório citado pela reportagem aponta que os bancos informaram ter elevado os prêmios cobrados sobre empréstimos mais arriscados para companhias de todos os portes. Os credores atribuíram essa mudança a uma perspectiva econômica menos favorável ou mais incerta, além da piora de problemas específicos de determinados setores.
O setor de imóveis comerciais também desponta como ponto de pressão, segundo a CNBC: os bancos relataram padrões mais rígidos em praticamente todas as categorias — construção e desenvolvimento de terrenos, propriedades não residenciais e imóveis multifamiliares — além de demanda mais fraca por crédito em todas essas modalidades.
Bancos americanos também restringiram o acesso ao crédito para instituições financeiras não bancárias, como fundos de private equity e intermediários de crédito empresarial e hipotecário. Segundo a reportagem, esse recuo ocorre em meio à demanda crescente por liquidez vinda desses fundos e intermediários, com os credores voltando a mencionar a incerteza econômica predominante e a preocupação com a deterioração da saúde financeira desses tomadores.
Crédito às famílias fica mais seletivo
O sentimento em relação ao crédito para famílias aparece misto, de acordo com o material. Os padrões para hipotecas em geral permaneceram praticamente inalterados, mas houve alguma flexibilização nas linhas hipotecárias de maior valor (jumbo), ao mesmo tempo em que as regras ficaram mais rígidas para empréstimos subprime — tudo isso enquanto os bancos relataram demanda mais fraca, de forma geral, em todas as categorias de crédito imobiliário residencial.
Segundo o relatório citado pela CNBC, os bancos informaram estar mais dispostos a aprovar pedidos de cartão de crédito de tomadores super-prime e prime, e menos dispostos a aprovar solicitações de tomadores subprime, com os bancos de menor porte liderando essa tendência mais restritiva para o segmento subprime.
O aperto ocorre em um contexto de custos de financiamento substancialmente mais altos ao longo do terceiro trimestre. A reportagem lembra que o rendimento do título do Tesouro de 10 anos — referência central para hipotecas, financiamento de veículos e dívidas de cartão de crédito — atingiu uma máxima intradiária de 5,349% em 5 de outubro, o maior patamar desde abril de 2002, em meio a preocupações com o crescimento da dívida pública americana.
Tiffany Wilding, diretora administrativa e economista da PIMCO, afirmou que pequenas empresas, o mercado imobiliário e empresas mais endividadas enfrentam crédito mais restrito e custos de captação mais altos à medida que o boom de investimentos em inteligência artificial pressiona outras partes da economia americana, segundo a CNBC.
Em nota de 28 de outubro citada pela reportagem, Wilding afirmou que "rendimentos mais altos dos títulos do governo catalisaram uma reprecificação mais ampla do risco de crédito, especialmente para tomadores de qualidade inferior".
Os sinais de estresse de crédito entre famílias mais arriscadas dialogam com uma pesquisa da CNBC em parceria com a SurveyMonkey, que constatou que um em cada cinco americanos que alugam imóvel ou pagam hipoteca destina ao menos metade de sua renda bruta à moradia, enquanto 49% gastam entre 25% e 49% da renda com esse item. A orientação usual de credores recomenda que consumidores destinem entre 28% e 30% da renda à moradia, segundo a reportagem.
Um relatório separado do Federal Reserve, a Pesquisa de Finanças do Consumidor mais recente, divulgado em 9 de outubro, indicou que a capacidade das famílias americanas de honrar dívidas piorou ao longo dos últimos três anos. Segundo esse levantamento citado pela CNBC, o percentual de famílias em atraso com pagamentos de empréstimos no fim de 2025 chegou a quase 20%, ante cerca de 12% registrados na pesquisa anterior, de 2022.
O que isso significa para o investidor
O conjunto de sinais apontado pela pesquisa do Fed sugere um ambiente de crédito mais seletivo nos Estados Unidos, com efeitos desiguais entre setores e perfis de tomador. Para quem investe em ativos ligados à economia americana, a leitura qualitativa é clara: pequenas empresas, imóveis comerciais e famílias de menor qualidade de crédito tendem a enfrentar condições de financiamento mais apertadas justamente num momento em que os custos de captação subiram de forma expressiva, como mostrou a disparada do rendimento do título de 10 anos em outubro.
Vale observar que o aperto não é uniforme: grandes empresas, tomadores prime e hipotecas jumbo seguem com acesso relativamente mais fácil ao crédito, enquanto o estresse se concentra nas pontas mais vulneráveis do sistema. Essa dualidade pode ter implicações para a seleção de ativos e setores expostos ao mercado americano, especialmente aqueles ligados a pequenas e médias empresas, crédito ao consumidor subprime e imóveis comerciais.
Do lado macro, a combinação entre aperto de crédito seletivo e aumento do atraso em pagamentos de famílias — tema abordado pela própria Pesquisa de Finanças do Consumidor do Fed — reforça a importância de acompanhar os próximos dados de inadimplência e de demanda por crédito nos EUA. Investidores brasileiros com exposição a ativos americanos, fundos multimercado globais ou papéis atrelados ao ciclo de crédito dos EUA devem monitorar as próximas edições da pesquisa do Fed e a trajetória dos juros de longo prazo americanos como termômetros de risco.
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