Mercados · Trabalho & Tecnologia

Boom de data centers gera onda de empregos manuais, mas reação pública ameaça o ritmo

Eletricistas, soldadores e técnicos de HVAC vivem alta de demanda com a expansão da infraestrutura de IA, enquanto oposição local e freios políticos colocam projetos em risco, segundo reportagem da CNBC

Boom de data centers gera onda de empregos manuais, mas reação pública ameaça o ritmo
CNBC

Ler na fonte → CNBC

A narrativa dominante sobre inteligência artificial costuma girar em torno de quais profissões serão substituídas pela tecnologia. Mas, segundo reportagem da CNBC, há um lado oposto dessa história: a construção e a manutenção da infraestrutura que sustenta gigantes como Anthropic, Meta, Amazon e OpenAI estão gerando uma onda de contratações em ofícios manuais, da eletricidade à tubulação industrial.

O levantamento aponta que essa demanda vai muito além dos próprios data centers, abrangendo também a modernização da rede elétrica e do sistema de transporte que os cerca. Maria Flynn, presidente e CEO da organização nacional sem fins lucrativos Jobs for the Future, descreve esse conjunto de ocupações como cada vez mais central para a economia ligada à IA, destacando que múltiplas frentes de demanda estão convergindo ao mesmo tempo.

Empregos que a IA está criando na base da cadeia produtiva

Segundo a reportagem, a construção e a manutenção dos data centers exigem uma nova geração de técnicos de HVAC, operários de construção civil, eletricistas de linha e tubulistas (pipefitters). Flynn afirma que um técnico em nível de aprendiz pode receber entre 40 mil e 60 mil dólares anuais, enquanto eletricistas experientes ultrapassam os 100 mil dólares.

Justin Sinkovich, professor associado e diretor associado da Escola de Negócios e Empreendedorismo do Columbia College Chicago, argumenta que o discurso convencional sobre substituição de empregos pela IA é incompleto. Em sua leitura, ainda que a IA automatize parte do trabalho, sua implantação depende da construção de infraestrutura física — subestações, sistemas de resfriamento, redes de água e tubulação — que a própria IA não consegue erguer sozinha.

Sinkovich cita efeitos já visíveis no mercado de trabalho, com aumento da demanda por engenheiros de resfriamento e HVAC, técnicos de automação industrial e trabalhadores de ofícios tradicionais, como operários de construção e eletricistas, além de relatar prêmios salariais para profissionais técnicos que migram para funções em data centers.

Como exemplo concreto, ele menciona projetos no estado da Louisiana: a Amazon comprometeu 12 bilhões de dólares em um novo data center com 540 vagas no local, incluindo 1.700 posições entre eletricistas, técnicos e pessoal de segurança, enquanto o projeto Hyperion da Meta no mesmo estado soma 27 bilhões de dólares em investimento. Para Sinkovich, esse tipo de obra gera trabalho local que não pode ser terceirizado para o exterior nem realizado remotamente, ao contrário do que ocorre em manufatura e software.

O professor também aponta uma história de mais longo prazo, ligada à possibilidade de a IA viabilizar sistemas de energia mais descentralizados e dinâmicos, o que tende a melhorar a eficiência energética e a criar trabalho adicional na construção de controles inteligentes, sistemas de baterias, microrredes e infraestrutura de energia distribuída.

Salários em alta, mas com forte desigualdade regional

Nicole Bachaud, economista do trabalho no marketplace de empregos online ZipRecruiter, identifica salários ainda mais elevados em funções especializadas de alta qualificação. Segundo ela, o salário mínimo médio anunciado para vagas em data centers saltou 125,1% na comparação anual, chegando a quase 208 mil dólares — um movimento que, em sua avaliação, é puxado por cargos de engenharia altamente especializados no topo da pirâmide salarial.

Entre os trabalhadores de colarinho azul tradicionais, que também registram ganhos — caso dos caminhoneiros —, os maiores beneficiados, segundo os dados de Bachaud, são soldadores e tubulistas, com vagas anunciadas crescendo 164% na comparação anual. A economista pondera que parte desse salto pode refletir uma base de comparação ainda pequena, já que mesmo poucos tubulistas por data center elevam a demanda proporcionalmente conforme mais instalações são construídas.

