Um verão de incêndios florestais extensos e ondas de calor prolongadas expôs a vulnerabilidade da economia espanhola às mudanças climáticas, segundo reportagem da BBC. O impacto atinge diretamente dois setores estruturais do país: a agropecuária e o turismo.
Na Serra de Gredos, a oeste de Madri, o agricultor Juan Ángel Izquierdo relata à BBC que sua família cria gado na região há 200 anos e nunca havia presenciado um incêndio como o de julho. O fogo se uniu a outros dois focos e consumiu cerca de 80 mil hectares, tornando-se, segundo a reportagem, o maior incêndio já registrado na Espanha.
Incêndios florestais e perdas para a agropecuária
O incêndio destruiu mais de dois terços das terras de Izquierdo, matou 12 de suas 85 vacas e obrigou o abate de outras oito, feridas. Todo o feno armazenado para alimentar o rebanho no inverno também foi perdido. Ele diz à BBC que os verões estão cada vez mais preocupantes para os agricultores, porque ficam mais quentes, chove menos, a estação úmida termina mais cedo e o outono começa mais tarde.
Segundo Izquierdo, o medo da propagação dos incêndios tornou-se rotina: quando um fogo começa em uma vila vizinha, surge a dúvida sobre se a próxima área atingida será a sua.
A organização de pesquisa internacional World Weather Attribution concluiu que as condições extremas que impulsionaram os incêndios recordes na Espanha e em Portugal em 2025 ficaram 40 vezes mais prováveis por causa do aquecimento climático. Ernesto Rodríguez Camino, presidente da Associação Espanhola de Meteorologia, afirmou à BBC que a maior frequência e intensidade desses incêndios deve ser atribuída ao aumento de gases de efeito estufa, causado principalmente pelo uso generalizado de combustíveis fósseis.
O primeiro-ministro socialista, Pedro Sánchez, tratou o tema em termos dramáticos, colocando a Espanha na linha de frente de uma crise ambiental. Em julho, durante visita à província de Almería, no sul do país, onde um incêndio matou 15 pessoas, ele declarou que a emergência climática mata.
Segundo o Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), cerca de 300 mil hectares foram queimados na Espanha neste ano, aproximadamente metade do total afetado em toda a União Europeia. Nos últimos 40 anos, os danos causados por incêndios no país superaram 200 mil hectares em oito ocasiões, sendo três delas a partir de 2022.
A associação de seguros agrícolas Agroseguro estimou que 16 mil hectares de plantações haviam sido destruídos até meados de agosto deste ano, um golpe significativo para o setor agroalimentar espanhol, que responde por 9% do PIB do país.
As autoridades regionais de Castilla y León, área mais afetada pelo grande incêndio próximo a Madri neste ano, oferecem compensações entre 5.500 e 25 mil euros por agricultor, conforme o dano sofrido. Izquierdo, no entanto, estima que o valor cobrirá menos da metade de suas perdas.
Calor recorde ameaça o turismo
Durante décadas, o clima quente da Espanha foi um ativo para um de seus maiores setores econômicos, o turismo. Resorts ensolarados ao longo da costa mediterrânea e nas ilhas Baleares e Canárias impulsionaram o país como polo turístico global. Neste ano, a expectativa é que cerca de 100 milhões de estrangeiros visitem a Espanha, tornando-a o segundo país mais visitado do mundo, atrás apenas da França.
Há sinais, porém, de que o calor começa a afastar viajantes. Um estudo da Universidade Rey Juan Carlos, de Madri, identificou o calor extremo como fator de desestímulo a potenciais visitantes. Segundo a economista María Dolores Sánchez, coautora do estudo, ondas de calor reduzem o número de pernoites nos destinos analisados e também derrubam as chegadas de turistas de alguns dos principais mercados emissores da Espanha. Ela destaca à BBC que o turismo representa 13% do PIB espanhol, o que poderia gerar repercussões de médio prazo na competitividade do país.

