Dallas consolidou-se nos últimos anos como um novo centro do setor financeiro americano, apelidado por parte do mercado de 'Y'all Street'. Segundo reportagem da CNBC, grandes bancos como Goldman Sachs, Morgan Stanley e JPMorgan Chase anunciaram planos de expansão de escritórios e contratações na região.
Esse movimento se soma a uma tendência mais ampla de crescimento corporativo no Texas, estado que hoje concentra o maior número de empresas listadas na Fortune 500 entre os estados americanos, além de viver um forte crescimento populacional, de acordo com a matéria.
Impostos baixos, regras mais leves e atrito com Delaware
A reportagem destaca que a combinação histórica de impostos reduzidos e regulação mais branda sempre atraiu empresas para o Texas. Mais recentemente, esforços para tornar o ambiente de negócios ainda mais favorável têm ganhado força entre executivos e companhias que criticam interpretações jurídicas vindas de Delaware — casos citados incluem Elon Musk e a ExxonMobil.
Nesse contexto, Dallas deu um novo passo rumo à posição de polo corporativo com a abertura, neste verão do hemisfério norte, da Texas Stock Exchange (TXSE), que recebeu apoio de grandes investidores institucionais globais, como BlackRock, Citadel e Charles Schwab, segundo a CNBC.
Westwood aposta na nova bolsa
Brian Casey, CEO da Westwood Holdings Group, gestora de ativos sediada em Dallas e investidora da TXSE, disse à CNBC estar 'muito otimista' ('very bullish') com o que está acontecendo na bolsa. Ele credita a políticos e líderes empresariais do Texas o trabalho conjunto que tornou o estado mais atrativo.
Segundo Casey, a localização geográfica pesa a favor: 'estamos no centro do país', com um dos aeroportos mais movimentados do mundo, permitindo viagens de ida e volta no mesmo dia para qualquer uma das costas americanas. Ele também citou o fortalecimento dos tribunais empresariais do Texas e a codificação da regra do julgamento de negócios ('business judgment rule') como fatores que tornaram mais barato e simples abrir capital no estado.
A reportagem cita exemplos concretos dessa migração: a empresa de dutos Energy Transfer e a distribuidora de combustíveis Sunoco anunciaram a transferência de suas listagens da NYSE para a TXSE. A varejista Dillard's também informou que fará a mesma mudança, após reincorporar-se no Texas em 2025.
Primeiro ETF da nova bolsa mira o ecossistema de energia da IA
A Westwood também está participando ativamente da nova estrutura de mercado ao lançar o Westwood Salient Enhanced Power & Infrastructure ETF, o primeiro novo ETF da TXSE. O fundo se soma a outros produtos da gestora já listados na NYSE e na Nasdaq — a própria Westwood tem ações negociadas na NYSE.
Segundo a matéria, o debate sobre segurança e eventual desaceleração no desenvolvimento da inteligência artificial tornou o chamado 'AI trade' mais complexo, mas a crença de fundo no setor não mostra sinais de arrefecimento. A reportagem lembra que essa confiança ajudou a tornar a Nvidia a empresa de capital aberto mais valiosa do mundo e impulsionou os gastos das grandes techs em IA para mais de US$ 750 bilhões neste ano.
Casey afirmou que, embora boa parte da atenção dos investidores tenha se concentrado em empresas de grande capitalização e fabricantes de chips, o ecossistema de energia necessário para sustentar essa infraestrutura é agora o ponto de investimento mais relevante. Foi essa leitura que levou a Westwood a criar o novo ETF, que investe em toda a cadeia de energia — de utilities tradicionais a infraestrutura de rede e tecnologias de próxima geração.
'É super interessante pensar no que aconteceu nos últimos três anos. Era tudo sobre quem consegue construir o chip mais rápido, quem vai escalar o maior hyperscaler. Era tudo sobre demanda, e há uma demanda insaciável por poder computacional', disse Casey à CNBC. Ele acrescentou que cada unidade de poder computacional gerada arrasta consigo uma infraestrutura necessária considerável, incluindo grandes turbinas a gás, sistemas de resfriamento a água e mão de obra qualificada para construir essas instalações.
Um ciclo de investimento de dez anos
Casey estimou que esse boom de energia representará uma 'construção de dez anos', exigindo investimentos superiores a US$ 600 bilhões. Segundo ele, serão necessários 50 gigawatts de potência até 2030 para atender data centers, enquanto há 2.000 gigawatts na fila de interconexão tentando se conectar à rede elétrica atualmente — números que, segundo o executivo, ilustram os desafios enfrentados pela infraestrutura de energia existente.
'Você chega a um ponto em que não precisa realmente de um chip mais rápido', afirmou Casey à CNBC. 'Você já tem o chip mais rápido que precisa, mas quando se trata de energia e tudo que vem junto, você não consegue apertar um botão e construir isso da noite para o dia. Leva anos e anos e anos.'
Casey também destacou o simbolismo de uma gestora sediada em Dallas, com equipe de energia baseada em Houston, lançar um ETF focado em energia justamente na bolsa de Dallas — um momento que, em suas palavras, reflete 'o próximo capítulo dos mercados de capitais americanos'. Ele resumiu o cenário afirmando que Texas e Dallas vivem 'um verdadeiro milagre econômico'.
O que isso significa para o investidor
Para o investidor brasileiro, o episódio ilustra dois movimentos que merecem acompanhamento simultâneo: a disputa entre praças de listagem nos Estados Unidos — com Texas tentando roubar protagonismo de Delaware e da NYSE — e a continuidade do apetite por ativos ligados à infraestrutura de energia que sustenta a expansão da inteligência artificial. Migrações de listagem como as de Energy Transfer, Sunoco e Dillard's para a TXSE são um sinal a monitorar, especialmente se outras companhias seguirem o mesmo caminho.
O lançamento de um ETF dedicado ao ecossistema de energia da IA reforça uma tese que já vinha ganhando espaço entre gestores: o gargalo do setor pode não estar mais apenas nos chips, mas na capacidade de gerar e distribuir energia para os data centers. Isso amplia o universo de ativos relevantes para quem monitora o tema de IA, para além das big techs e fabricantes de semicondutores.
Vale lembrar que essas declarações partem do próprio CEO de uma gestora com interesse direto tanto na TXSE quanto no ETF lançado, o que pede cautela na leitura das projeções de investimento citadas. Ainda assim, o pano de fundo mais amplo — gastos bilionários das megacaps em IA e a valorização recorde da Nvidia — ajuda a explicar por que o mercado americano de ações de tecnologia segue em patamares elevados: o Nasdaq operava em alta de 0,48% no dia, aos 27.068,72 pontos, conforme scanner da TradingView às 15h37 (horário de Brasília) de 26 de setembro de 2026.
Para quem acompanha o tema por aqui, o desenrolar da disputa entre bolsas americanas e a evolução de ETFs ligados a energia e infraestrutura de IA são pontos a monitorar nos próximos meses, tanto pelo potencial de novos produtos chegarem a investidores globais quanto pelo que sinalizam sobre onde os grandes gestores enxergam valor na cadeia da inteligência artificial.
Agregado por AAR News · fonte: CNBC
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