A expansão, no entanto, não é uniforme geograficamente. Cidades como Houston e Birmingham registram crescimento particularmente robusto. Bachaud explica que regiões com mais espaço para expansão — muitas vezes onde as regras de construção tornam o desenvolvimento mais barato e rápido — tendem a concentrar a continuidade dos projetos, em contraste com polos costeiros que enfrentam custos mais altos e maior peso regulatório. Na prática, isso significa que um eletricista ou tubulista em Birmingham provavelmente encontra um mercado mais favorável ao contratante do que um profissional equivalente em Boston.

Otimismo econômico contra ceticismo público

Um estudo recente da empresa global de serviços imobiliários Cushman & Wakefield estima que cada 100 megawatts de nova capacidade de data center gera cerca de 1.300 empregos na economia local, com aproximadamente 110 milhões de dólares em salários anuais, 344 milhões de dólares em produção bruta e 187 milhões de dólares em produto regional bruto. A reportagem destaca ainda que boa parte dessas vagas não exige diploma universitário, sendo mais compatível com formação técnica.

Essa leitura otimista, porém, não encontra o mesmo eco no humor da opinião pública. De acordo com o instituto Gallup, a maioria dos americanos se opõe à instalação de um data center em sua própria região, e uma pesquisa do New York Times em parceria com o instituto Siena, realizada neste mês, encontrou rejeição majoritária entre democratas, independentes e republicanos, independentemente da filiação partidária.

Mesmo em locais onde os data centers avançam em ritmo intenso e geram mais empregos, o sentimento público se voltou contra os projetos. Uma pesquisa do Texas Politics Project registrou rejeição majoritária de eleitores à instalação de um data center em sua própria comunidade — nível suficiente, segundo alguns analistas, para abrir espaço de avanço eleitoral aos democratas no estado, tradicionalmente republicano. De acordo com o Data Center Watch, pelo menos 75 projetos de data center, somando cerca de 130 bilhões de dólares, já foram bloqueados ou adiados neste ano em meio à ampliação da resistência local.

Tensão política e freios regulatórios a projetos em curso

O governador do Texas, Greg Abbott, que disputa reeleição, editou recentemente uma moratória sobre aprovações de conexão à rede elétrica para data centers e suspendeu a emissão de novas licenças ambientais para o setor. Em Nova York, a governadora Kathy Hochul implementou a primeira proibição estadual à construção de novos data centers.

Esse cenário levou a Oracle a apresentar, nesta semana, um aviso de força maior — cláusula que permite adiar obrigações contratuais em razão de circunstâncias extraordinárias — sobre seu projeto de data center no Novo México, parte do programa mais amplo Stargate AI. A companhia busca postergar pagamentos caso a instalação não esteja operacional até 2028, citando a oposição local às vésperas das eleições de meio de mandato e preocupações ambientais entre os obstáculos que atrasaram o projeto.

O contraponto acadêmico: efeitos permanentes seriam menores do que se propaga

Michael Hicks, professor da Shenandoah University que estuda o impacto econômico dos data centers, atribui parte da reação negativa ao descompasso entre as promessas feitas por desenvolvedores e o que de fato se concretiza. Segundo ele, boa parte da rejeição decorre de incorporadoras que não foram transparentes com autoridades locais sobre os efeitos reais dos projetos, prometendo empregos de forma exagerada e obtendo isenções fiscais que classifica como desproporcionais.

Hicks também questiona a metodologia de estudos como o da Cushman & Wakefield, que, em sua avaliação, trabalham com cenários excessivamente favoráveis. Ele afirma acompanhar o impacto concreto de data centers no terreno desde o início dos anos 1990 e conclui que os efeitos permanentes sobre o mercado de trabalho tendem a ser limitados, com poucos casos em que os números se sustentam além da fase inicial de construção.