A cidade medieval de Toledo, próxima a Madri, registrou temperaturas acima de 40°C em diversos dias neste verão. Longe do litoral, mas conhecida por sua história e ruas estreitas, a cidade atrai visitantes que buscam alternativa às praias espanholas — mas o calor deste verão testou os limites dos turistas, com o país registrando 61 dias de ondas de calor que se estenderam até o início de setembro.
O guia turístico Diego Esteban, da empresa Visit Toledo, relata à BBC que se tornou difícil conduzir passeios no verão e que é preciso adaptação, tanto por parte de quem trabalha no turismo quanto dos moradores locais. Ele passou a incluir paradas frequentes, distribuição de água e roteiros com mais sombra, mas defende a criação de mais bebedouros e áreas sombreadas na cidade. Segundo ele, o calor já muda o calendário turístico, atraindo mais visitantes nos meses mais frescos da primavera e do outono.
O aquecimento dos verões também estimulou a chamada tendência de "coolcation", em que viajantes espanhóis buscam regiões mais frias para as férias, tipicamente no norte do país.
Secas e restrições de água
Outra consequência do aquecimento climático na Espanha foi a seca. Em 2024, após três anos de chuvas mínimas, a região da Catalunha, no nordeste do país, chegou a impor restrições rígidas ao uso de água, incluindo redução de 25% para a indústria e de 80% para a irrigação agrícola. Chuvas intensas desde então permitiram suspender as restrições, mas a seca deixou impacto relevante na economia local.
Enchentes mortais em Valência
O fenômeno natural mais dramático e trágico enfrentado pela Espanha nos últimos anos foram as enchentes repentinas que mataram 237 pessoas no leste do país em outubro de 2024, concentradas na região de Valência. O grupo espanhol de pesquisa meteorológica Climatoc-Lab descreveu o episódio como uma manifestação de como o aquecimento global altera o ciclo hidrológico.
A Câmara de Comércio de Valência estimou os danos diretos causados pelas enchentes em 4,5 bilhões de euros. Milhares de empresas foram afetadas, algumas literalmente arrastadas pela água, enquanto outras conseguiram retomar operações após um longo processo de recuperação.
Laura Llácer Álvarez, gerente da federação de parques industriais Fepeval, na região de Valência, descreveu à BBC o episódio como um desastre tanto em termos de vidas perdidas quanto de impacto sobre empresas, trabalhadores, empregadores e a população em geral.
A posição geográfica da Espanha, somada a seu clima e topografia, torna o país incomumente vulnerável ao aumento das temperaturas globais. A organização ambiental independente Germanwatch classificou a Espanha como o 20º país mais afetado do mundo em seu índice de risco climático de 2024, logo atrás de Nigéria e Mali.
O que isso significa para o investidor
Os episódios climáticos relatados atingem diretamente dois setores que, juntos, respondem por parcela expressiva do PIB espanhol: agropecuária, com 9%, e turismo, com 13%, segundo os dados citados na reportagem. Para investidores expostos a ativos ligados a esses setores — cadeias agroalimentares, hotelaria, transporte turístico e seguradoras — o padrão de eventos extremos recorrentes (incêndios recordes, secas regionais, ondas de calor prolongadas e enchentes catastróficas) sinaliza um risco estrutural que já se manifesta em números concretos de perdas e compensações.
O caso da Catalunha mostra que restrições hídricas podem afetar diretamente a operação industrial e agrícola, com cortes de até 80% no fornecimento para irrigação em períodos de seca severa. Já o episódio de Valência, com 4,5 bilhões de euros em danos diretos segundo a Câmara de Comércio local, ilustra o potencial de choques pontuais sobre cadeias produtivas regionais e sobre o mercado segurador.
Para quem acompanha o mercado espanhol e europeu de turismo e agronegócio, vale monitorar como seguradoras como a Agroseguro ajustam apólices e prêmios diante de perdas recorrentes, e como o calendário turístico se adapta — com deslocamento de demanda para primavera, outono e destinos mais frios, conforme observado por operadores locais citados pela BBC. Esses movimentos podem redesenhar sazonalidade de receita em companhias hoteleiras e de transporte, um fator relevante para teses de investimento de médio prazo no setor de viagens europeu.
Agregado por AAR News · fonte: BBC
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