Ainda assim, Hicks se diz favorável à presença de data centers — não pelos empregos que geram, mas pelo efeito fiscal. Segundo ele, quando tributados na mesma alíquota aplicada às residências, esses empreendimentos costumam ampliar de forma significativa a base tributável de um município, permitindo cortes de impostos sobre a propriedade dos moradores. Ele cita o condado de Loudoun, na Virgínia, onde a tributação média sobre imóveis caiu 3.400 dólares desde 2020 em razão da forte expansão de data centers na região. Alternativamente, essa receita extra pode financiar serviços e comodidades comunitárias capazes de compensar o ruído e a pressão sobre a rede elétrica — ainda que, segundo o professor, alguns estados também concedam isenções fiscais que considera injustificadas e economicamente questionáveis.

Como uma pequena empresa familiar na Geórgia sente o boom na prática

Enquanto o debate político segue tenso, a reportagem mostra que a expansão já se traduz em resultados concretos em pequenas comunidades. É o caso de Trey Travis, vice-presidente de operações da Southeastern Hose, fabricante de mangueiras industriais e juntas de expansão sediada em Bremen, na Geórgia, cidade de 7 mil habitantes. Travis é a terceira geração à frente do negócio familiar, fundado por seu avô nos anos 1960 — época em que, segundo ele, a inteligência artificial ainda era ficção científica.

A empresa é especializada em condução de fluidos e expansão térmica, com produtos usados para gerenciar variações de temperatura e evitar falhas em sistemas de tubulação rígida — peças discretas, mas essenciais, na engrenagem de um data center. Travis compara seus produtos ao "parafuso que falta" em um projeto de reforma doméstica: algo pequeno, obscuro, mas sem o qual a obra simplesmente não avança.

Segundo ele, a demanda por mangueiras e juntas fabricadas pela empresa vive um momento de forte aceleração, oferecendo um fôlego econômico à pequena cidade da Geórgia. Travis afirma que o negócio cresceu de forma expressiva nos últimos 18 meses, período em que o quadro de 150 funcionários aumentou 40%. A empresa mantém parcerias com escolas técnicas e ensino médio local para programas de aprendizagem no próprio ambiente de trabalho, o que ajuda a suprir a contratação. Segundo Travis, os trabalhadores conseguem fazer todas as horas extras que quiserem, ganhar bem e ainda manter a vida familiar.

O que isso significa para o investidor

Para quem acompanha o mercado brasileiro com um olho na cadeia global de inteligência artificial, a reportagem da CNBC reforça um ponto relevante: o ciclo de investimento em data centers não se resume às gigantes de tecnologia listadas em bolsa — ele irriga uma cadeia de fornecedores de infraestrutura física, de eletricistas a fabricantes de componentes industriais, como a própria Southeastern Hose. Empresas expostas a esse elo intermediário da cadeia — energia, construção pesada, HVAC e componentes industriais — tendem a captar parte do crescimento sem depender diretamente da valorização das big techs.

Ao mesmo tempo, o material evidencia um risco que ainda não está plenamente precificado: a reação política e social contra novos projetos, com moratórias estaduais como as do Texas e de Nova York e o adiamento de dezenas de bilhões de dólares em empreendimentos, segundo o Data Center Watch. O caso da Oracle, que recorreu a uma cláusula de força maior em seu projeto no Novo México dentro do programa Stargate AI, ilustra como esse atrito pode se traduzir em atraso de cronograma e de receita mesmo para companhias com capital robusto.

Vale também observar a ressalva do professor Michael Hicks: os efeitos permanentes de emprego tendem a ser mais modestos do que sugerem estudos de impacto encomendados pelo setor, concentrando-se sobretudo na fase de construção. Isso é relevante para investidores que avaliam teses de longo prazo baseadas em geração de empregos locais como argumento de sustentabilidade política dos projetos — o componente fiscal, citado por Hicks como o benefício mais duradouro, pode se mostrar mais robusto do que a criação de vagas em si.

Por fim, a desigualdade regional apontada por Nicole Bachaud — com polos como Houston e Birmingham crescendo mais rápido que áreas costeiras de maior custo regulatório — sugere que investidores em infraestrutura, imóveis industriais e fornecedores de mão de obra especializada devem monitorar de perto onde os novos projetos efetivamente avançam, e não apenas onde são anunciados, dado o volume crescente de iniciativas bloqueadas ou adiadas em meio à resistência local.

Agregado por AAR News · fonte: CNBC

Texto reescrito pela redação AAR com assistência de IA · confira a fonte · como produzimos